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“Tive a chance de falar sobre a dor escondida das mulheres”, diz Karim Aïnouz sobre “A Vida Invisível”

Em entrevista exclusiva para o Site HT, o cineasta cearense, responsável por obras como “Madame Satã” e “Praia do Futuro”, falou sobre o seu mais recente lançamento, cultura e cinema como importante instrumento

Publicado em 02/09/2019 | Por Heloisa Tolipan

Fernanda Montenegro e o diretor Karim Aïnouz, que foi homenageado pelo Cine Ceará e teve exibição de seu filme, ‘A vida invisível’ (Foto: Rogério Resende)

*Com Iron Ferreira

Salve, grande Karim Aïnouz cuja trajetória profissional acompanhamos desde e sempre. E nos proporciona orgulho por ter se tornado um dos cineastas brasileiros mais importantes da atualidade, tendo contribuído de forma magistral com a cultura e com o audiovisual nacional. Cearense nascido em Fortaleza, ele é responsável por obras primas do cinema, como “Madame Satã”, de 2002, “O Céu de Suely”, de 2003, e “Praia do Futuro”, de 2014. O seu mais recente trabalho é o longa “A Vida Invisível”, vencedor do Grand Prix da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes e escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para tentar uma vaga no Oscar 2020. O filme também ganhou uma exibição especial durante o 29o Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema, onde o diretor foi homenageado com o Troféu Eusélio Oliveira, entregue em mãos pela amiga e dama da dramaturgia brasileira Fernanda Montenegro.

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A emoção do cineasta recebendo a homenagem das mão de Fernanda Montenegro (Foto: Rogério Resende)

As nossas palmas para o ilustre filho da terra cearense, professor de cinema que levantou o público que lotou o Cineteatro São Luiz, no Centro da capital Fortaleza, para ver ali, em carne e osso, o nosso orgulho nacional de “A Vida Invisível”, premiado em Cannes (melhor filme da mostra Un Certain Regard) e candidato brasileiro a uma vaga entre os finalistas ao Oscar internacional, ser apresentado em sessão mega especial na abertura do Cine Ceará 2019, terra fértil de grandes nomes das artes cinematográficas.

“Esse filme é muito importante para a minha carreira, pois ele começa sua vida como vencedor da mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes, um reconhecimento de extrema relevância. É a confirmação de 25 anos da minha vida fazendo cinema. Estou muito feliz. Espero que seja o meu filme mais popular. Acho que o cinema brasileiro deve chegar o mais próximo possível do público. Ele foi feito com esse objetivo. O filme tenta falar com o público através de referências anteriores, que possui um forte apelo popular. Ele implode essa questão de filme de autor e de público”, afirmou Karim.

O histórico Cineteatro São Luiz lotado para a primeira sessão no Brasil de “A vida invisível”. Foi neste local que Karim assistiu o primeiro filme quando garoto (Foto: Rogério Resende)

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A produção é baseada no livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, da autora pernambucana Martha Batalha, que se passa nos anos 50 e explora bem a forma como a cultura machista sufoca as mulheres. “Eu venho de um contexto familiar protagonizado por mulheres. Quando essas mulheres foram envelhecendo, eu comecei a entender que elas tinham dividido muito pouco comigo sobre suas trajetórias. Quando eu li o livro, isso ficou muito claro para mim. Com o filme, tive a oportunidade de falar sobre a dor escondida de várias mulheres. Eu quis olhar para esse lugar invisível de suas vidas. É uma história que fala sobre um contexto que ainda não tinha sido exposto”, frisou. E Karim aplaudiu a iniciativa do Cine Ceará, que nesta edição teve 44% dos longas da competição ibero-americana com assinatura feminina. E, a partir desta edição em diante, vai reservar 30% de suas vagas para filmes dirigidos por mulheres.

O cineasta revelou que “A Vida Invisível” pode ajudar o público a refletir sobre o silenciamento das mulheres (Foto: Rogério Resende)

Segundo o diretor, trata-se de um melodrama tropical porque a abordagem mistura preceitos clássicos do gênero, mas com um olhar que busca se adaptar a uma contemporaneidade brasileira. Em conversa com o Site Heloisa Tolipan, o cineasta revelou que acredita na possibilidade do filme ser usado como um estímulo para que as pessoas reflitam sobre essa questão. Segundo ele, é possível fazer um paralelo entre a história das personagens e a vida cotidiana de muitas brasileiras: “Eu espero que “A Vida Invisível” possa estimular o debate e exponha feridas que vem sendo cobertas de maneira tão intensa. Esse filme fala sobre a nossa mãe, nossas avós e as mulheres da nossa família. Espero que a partir dele a gente consiga olhar além do ponto de vista masculino. Ele expõe a maneira como as feridas no corpo dessas mulheres foram causadas pela cultura machista”.

Karim Aïnouz entre Fernanda Montenegro, que integra o longa, e Wolney Wolney Oliveira, cineasta e diretor do Cine Ceará (Foto: Rogério Resende)

Karim aproveitou para comentar sobre a possibilidade de o longa ser indicado na categoria de melhor filme estrangeiro no Oscar 2020. A última vez que o Brasil figurou nessa lista foi em 1999, com “Central do Brasil”, do carioca Walter Salles. “O “Central do Brasil” foi um filme muito importante na retomada do cinema brasileiro. De lá para cá, muita coisa mudou e há uma implementação pública que nos permite estar aqui agora. O que seria importante, antes de mais nada, é a celebração e o coroamento de um processo que tornou a indústria nacional muito produtiva. O Oscar confirma a potência da nossa indústria. Fico feliz com essa possibilidade. Afinal, cultura é onde a gente pode sonhar”, destacou.

Segundo Karim, o cinema pode ser uma importante ferramenta de resistência (Foto: Rogério Resende)

O diretor ainda salientou a sua vocação em utilizar suas produções como instrumento de questionamento social. Ele evidenciou que acredita no potencial de transformação que a sétima arte possui: “Enquanto resistência, o cinema é um instrumento político importantíssimo. No meu caso, o cinema faz as pessoas sonharem e pensarem sobre suas vidas. Porém, é necessário ter graça e sedução da hora de apresentar algum tipo de argumento. Através do cinema a gente pode jogar luz onde não tem. Ele vem sempre com uma ideia estratégica para tentar mudar uma realidade”.

O trabalho de um filho do Ceará ganha o mundo (Foto: Rogério Resende)

“A Vida Invisível” terá estréia antecipada nas telas do Nordeste a partir do dia 19 de setembro. “Decidimos antecipar o lançamento do filme no Nordeste, com o respaldo comercial das distribuidoras Sony Pictures e Vitrine Filmes, no Brasil, e da Amazon Studios, nos EUA, primeiro, porque o Karim é cearense, e também de modo a atender aos pré-requisitos da Academia para que o filme esteja qualificado a representar o Brasil no Oscar de 2020”, afirma o produtor Rodrigo Teixeira, da RT Features.

O sétimo longa-metragem da carreira do diretor, que traz no elenco Carol DuarteJuliaStocklerGregorio DuvivierBárbara SantosFlavia Gusmão e Fernanda Montenegro, como atriz convidada, vem conquistando prêmios importantes nos principais festivais do mundo, como o Grand Prix da mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes – inédito na história do cinema brasileiro –, além de prêmios do público de Melhor Filme e do júri de Melhor Fotografia, no Festival de Cinema de Lima; e o CineCoPro Award, no Festival de Munique.
“Assim como outros filmes brasileiros, ‘A Vida Invisível vem fazendo uma grande carreira no exterior desde que venceu o prêmio de Melhor Filme na mostra Un Certain Regard, em Cannes. Obviamente os filmes não têm uma carreira idêntica, mas nunca na história do Brasil tivemos tantos sucessos internacionais como neste ano. A principal vitrine do Oscar é o Festival de Toronto, cuja seleção contém doze títulos que representarão o cinema brasileiro na mesma mostra”, ressalta Teixeira.

Com uma sólida carreira internacional, o filme terá distribuição nos EUA pela Amazon Studios e já foi vendido para mais de 30 países, incluindo Grécia; França; Polônia; China; Hungria; Eslovênia; Croácia; Luxemburgo; Bélgica; Holanda; Sérvia; Argélia; Egito; Irã; Israel; Jordânia; Líbia; Marrocos; Emirados Árabes; Reino Unido; Portugal; Itália; Coréia do Sul; Rússia; Cazaquistão; Ucrânia; Taiwan; Suíça; Espanha e Turquia.

O longa já recebeu elogios de algumas das mais prestigiosas publicações do segmento de cinema no mundo. Segundo David Rooney, do The Hollywood Reporter – que relacionou o filme entre os 10 melhores do Festival de Cannes –, “A Vida Invisível’ é um drama assombroso que celebra a resiliência das mulheres, mesmo quando elas toleram existências combalidas”. O crítico ainda chamou a atenção para as texturas brilhantes, as cores ousadas e os sons exuberantes que servem para “intensificar a intimidade do deslumbrante melodrama de Karim Aïnouz sobre mulheres cujas mentalidades independentes permanecem inalteradas, mesmo quando seus sonhos são destruídos por uma sociedade patriarcal sufocante”.

As irmãs Guida e Eurídice são como duas faces da mesma moeda – irmãs apaixonadas, cúmplices, inseparáveis. Eurídice, a mais nova, é uma pianista prodígio, enquanto Guida, romântica e cheia de vida, sonha em se casar com um príncipe encantado e ter uma família. Um dia, com 18 anos, Guida foge de casa com o namorado. Ao retornar grávida, seis meses depois e sozinha, o pai, um português conservador, a expulsa de casa de maneira cruel. Guida e Eurídice são separadas e passam suas vidas tentando se reencontrar, como se somente juntas fossem capazes de seguir em frente.  O longa – ambientado majoritariamente na década de 50 – foi rodado no Rio de Janeiro, nos bairros da Tijuca, Santa Teresa, Estácio e São Cristóvão.

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