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46º Festival de Cinema de Gramado: Cerimônia de premiação tem protesto contra ANCINE e questionamentos políticos

O grande vencedor da noite foi o longa Ferrugem, de Aly Muritiba. Além dele, o filme estrangeiro Las Herederas fez história no evento ao vencer seis títulos

Publicado em 26/08/2018 | Por Ana Clara Xavier

Já que estamos falando de cinema, senta na cadeira e pega a pipoca, porque muita coisa rolou na serra gaúcha durante a cerimônia de premiação do 46º Festival de Cinema de Gramado. De protestos políticos à luta pelo direito da mulher, a premiação contou com falas potentes e, muitas vezes, questionadoras sobre o caminho que a sociedade brasileira está tomando. A noite deste sábado contou com um longa estrangeiro levando a incrível marca de seis Kikitos para casa e ainda a vitória de um filme brasileiro mais voltado para o público adolescente. Vem saber de todos os detalhes desta festa que respira cinema!

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Foto oficial dos vencedores do 46º Festival de Cinema de Gramado logo após receberem o troféu (Foto: Edison Vara / Pressphoto)

O vencedor da categoria mais esperada foi Ferrugem, de Aly Muritiba, que fala sobre as consequência que um vídeo íntimo vazado pode ter na vida de uma estudante do ensino médio. “Mostrar o filme neste festival, neste país com esta onda conservadora e neste momento histórico poder discutir as questões que levantamos é especial. Essa edição foi realmente especial com toda a ideia da acessibilidade. Fico feliz de poder celebrar com vocês”, comemorou o diretor. Além deste título, o elenco e equipe ainda receberam mais dois Kikitos: Melhor desenho de som por Alexandre Rogoski e Melhor Roteiro por Jéssica Candal e Aly Muritiba. Durante o seu discurso, Aly ainda aproveitou para comemorar um feito: “Tivemos uma equipe composta por 70% pessoas do gênero feminino, mais ou menos. Isto não foi por acaso, porque a nossa indústria é extremamente masculina e excludente. Exatamente por isso quero dedicar este prêmio a todas as mulheres que participaram”, homenageou.

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Elenco e equipe de Ferrugem levou para casa o título de Melhor filme desta edição (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

Apesar de não ter levado para casa o Kikito de melhor filme, o longa Benzinho, de Gustavo Pizzi, foi o brasileiro mais premiado em quantidade de prêmios com um total de quatro títulos. “Este filme fala sobre amor em um momento tão radical de polarização. Acho que a gente tem que lutar contra isso, dialogar e conversar. Se a gente conseguir fazer isto, podermos construir coisas incríveis”, comentou o diretor. A trama fala sobre amor e empatia, além de valorizar as relações familiares na figura de protagonistas femininas fortes. Esta característica um tanto empoderada das personagens ajudou as atrizes Adriana Esteves e Karine Teles a ganhar os títulos de melhor atriz coadjuvante e melhor atriz, respectivamente. “O Benzinho é exatamente sobre todos estes trabalhadores invisíveis no nosso país e todas as mulheres que carregam nas costas a sua família fazendo o mundo andar para frente com amor”, informou Karine. Ela aproveitou o momento para agradecer o troféu em nome de Adriana e ainda elogiou a artista: “Ela é uma atriz descomunal, uma pessoa da melhor categoria e com uma das almas mais bonitas que conheço”.

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Karine Teles com o seu Kikito de melhor atriz e o da Adriana Estives de melhor atriz coadjuvante (Foto: Edison Vara / Pressphoto)

Saindo um pouco da premiação brasileira e passando para a estrangeira, o longa Las Herederas, de Marcelo Martinessi, chegou à incrível marca no festival de ganhar seis Kikitos. Foi, de longe, a equipe mais premiada deste ano, se destacando em categorias muito importantes como Melhor Direção, Roteiro, Atriz, além de melhor filme  escolhido pela crítica, pelo júri popular e pelos jurados. “Gramado é uma cidade cheia de flores e também de neblina. E isto me lembrou que a vida é assim mesmo: temos cores, alegrias, tristezas e melancolias. Estes prêmios terão um lugar especial nos nossos corações”, agradeceu Ana Brun, que levou melhor atriz junto com as companheiras de elenco Margarita Irun e Ana Ivanova.

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Equipe de Las Herederas ganhou seis títulos, incluindo o de melhor filme estrangeiro (Foto: Edison Vara / Pressphoto)

Já nos curtas, quem levou o título de melhor filme foi Guaxuma, de Nara Normande. No entanto, quem levou a maior quantidade de prêmios importantes foi Torre, de Nadia Mangolini, pois chegou a ganhar Melhor direção de Arte, Melhor Filme pelo Júri Popular e Melhor Filme pela Crítica. A trama acabou tocando o coração das pessoas por tratar de temas delicados da nossa trajetória. “Gostaria de agradecer à família do Virgílio Gomes da Silva pelos seus depoimentos para que o filme pudesse ser realizado. Ele foi assassinado pelo estado brasileiro e o seu corpo nunca foi encontrado. Este resquício da ditadura, de um estado assassino, continua até hoje. Quem matou Marielle Franco, afinal? É muito importante que a gente reflita sobre a nossa história para ela não ser apagada, principalmente, em tempos que temos candidatos que defendem abertamente a ditadura e a tortura. A gente precisa repensar os nossos processos históricos”, lamentou a diretora Nadia.

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Nadia Mangolini impulsionou a luta pela notoriedade da ANCINE(Foto: Edison Vara / Pressphoto)

Apesar de nem todo mundo ter conseguido levar um Kikito para casa, as equipes dos curtas-metragens provaram estar mais unidas que nunca. Grande parte dos cineastas chegou junto vestindo uma camiseta que se lia: ‘ANCINE, eu existo’. O protesto aconteceu devido à fala da diretora Nadia Mangolini nesta última sexta-feira, na qual pediu por mais atenção da agência sob este tipo de produção. “O meu curta existe assim como todos produzidos aqui também. Nós precisamos que isso seja considerado pela ANCINE”, afirmou a cineasta novamente durante a cerimônia de hoje. A sua fala acabou sendo reiterada por outros profissionais também como Al Danuzio, de A Retirada Para um Coração Bruto. “ANCINE, este é o clamor de todo mundo aqui. A gente rala muito para fazer um curta, então tem que contar conosco”,  pediu. O diretor do longa Ferrugem, Aly Muritiba,  ainda dedicou o prêmio de Melhor Desenho de Som ao movimento iniciado durante o Festival de Cinema de Gramado.

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Equipe do filme Aquarela vestindo a camiseta que diz ‘ANCINE, eu existo’ (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

A quantidade de protesto político não parou por aí. Osmar Prado foi o grande vencedor do prêmio de Melhor Ator, no entanto, durante o seu discurso, aproveitou para mostrar a sua posição. “Peço pelo pronto restabelecimento do estado democrático de direito neste país, pelo fim das conduções coercitivas e as torturas psicológicas das delações premiadas e pela injusta prisão do presidente Lula que foi trancafiado na masmorra de Curitiba pelo juiz Sérgio Moro”, declarou. O artista ainda foi endossado por outros famosos como Karine Teles, José Alvarenga e Otto Guerra. Este último, inclusive, agradeceu à coragem de Osmar por falar isto em público.  “Estou em pânico desde a coerção do Lula. Estou muito apavorado com isso. Vivi a época do outro golpe, então é como se houvesse uma nuvem negra sobre o Brasil. É inacreditável. Espero que esta loucura que está acontecendo agora acabe e a gente volte a ser um país sem este ódio. Lula livre, pelo amor de Deus”, afirmou Otto. A mensagem de ambos os profissionais foi respondida com muitas palmas e vaias.

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Osmar Prado ganhou o título de melhor ator pelo seu personagem em 10 Segundos Para Vencer (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

O Festival de Cinema de Gramado segue vivo há 46 anos. O evento já provou inúmeras vezes a sua importância e o seu papel cultural.  Sendo assim, esperamos continuar vivenciando esta experiência durante muitos anos. Mas o que será dos próximos meses, dias e décadas que virão? O site HT perguntou a alguns famosos que passaram pelo tapete vermelho nesta noite de holofotes e as respostas foram bem variadas. De acordo com José Alvarenga, 10 Segundos Para Vencer, é necessário inovação. “O cinema é grandioso, não somente pela qualidade das imagens que pode oferecer quanto pela discussão que pode levantar. O que a gente precisa é se adaptar as novas tecnologias”, sugeriu. Enquanto isso, Marina Provenzzano, de Mormaço, pretende ver uma maior variedade. “Espero que haja uma atenção especial para que cada vez mais vozes possam estar sendo representadas trazendo uma produção diversificada. O investimento não pode ser apenas comercial”, afirmou e ainda foi complementada por Giovanni de Lorenzi, de Ferrugem: “Quero que a gente tenha mais produções locais de diversas regiões do país”. De qualquer maneira, a gente tem certeza que o Festival de Cinema vai estar acompanhando todas estas reviravoltas juntamente com o site HT, claro.

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 Confira a lista dos ganhadores do 46º Festival de Cinema de Gramado.

Curtas brasileiros

  • Melhor Desenho de Som: Fabio Carneiro Leão, por Aquarela
  • Melhor Trilha Musical: Manoel do Norte, por A Retirada Para um Coração Bruto
  • Melhor Direção de Arte: Pedro Franz e Rafael Coutinho, por Torre
  • Melhor Montagem: Thiago Kistenmacker, por Aquarela
  • Melhor Fotografia: Beto Martins, por Nova Iorque
  • Melhor Roteiro: Março Antonio Pereira, por A Retirada Para um Coração Bruto
  • Melhor Ator: Manoel do Norte, A Retirada Para Um Coração Bruto
  • Melhor Atriz: Maria Tujira Cardoso, Catadora de Gente
  • Prêmio Especial do Júri: Estamos Todos Aqui, Chico Santos e Rafael Melin
  • Prêmio Canal Brasil de Curtas: Nova Iorque, de Leo Tabosa
  • Melhor Filme do Júri Popular: Torre, de Nadia Mangolini
  • Melhor Direção: Fábio Rodrigo, por Kairo

Longas Estrangeiros

  • Melhor Fotografia: Nelson Waisntein, por Averno
  • Melhor Roteiro: Marcelo Martinessi, por As Herdeiras
  • Melhor Ator: Néstor Guzzini, por Mi Mundial
  • Melhor Atriz: Ana Brun, Ana Ivanova e Margarita Irun, As Herdeiras
  • Prêmio Especial do Júri: Averno
  • Melhor Filme do Júri Popular: As Herdeiras
  • Melhor Direção: Marcelo Martinessi, As Herdeiras

Longas brasileiros

  • Melhor Desenho de Som: Alexandre Rogoski, Ferrugem
  • Melhor Trilha Musical: Max de Castro e Wilson Simoninha, por Simonal
  • Melhor Direção de Arte: Yurika Yamazaki, Simonal
  • Melhor Montagem: Gustavo Giani, A Voz do Silêncio
  • Melhor Ator Coadjuvante: Ricardo Gelli, 10 Segundos Para Vencer
  • Melhor Atriz Coadjuvante: Adriana Esteves, Benzinho
  • Melhor Fotografia: Pablo Baião, Simonal
  • Melhor Roteiro: Jéssica Candal e Aly Muritiba, Ferrugem
  • Melhor Ator: Osmar Prado, 10 Segundos Para Vencer
  • Melhor Atriz: Karine Teles, Benzinho
  • Menção Honrosa: A Cidade dos Piratas

Prêmio Especial do Júri

  • Melhor filme do Júri Popular: Benzinho, de Gustavo Pizzi
  • Melhor Direção: André Ristum, A Voz do Silêncio

Prêmios da Crítica

  • Melhor filme em curta-metragem brasileiro: Torre
  • Melhor filme em longa-metragem estrangeiro: As Herdeiras
  • Melhor filme em longa-metragem brasileiro: Benzinho

Melhores filmes

  • Melhor curta-metragem brasileiro: Guaxuma
  • Melhor longa-metragem estrangeiro: As Herdeiras
  • Melhor longa-metragem brasileiro: Ferrugem, Aly Muritiba

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