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46º Festival de Cinema de Gramado: Ney Latorraca é homenageado por Claudia Raia

Atriz faz surpresa para o artista que levou para casa o Troféu Cidade de Gramado. Além da premiação, o longa O Avental Rosa - que lançou Bruno Cabrerizo no Brasil- e A Cidade dos Piratas também foram exibidos junto com os curtas Torres e Apenas o que Você Precisa Saber Sobre Mim

Publicado em 25/08/2018 | Por Ana Clara Xavier

O último dia de competição do 46º Festival de Cinema de Gramado fugiu completamente da regra. A equipe do evento conseguiu quebrar todos os protocolos para fazer uma das homenagens mais emocionantes destes 46 anos. O atraso incomum para o início da cerimônia foi justificado nos primeiros minutos. A noite contou com a inesperada presença de Claudia Raia que veio do Rio de Janeiro para a Serra Gaúcha especialmente para celebrar a carreira de seu amigo de longa data: Ney Latorraca. “Um homem singular e que traz alegria para todos os seus colegas. Todos nós temos a honra de compartilhar do seu talento, da sua seriedade com o trabalho e do seu amor pela profissão. Portanto, hoje, vim falar do profissional, do homem, do amigo e do meu irmão. Estou aqui, meu querido amigo, para te aplaudir e dizer que você merece todas as homenagens do mundo pelo ator e pela pessoa que você é”, informou a atriz antes de chamar o ator para o palco. Nesta sexta-feira, o artista foi condecorado com o Troféu Cidade de Gramado, prêmio dado todos os anos para famosos que tenham uma ligação muito grande com o cinema e a cidade.

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Ney Latorraca com o troféu Cidade de Gramado nas mãos ao lado da amiga Claudia Raia (Foto: Edison Vara / Pressphoto)

A emoção, claro, foi garantida, mas as risadas também, afinal, não podiam faltar risos quando o assunto é Ney Latorraca. Ao receber o Troféu, o ator pediu, brincando, mais aplausos, porque ‘estava carente’. “Estou feliz mesmo, mas não esperava a Claudia. Temos segredos que não podemos revelar jamais, pois são verdadeiros escândalos. É uma vida inteira”, brincou. Claudia acabou revelando uma das histórias. Segundo ela, o ator lhe deu uma surra de flores e, no final, ficou toda ensanguentada. “Isto é apenas o começo”, completou o ator. Brincadeiras à parte, o artista agradeceu ao reconhecimento e ainda confessou ter sangue gaúcho graças à família da sua mãe. “Queria dizer que é uma honra estar aqui e receber este troféu. Não tenho nada do que reclamar. Deu tudo certo na minha vida, mesmo sendo filho de pais pobres. Nós fomos muito felizes na nossa pobreza”, contou. Em discurso, Ney ainda falou sobre a importância do movimento que o Festival de Cinema está fazendo para incluir deficientes visuais e auditivos.

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Ney Latorraca e Claudia Raia dão um selinho durante a homenagem ao ator (Foto: Fabio Winter / Pressphoto)

Além da homenagem, o grande filme da noite foi obra do destino ou da casualidade. Seja como for, o longa O Avental Rosa foi último filme a entrar na lista de finalistas do 46 Festival de Cinema de Gramado. Isto porque a montagem só entrou para a competição devido à desclassificação de uma outra produção, o que levou a trama a substituí-la. O fato é que quando o elenco e equipe desta trama entrou no tapete vermelho, tudo começou a fazer mais sentido. Grande parte das pessoas que participaram do filme vestiam um avental rosa que dizia ‘voluntário’ fazendo referência ao título e aos acontecimentos da narrativa. “O avental simboliza ajuda às pessoas, mas, de qualquer forma, este longa fala de uma mulher que cuida de pacientes terminais, mas que, de alguma maneira, vai renascendo a partir da morte”, explicou o diretor Jayme Monjardim.

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Equipe e elenco de O Avental Rosa carregam um avental para simbolizar o filme (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

De certa forma, o grupo parecia fazer parte daquele lugar ao levar posicionamentos e ensinamentos de vida. “Não acho que estamos lançando um filme hoje, na verdade, estamos lançando um movimento de solidariedade e de amor. Acho que estamos vivendo um momento muito difícil, o mundo está estranho. Se nós não nos mexermos e utilizarmos a cultura para tentar mudar alguma coisa, acho que não vamos para frente. Por isso estar aqui hoje é um movimento, pois quero tentar estimular as pessoas a fazerem algo juntos”, comemorou o diretor, que é conhecido por dirigir grandes novelas como Tempo de Amar.

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“Não acho que estamos lançando um filme hoje, na verdade, estamos lançando um movimento de solidariedade e de amor”, afirmou Jayme Monjardim (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

De grandes séries a um longa intimista, O Avental Rosa é completamente diferente de qualquer obra já produzida por Monjardim. Ao contrário dos cenários espetaculares, a trama é bastante simples e, ao mesmo tempo, mais introspectiva. “Estou acostumado a fazer grandes produções, mas considero este o meu primeiro filme autoral. Junto com a Claudia Neto, a roteirista, nós idealizamos um mundo melhor e este é um pedacinho desta realidade”, explicou.

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Enquanto O Avental Rosa convida as pessoas para repensar a vida, o filme A Cidade dos Piratas leva os espectadores a questionarem a ficção da vida real. A trama conta a história de um diretor de cinema que passa a negar os próprios protagonistas de sua trama e, para concluir tudo isso, acaba entrando na dramaturgia para contar o drama. “Me inspirei na Laerte para fazer um personagem. Ela era um homem que, aos 60 anos, acabou se assumindo transgênero. Esta revolução da vida dela entrou na história, porque discutimos a homofobia nesta sociedade dos piratas. Para isso, eu e ela acabamos entrando nesta trama”, explicou o diretor Otto Guerra.

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Otto Guerra comemora a primeira exibição do longa A Cidade dos Piratas (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

Não há dúvidas de que a carreira de Otto Guerra e o Festival de Cinema de Gramado andam juntos. No ano passado, o cineasta chegou a ganhar o Troféu Eduardo Abelin, que neste ano foi dado ao brasileiro mais queridinho de Hollywood, Carlos Saldanha. Depois de passar pela emoção de receber tamanha homenagem, o diretor nesta edição está concorrendo com um filme animado na categoria de longas brasileiros. “Gramado tem uma característica mais ‘classuda’ e por isso ver este longa concorrer com tantos outros bacanas é muito legal. Até porque a animação fica em um limbo, pois não chega a ser ficção e nem documentário. Foi uma surpresa ter entrado”, comemorou. Cidade dos Piratas foi exibido pela primeira vez nesta sexta-feira.

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Às vezes, uma imagem diz mais do que mil palavras, mas um desenho tem o poder de contar histórias e passar mensagens profundas através de metáforas. Este é o caso do longa Torres. Através de imagens animadas, a narrativa conta a história de quatro irmãos, filhos do primeiro desaparecido político da ditadura, Virgílio Gomes da Silva. A partir de cada visão, os mais novos vão contando todo o terror que viveram durante a sua infância no regime. Ao apresentar o seu curta, a diretora Nádia Mangolini aproveitou para mostrar um pouco do seu posicionamento e da dificuldade de se fazer cinema no Brasil. “Estou muito feliz de participar deste Festival, apesar da ANCINE dizer que curta-metragem não vale nada. As atuais linhas de financiamento da agência, tanto a automática quanto a seletiva, mostram que o curta não pontua nada e não vale para o currículo. No entanto, isto é fatal para quem quer produzir seus longas, para pequenas e médias empresas e para as produtoras. De qualquer forma, estamos defendendo este poder de fala em Gramado. Estamos dizendo para a ANCINE que sim, nós existimos e resistimos”, enfatizou a cineasta que ainda foi endossada por Jayme Monjardim: “Só estou aqui por causa dos meus curtas. Você tem toda a razão e acho que precisamos nos juntar nesta causa”.

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Diretora Nádia Mangolini lamenta sobre as mudanças na ANCINE (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

Da mesma forma como Nádia Mangolini e Jayme Monjardim, a diretora Maria Augusta V. Nunes também aproveitou o espaço de fala para defender o formato que estava apresentando. “Queria aproveitar para reiterar o que foi dito na sessão anterior a respeito das novas formas de pontuação da ANCINE, porque não contempla os curtas. Ao meu ver, eles colocam o curta como algo menor e desconsidera a importância deste recurso na formação do cineasta, colocando mais uma barreira para que as produtoras viabilizem os seus longas. Se para eles não vale nada, para nós vale bastante”, lamentou. Maria Augusta foi a diretora do filme Apenas o que Você Precisa Saber Sobre Mim que fala sobre dois adolescentes que se conhecem em uma pista de skate e começam a se relacionar. No entanto, tudo muda quando ela some sem precedentes.

Diretora Maria Augusta V. Nunes também critica a falta de incentivo para curtas (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

Emoções e discursos empoderados marcaram o último dia de mostra competitiva no 46º Festival de Cinema de Gramado. Além dos questionamentos já levantados, é claro que o lado político não poderia ficar de fora deste dia. Tanto o diretor Otto Guerra quanto Maria Augusta Nunes pediram a saída do presidente Michel Temer do poder e Otto ainda falou ‘Lula Livre’. Ambos os posicionamentos despertaram a atenção do público entre vaias e aplausos. A grande figura que se destacou mesmo foi o ator Osmar Prado que levantou no meio da plateia e gritou: “Justiça”. O Festival de Cinema está chegando ao fim e a prova disso é no temperamento aflorado dos artistas e público. A cerimônia de premiação rola esta noite e vai ser transmitida ao vivo pelo Canal Brasil. A matéria completa sobre os ganhadores desta noite você confere amanhã no site HT.

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