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46º Festival de Cinema de Gramado: saída de longa concorrente e homenagem à estrela latina marcam o sexto dia

O site HT bateu um papo exclusivo com o nome à frente do evento sobre a organização, a parceria com a ANCINE e a edição inclusiva. “Temos acertado e errado muito ao longo do tempo, mas a gente procura ser o melhor, sempre. Focamos nos detalhes desde os mais preparados curadores até a organização. Tudo é feito com muita seriedade”, considerou Edson Humberto Nespolo, presidente da Gramadotur

Publicado em 23/08/2018 | Por Ana Clara Xavier

Esta quarta-feira tinha tudo para ser um dia menos entusiasmante no 46º Festival de Cinema de Gramado, mas, graças à ótima organização da equipe, tudo acabou dando certo no final. A noite terminou recheada de emoções e com um gostinho de quero mais cinema e cultura, claro. A grande preocupação se deu por causa do cancelamento repentino da exibição do longa-metragem brasileiro O Banquete, um dos mais esperados do festival, devido à morte do jornalista Otavio Frias Filho, que era citado no roteiro. “Deu até uma tristeza, porque temos muitos cineastas que queriam estar concorrendo. Alguns, inclusive, ficaram chateados por não estar entre os nove finalistas. É lamentável. Existe todo um envolvimento de organização, emissão de passagem e outros gastos. De qualquer forma, a gente entende a situação e, agora, bola para frente. O nosso Festival é maior do que estes detalhes e certamente encontraremos um vencedor entre os outros concorrentes”, comentou Edson Humberto Nespolo, presidente da Gramadotur, organizador do evento. A noite de fortes emoções contou com premiação de uma diva latino-americana, a exibição de um longa estrangeiro que exalta a cultura boliviana e dois curtas que trazem uma reflexão sobre a nossa sociedade brasileira. Vem entender tudo!

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Edson Nespolo é o homem a frente deste Festival que é tradição gramadense (Foto: Fabio Winter / Pressphoto)

Com um elenco de atores globais como Chay Suede, Bruna Linzmeyer, Caco Ciocler e Drica Morais, O Banquete acabou sendo retirado de competição por decisão pessoal da diretora Daniela Thomas por ‘considerar este momento inoportuno para o encontro de ficção e realidade e as interpretações equivocadas que a ficção pode suscitar’. Apesar disso, o show tem que continuar, sendo assim a montagem foi rapidamente substituída por A Chave do Vale Encantando, de Oswaldo Montenegro. “Este filme é de alegria e afeto e eu dedico esta montagem à Madalena Salles, que fez o papel da vovó. Ela é a grande razão para eu estar aqui e não ter ido para o hospício. É a grande irmã que Deus me deu”, comemorou o diretor. A trama está fora de competição, mas fala sobre um lugar mágico onde os personagens dos contos de fada moram.

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Oswaldo Montenegro é o diretor do filme infantil A Chave do Vale Encantando. O cineasta estava em Gramado para exibir o seu filme na sessão infantil do Festival, que rolou na manhã desta quarta-feira. Com as alterações, ele acabou estendendo o seu tempo na cidade para mostrar o seu longa à noite (Foto: Edison Vara / Pressphoto)

Esta não foi a primeira vez que o Festival de Cinema teve que lidar com obstáculos na sua programação, afinal, em 46 anos de estrada muita coisa já aconteceu. Apesar disso, o evento sempre soube dar um jeitinho e, por esse motivo, é considerado o encontro cinematográfico mais importante do país. “Temos acertado e errado muito ao longo do tempo, mas a gente procura ser o melhor, sempre. Focamos nos detalhes, desde os mais preparados curadores até a organização. Tudo é feito com muita seriedade”, considerou Nespolo. Com os holofotes do país sempre voltados para este grande vitrine do cinema nacional e latino-americano, o festival se mostrou vanguarda em diversas edições e esta não está sendo diferente. O evento está mais diverso e inclusivo que nunca. “Temos dado um grande salto na questão da inclusão de deficientes visuais e auditivos. Isto é algo fundamental. Temos que andar para frente. Fico orgulhoso de saber que somos vanguarda neste quesito”, comemorou o presidente. Nesta terça-feira, inclusive, os dois longas e curtas contaram com aparelhos de audiodescrição para fomentar esta inclusão.

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Coletiva de Imprensa da homenageada Natalia Oreiro que recebeu o Kikito de Cristal na noite desta quarta. A jornalista Bruna Provenzano, o curador Marco Santuário, os donos da empresa Cristais Gramado, Irane Land e Telmo de Freitas Gomes, Natalia Oreiro e Presidente da GramadoTur, Edson Nespolo, posam para foto na fábrica de Cristais (Foto: Edison Vara / Pressphoto)

O Festival de Gramado está sempre somando forças para fortalecer o cinema do nosso país e, neste ano, contaram com um grande apoio da ANCINE que, durante o evento, anunciou os principais pontos do novo edital de fomento à produção cinematográfica que vai disponibilizar R$150 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual. “Temos que agradecer muito à ANCINE, porque é a primeira vez que vem com tanta força para o Festival de Cinema de Gramado. Muitas pessoas estão comentando sobre as mudanças e acho normal esta instabilidade que gera, mas tenho a certeza de que as medidas que estão sendo tomadas são para democratizar o processo. Atualmente, temos muito dinheiro na mão de poucos e as novas medidas vão reverter isso”, comemorou o presidente Nespolo. Em conversa exclusiva para o site HT, Zezé Polessa, que é a jurada dos longas brasileiros deste ano, comentou sobre a importância das leis de incentivo no nosso país. “Nós, jurados, sempre acabamos conversando sobre os problemas do mercado, porque filmes que faziam um milhão de espectadores, atualmente, estão fazendo dez mil. Fico pensando muito na questão da educação, porque os longas mostram uma época e a nossa história. Deveria haver uma política de incentivo das pessoas também. O Festival de Cinema de Gramado acaba fazendo isso. Quando as pessoas falam comigo na rua, sempre pergunto se já foram assistir aos filmes”, contou a atriz.

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Atriz Natalia Oreiro recebe o Troféu Kikito de Cristal que é entregue por João Alfredo de Castilhos Bertolucci, Prefeito de Gramado (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

Toda esta união de forças proporciona a emoção que vivenciamos todos os dias no Palácio dos Festivais. Dessa vez, a grande estrela da noite foi a homenageada Nathalia Oreiro, que é cantora, atriz, estilista, empresária, modelo, produtora e Embaixadora Da Boa Vontade Da Unicef. Ela foi condecorada com o Kikito de Cristal, troféu disponibilizado para consagrar famosos de nossos países vizinhos. “Para mim, é uma grande honra receber este reconhecimento tão importante neste festival. E, ainda por cima, neste país irmão que amo tanto e que me acompanhou em vários momentos ao longo da minha vida, pessoalmente e profissionalmente. Eu comemoro a união cultural latino-americana e os reconhecimentos das mulheres dentro do cinema. Por mais filmes que nos representem. Este Kikito de Cristal vai ficar para sempre no meu coração”, comemorou. Para quem não a conhece, a uruguaia firmou uma carreira de sucesso na Argentina e é adorada na Rússia. Ela embarcou na carreira de atriz quando se tornou paquita da versão latina do show da Xuxa e, desde então, se consagrou nas telonas sendo conhecida como ‘A Rainha das Telenovelas’. Passou a ser conhecida na Rússia depois da trama Muñeca Braba e, de lá para cá, chegou a morar do país por algum tempo e até fazer uma minissérie. A fama é tanta que foi a voz de um dos hinos oficiais da Copa do Mundo de 2018, United By Love.

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Nathalia Oreiro recebe a ajuda de Telmo de Freitas Gomes, diretor da Cristais Gramado, para confeccionar a cabeça do Kikito do ano que vem (Foto: Edison Vara / Pressphoto)

Assim como Nathalia Oreiro, o filme estrangeiro desta noite é uruguaio. Na verdade, o longa Averno é fruto de uma co-produção entre a Bolívia e este outro vizinho brasileiro. A trama é bastante singular e adentra na cultura dos povos andinos. “Quero que as pessoas se aproximem do consciente dos nossos povos nativos, porque existem poucos longas que retratam este universo. Além disso, é uma tentativa de mostrar o nascimento do herói, afinal, nós temos uma tradição de nos martirizar. Foi muito difícil me distanciar destes contos famosos como Rei Arthur, porque as pessoas estão acostumadas com grandes efeitos especiais e entre outros. Por isso começamos no real e vamos trazendo o fantástico aos poucos”, explicou o diretor Marcos Loyaza. O longa demorou 11 anos para ser concluído devido a dificuldade de adaptação, afinal, são cerca de 50 personagens e quase 50 locações, na qual praticamente todas são montadas.

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Elenco do filme Averno no tapete vermelho do Palácio dos Festivais (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

Com traços fortes de surrealismo, o roteiro fala sobre um lugar do subconsciente, no qual antepassados e pessoas vivas convivem. Apesar de ser um local de difícil acesso, o protagonista Tupah terá que invadir este território para resgatar o tio. “Ele é uma pessoa que está se auto descobrindo através da busca por um familiar. A partir disso, encontra um lado seu mais corajoso que não sabia que tinha ao passar por várias provas. Nesta viagem, ele ganha alguns objetos que tem grande significado para nós, bolivianos, e encontra espécie de anjos mitológicos”, explicitou Paolo Vargas, que vive o protagonista. Sendo assim, através destas lendas antigas o personagem acaba achando um caminho para se encontrar. “Como ator, esta foi uma experiência muito diferente, porque filmamos durante um mês de noite. Precisei mudar todos os meus hábitos, fora que fiz aulas de artes marciais e atletismo”, explicou. A proposta é que, através desta montagem, os expectadores encontrem outro lado da cultura boliviana.

Diretor do longa Marcos Loyaza fala antes da exibição (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

Enquanto Averno fala sobre fantasia e ficção, infelizmente, o curta Estamos Todos Aqui fala de acontecimento muito reais e, por isso, ácidos. A narrativa coloca uma lente de aumento sob uma comunidade que fica perto do Porto de Santos e que recebe constantes ameaças de ser realocada. “Nasci e cresci neste lugar e me orgulho muito de poder estar aqui dividindo esta história com vocês”, comentou o diretor Chico Santos. A montagem tem uma pegada mais documental e traça um panorama da pobreza e desigualdade social no Brasil. “Queremos dedicar este filme a todas as pessoas que lutam pelo direito à moradia”, anunciou o diretor Rafael Mellim.

Chico Santos e Rafael Mellim são os diretores do filme Estamos Todos Aqui que concorre na categoria curta brasileiro (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

Por fim, o sexto dia do Festival de Cinema de Gramado terminou com o curta Nova Iorque que fala sobre a indecisão de muitos brasileiros em se estabelecer em suas terras ou ir para outro lugar em busca de uma vida melhor. “É um prazer imenso estar aqui. Nova Iorque é meu primeiro filme de ficção, porque venho de uma tradição documental. Dessa vez, resolvi ousar e tentar algo diferente, embora tenha uma característica um tanto documental por ser um resgate da minha infância e a minha história no interior. Estou muito feliz por estar aqui hoje”, explicou o diretor Leo Tabosa. Mais um dia de glória desta edição de Gramado que contou com grandes espetáculos e homenagens de tirar o fôlego.

Equipe de Nova Iorque no tapete vermelho do Festival de Cinema de Gramado (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

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