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46º Festival de Cinema de Gramado: Assédio virtual e desigualdade social marcam o quinto dia

Além disso, teve apelo do diretor Aly Muritiba pela diversidade no cinema. “Faço um apelo para que a política de regionalização e os diferentes estilos de cinematografia continuem sendo fomentados. Espero que eu consiga, no ano que vem, fazer os meus pequenos filmes assim como tantos outros cineastas”, explicitou

Publicado em 22/08/2018 | Por Ana Clara Xavier

Dilemas infantis, desigualdade social e seres de outro planeta marcaram o quinto dia do 46º Festival de Cinema de Gramado. A pegada adolescente ficou por conta dos longas, tanto brasileiro quanto estrangeiro. Enquanto o nacional questionavam este universo conectado da internet juvenil, o uruguaio mostrou um pouco da realidade de famílias pobres que apostam  tudo na carreira futebolística dos filhos. Além disso, o curta Catadora de Gente mostra o discurso bem estruturado de uma mulher que sobrevive recolhendo o lixo das pessoas. Na trama, ela mostra as dificuldades de sua profissão não regulamentada e questiona a baixa escolaridade dos cidadãos brasileiros aliado ao desinteresse do Estado em mudar esta realidade. A noite encerrou com um curta que fala sobre amor e também sobre a solidão. Vem com a gente!

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Filme Ferrugem discute sobre a crueldade que pode haver na internet (Foto: Wallace Barbosa/AgNews)

Todo mundo sabe que internet é uma terra de ninguém, mas o longa Ferrugem chega às telonas exatamente para questionar esta ideia. Será mesmo que nós podemos ser tão anônimos assim? O filme brasileiro fala sobre a exposição das pessoas nas mídias digitais e o que pode acontecer quando um material pessoal cai na rede. “A ideia principal deste roteiro é frisar que nós temos uma responsabilidade na internet da mesma forma que temos na vida real. Tudo o que a gente compartilha sem saber a fonte, a culpa é toda nossa, mas a gente não tem tanta noção assim. Como lidar com o anonimato? Acredito que isto vai mudar aos poucos. O meu personagem, por exemplo, entra exatamente nesta questão de ter mostrado algo que não lhe pertencia para os outros”, explicou o ator Giovanni de Lorenzi, que atuou recentemente na novela Deus Salve o Rei. Na trama do longa, uma adolescente acaba tendo a sua vida virada ao avesso quando algo que ela não queria compartilhar cai no grupo do whatsapp do colégio. “O filme discute muito sobre o uso responsável da internet, acredito que se ele levantar o debate entre os jovens e os pais já terá cumprido a sua missão”, acrescentou o diretor Aly Muritiba.

“Tudo o que a gente compartilha sem saber a fonte, a culpa é toda nossa, mas a gente não tem tanta noção assim”, comentou o ator Giovanni de Lorenzi (Foto: Wallace Barbosa/AgNews)

O longa veio do Paraná e demorou quatro anos para fica pronto. Esta já é a segunda vez do diretor Aly no Festival de Gramado, mas, na primeira vez, veio concorrendo com um curta. Em papo exclusivo, Aly Muritiba relembrou a importância de continuarmos a exibir produções fora do eixo Rio-São Paulo. “Faço um apelo para que a política de regionalização e os diferentes estilos de cinematografia continuem sendo fomentados. Espero que eu consiga, no ano que vem, fazer os meus pequenos filmes assim como tantos outros cineastas”, explicitou.

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Persistência e coragem são as temáticas que envolvem o filme Mi Mundial. O longa possui um elenco, majoritariamente, uruguaio e tem feito sucesso no exterior por seu conteúdo infantil, porém questionador. “Muitas crianças que vivem no Uruguai passaram a valorizar mais os estudos a partir deste filme, porque entenderam que esta era uma ferramenta para o futuro e para a vida. Ficamos muito orgulhosos por saber disso. Estamos falando sobre lutar pelos seus sonhos e não desistir quando a situação for problemática”, comentou Verónica Perrota, protagonista do longa estrangeiro que está participando do Festival de Cinema de Gramado pelo terceiro ano.

Elenco do Longa-metragem estrangeiro Mi Mundial, que é inspirado em um livro (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

A trama é inspirada em um livro chamado Mi Mundial, de Daniel Baldi, e começou a ser idealizada em 2010. A história trata de um menino que é apaixonado pelo futebol e acaba chamando a atenção de um olheiro da capital para jogar em um time oficial. O menino assina um contrato para treinar fora e começa a lidar com o esporte mais profissionalmente. Ele quase consegue entrar para o Santos, no Brasil, mas retorna à sua cidade natal. “O Tito é uma pessoa um pouco metida, estuda muito pouco e quase não sabe ler. Vem de uma família muito pobre que acredita no seu sucesso como jogador”, relembrou Facundo Campelo. Esta foi a primeira vez que o ator mirim atuou em alguma produção.

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Apesar do elenco ser uruguaio, o longa é fruto de uma co-produção entre Uruguai, Brasil e Argentina. “Trabalhar com isso é bem complicado, porque esbarramos em muitas contradições e diferenças culturais. É uma engenharia constante. É preciso ter capacidade para negociar e saber reconhecer o espaço do outro. De qualquer forma, é uma união muito importante, porque temos uma história parecida e desafios muito próximos que, ao mesmo tempo, fazem com que a gente se potencialize. Por exemplo, se existe algum tipo de problema para arrecadação no outro país, eu posso ajudar, porque são locais diferentes”, comentou o produtor brasileiro Beto Rodrigues. Para o profissional, é muito importante este intercâmbio cultural.

O longa conta a história de um menino que era apaixonado pelo futebol e acaba indo jogar em um time oficial da capital (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

E por falar na luta pelos seus sonhos, o primeiro curta desta terça-feira exibe uma mulher que transborda esperança. Inspirado na história de Maria Tugira, o filme Catadora de Gente fala, de maneira um tanto documental, sobre esta mulher que há 35 anos se dedica a catar lixo. “Este filme é justamente para desacomodar os poderosos, os preconceituosos e os arrogantes”, afirmou a diretora Mirela Kruel. Apesar dela não ter tido muitos privilégios ao longo da vida, ela conta a sua história e mostra a sua visão de mundo sobre as desigualdades sociais. “Vi neste curta uma possibilidade de mostrar a minha história diante de uma sociedade tão injusta com o nosso trabalho, que ainda não é reconhecido pela maioria das pessoas. No Brasil, nós ainda somos exploradas”, lamentou Maria.

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Elenco do curta Catadora de Gente que mostra a opinião de uma mulher que vive recolhendo o lixo (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

Para finalizar, o último filme da noite foi o curta A Retirada Para Um Coração Bruto que, com certeza, esgotou toda a imaginação possível do diretor Marco Antonio Pereira. “Esta montagem mistura folia de reis, rock, alienígenas e terceira idade. Fala sobre amizade e sertão”, explicou o mesmo. A trama fala sobre Ozório, um senhor que vive na zona rural de Minas Gerais. Ele passa os seus dias ouvindo rock, depois da perda de sua esposa, no entanto a descoberta de seres de outro planeta acaba tirando o seu tédio. Esta terça-feira, em Gramado, trouxe longas mais voltados para o público infantil e seus dilemas, além de curtas com temas bem diversos que falam sobre a vida.

A Retirada Para Um Coração Bruto fala um pouco sobre a vida no sertão, a solidão, o amor e seres de outro planeta (Foto: Cleiton Thiele / Pressphoto)

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