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46º Festival de Cinema de Gramado: Degradação do Rio e desmatamento no país são questionados no terceiro dia

Os dois curtas deste domingo levaram os espectadores ao Centro-Oeste e à Amazônia para mostrar a realidade das regiões e qual o papel da sociedade. O longa da noite traçou um panorama da cidade do Rio de Janeiro e todas as dificuldades que os cariocas estão passando

Publicado em 20/08/2018 | Por Ana Clara Xavier

O terceiro dia do 46º Festival de Cinema de Gramado possibilitou ao público uma volta ao passado, mas precisamente ao Rio de Janeiro, a Cidade Olímpica. O filme Mormaço, grande protagonista da noite, relembra a situação que o Brasil estava passando naquele momento e o impacto que as políticas públicas geraram na sociedade. A partir de linguagem de realismo fantástico, o longa questiona as nossas situações passadas e atuais. Além deste prisma de reflexão, o evento ainda exibiu dois curtas bastante empoderadores que abordaram questões como o desmatamento da Amazônia e a questão LGBT nas aldeias do centro-oeste do país. Uma noite polêmica, questionadora e bastante reflexiva que fez o público parar para repensar a atualidade. Vem conferir!

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Equipe do filme Mormaço apresentando o longa no terceiro dia (Foto: Cleiton Thiele / PRESSPHOTO)

Mormaço foi filmado em 2016, alguns meses antes do grande evento, e aquela foi a chance perfeita para mostrar todo o processo de transformação urbanística e social que a cidade estava enfrentando. “A ideia é causar uma reflexão sobre os momentos que nós vivemos e também sobre a forma como as pessoas participam das decisões do espaço urbano e comum. Acho que o Rio, inclusive, está assim por causa de políticas públicas que foram decididas naquela ocasião. Estamos pagando um pouco por este momento”, explicou a diretora do filme, Marina Meliande. Grande parte das filmagens, inclusive, foram realizadas na Vila Autódromo, uma comunidade que foi ameaçada, na época, de ser realocada por estar na frente do Parque Olímpico, mas acabou permanecendo. No entanto, a primeira casa escolhida para ser a base das filmagens não teve a mesma sorte. “A Casa da Penha, que era uma das grandes resistências e o nosso centro de produção, foi posta a baixo. Nós estávamos chegando lá para filmar, no nosso segundo dia, quando descobrimos. Foi uma confusão entre ficção e realidade, porque nós vivemos de perto aquilo. Vimos como as pessoas precisaram retirar as coisas de sua casa”, relembrou a protagonista Marina Provenzzano. De acordo com a diretora, a Vila Autódromo se transformou em um exemplo de resistência deste momento pré e pós-olímpico.

No entanto, engana-se quem pensa que a complexidade e a reflexão desta história para por aí. Na verdade, é apenas o start para o desenrolar desta trama. A narrativa do filme começa bastante passível de acontecer no cotidiano, porém, aos poucos, vai ganhando pitadas de realismo fantástico. “De alguma forma, a protagonista se transforma junto com os acontecimentos da cidade”, explicou a diretora. A personagem começa a ficar doente. O que, a princípio, seria apenas uma doença de pele passageira se torna algo muito maior. “Acho que é uma somatização, na minha opinião, de tudo o que está acontecendo. Nós queremos deixar a doença da Ana para a interpretação do público, mas, na minha opinião, ela se torna um sinônimo de resistência, porque  vai criando uma casca para sobreviver e se fincar naquele lugar”, salientou a atriz.

Marina Meliande é a diretora do longa exibido neste domingo (Foto: Fabio Winter / PRESSPHOTO)

A síntese deste filme seria um símbolo de resistência das pessoas que ainda lutam pela melhoria da cidade. “Esta personagem me deu a chance de mostrar aspectos que estavam me incomodando como moradora do Rio de Janeiro. Ela representa uma insatisfação que estava sentindo. A construção deste papel se deu muito mais a partir de uma identificação do que uma  simples imaginação ou criação normal. Todos nós seríamos um pouco a Ana, pois as coisas estão cada vez mais difíceis, temos um governo alucinado, mas nós levantamos e sobrevivemos”, garantiu Marina Provenzzano.

Mas é claro que a reflexão não poderia parar por aí. Os curtas deste domingo também trouxeram discursos empoderados e questionadores sobre a situação de outras partes do nosso país. No caso de Majur, a produção mostra a realidade de um chefe de comunicação de uma aldeia do interior do Mato Grosso. “Foi um filme desafiador para a gente. Este curta vai muito além de 20 minutos e eu gostaria de falar que o agro não é tão bonito assim, o agro mata e não é pobre”, afirmou o diretor Rafael Irineu. Além de exibir Majur, Rafael ainda comentou sobre a corrida presidencial. “Na semana passada, saíram as pesquisas de intenção de voto para presidente do nosso país e, em Mato Grosso, o candidato que está em primeiro lugar acompanha uma ideologia machista, homofóbica e racista que nos priva de viver em sociedade. Nós saímos na rua e vemos carros adesivados e pessoas vestindo camisetas com o seu rosto”, lamentou.

Rafael Irineu, diretor do curta Majur, fala sobre as questões da política no nosso país (Foto: Cleiton Thiele /PRESSPHOTO)

Rafael Irineu, diretor do curta Majur, fala sobre as questões da política no nosso país (Foto: Cleiton Thiele /PRESSPHOTO)

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O diretor Guilherme Gehr apresentou a animação Plantae sobre o desmatamento e a reação que um madeireiro contempla da natureza após cortar uma árvore. “O filme tem inspiração na Amazônia e no Sul do Brasil. Só não desmatamos onde não conseguimos chegar, na verdade. Esta é a minha indignação sobre o que acontece a partir do desmatamento”, salientou.

Guilherme Gehr junto ao símbolo do Festival de Cinema de Gramado, o Kikito (Foto: Fabio Winter /PRESSPHOTO)

Guilherme Gehr junto ao símbolo do Festival de Cinema de Gramado, o Kikito (Foto: Fabio Winter /PRESSPHOTO)

Mesmo com uma lista reduzida de filmes exibidos na noite, este domingo contou com produções muito questionadoras que fez o público parar um pouco e repensar os seus atos. Indo desde o Norte até o Sul, os filmes traçaram um panorama de nossa sociedade atual e do que podemos esperar dela.

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