Três obras atualmente no ar sofreram veto ou suavização de beijos lésbicos. Veja também outras sanções a afetos LGBT


Projetos audiovisuais atualmente em reprise na Globo – “Mulheres Apaixonadas”, “Vai na Fé” e “Aruanas” – tiveram cenas de romances homoafetivos cortadas ou suavizadas. No caso de “Vai na Fé” trata-se da terceira cena de beijo entre as personagens Clara e Helena que não é veiculada. No que tange a “Aruanas”, a segunda. Na semana passada, uma cena de sexo entre duas mulheres na série noturna não teve nenhum trecho levado ao ar, sob protestos da atriz que a gravou, Elisa Volpatto. Causa estranheza o fato de uma cena de beijo entre gays masculinos ter sido levada ao ar, na mesma série. Outra trama que encontrou problemas foi “Mulheres Apaixonadas”, exibida em 2003, quando o debate sobre homossexualidade na TV ainda era incipiente. Manoel Carlos precisou suavizar a cena ao, metalinguisticamente, colocar o casal lésbico para interpretar, dentro da novela, uma peça de teatro onde ambas as moças viveriam “Romeu e Julieta”, e só assim pudessem se beijar. Ainda sobre o mesmo tema, traremos dois casos de censura ou preconceito que impediram que demonstrações de carinho entre pessoas do mesmo sexo fossem transmitidas, tanto na Globo – em “América”, como no SBT, em “Cortina de Vidro”

*por Vítor Antunes

Vai na Fé” é, inequivocamente, uma trama de sucesso. A história de Sol (Sheron Menezzes), moça evangélica que se precisa enfrentar os seus fantasmas e revisitar o seu passado como dançarina de funk ganhou o Brasil e por algumas semanas chegou a pontuar mais que a novela as 21h, “Travessia”, na ocasião. A trama revela uma intenção da Globo em direcionar-se ao público evangélico – que por acaso é um dos seus maiores críticos – e, aparentemente, conseguiu. Porém, ainda que tenha seduzido a audiência, “Vai na Fé” está diante de um problema conceitual: Como prosseguir tendo o apoio deste público tendo dois casais homoafetivos, sendo um deles composto por uma mulher, Clara, que apaixona-se por outra, Helena, e inicia um relacionamento com ela sem, no entanto, desfazer o matrimônio heterossexual? O caso extra-conjugal da moça está sendo levado mais em conta que o fato de o marido de Clara (Regiane Alves) ser um abusador e ter um caráter duvidoso. Por esta razão, cenas românticas do casal #clarena vem sendo sistematicamente limadas da trama, a despeito do ship dos telespectadores nas redes sociais, que apoiam o namoro delas.

Além destes cortes na trama das 19h, telespectadores localizaram cortes de beijos entre mulheres na série “Aruanas”. Os beijos homoafetivos constam na série em seu formato streaming, porém foram cortados na exibição na TV aberta. No capítulo mais recente exibido pela TV carioca, uma cena de sexo das personagens Ivona (Elisa Volpatto) e Olga (Camila Pitanga) também foram limadas da exibição, ainda que o produto seja exibido depois das 22h. Tal atitude gerou um desagravo da atriz Elisa Volpatto, que publicou em seu Instagram: “Sinceramente, há avanços que a gente fez em sociedade e que não podemos voltar para trás (…)”.

Os beijos gays na Globo passaram a ser mais frequentes nas novelas especialmente depois de Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso), em Amor à Vida, (2012/2013). Antes disso, emissoras como Manchete (Mãe de Santo, 1990),  SBT (Amor e Revolução, 2011) e Tupi (“Calúnia”, Teleteatro de 1963) já o haviam feito. Porém, sempre houve resistências. A seguir, cinco casos nos quais os beijos LGBT foram cortados ou suavizados para atender ou ao preconceito ou à demanda do público. Além das obras supracitadas, “Mulheres Apaixonadas“, atualmente em reprise, penou para mostrar um beijo lésbico em 2003. Em “América”, outro caso clássico, o beijo entre dois homens foi gravado, não exibido e o tape foi perdido. E em “Cortina de Vidro“, SBT (1989), um ator negou-se a gravar a cena de afeto e foi dispensado da trama.

Procurada a falar sobre “Vai na Fé” e “Aruanas” a Globo não respondeu até o fechamento desta matéria. Todavia, ao jornal Extra, do mesmo grupo, a emissora declarou que “Toda novela está sujeita a uma edição. Uma rotina que atende às estratégias de programação ou artísticas. Isso, inclusive, é sinalizado nos resumos de capítulos divulgados pela Globo”.

Camila Pitanga e Elisa Volpatto. O beijo das personagens e cenas de afeto entre ambas foram cortadas na exibição de “Aruanas” na TV aberta (Foto: Reprodução/Globo)

 

Vai na Fé

No atual cartaz das 19h, Clara (Regiane Alves) é casada com Theo (Emílio Dantas). Seu esposo na trama é o principal vilão da história. O louro é envolvido com contrabando, violências diversas – inclusive sexuais – e preconceito. No correr da trama de Rosane Svartman, Clara encantou-se com a super personal trainer, Helena (Priscila Sztejnman), assumidamente lésbica. O encantamento de ambas acabou resultando num relacionamento. Além de um selinho veiculado num capítulo da trama, nenhuma outra manifestação clara de afeto entre elas foi levada ao ar. Pelo contrário. Internautas apontam que três cenas de beijo – sendo uma delas prevista de ser transmitida no último dia 31 – não foram veiculadas. O público chiou. A tamanha grita popular acabou resultando num posicionamento discreto de Alves em suas redes sociais: “Devagar e sempre… Um passo de cada vez para a construção de um futuro onde todas as formas de amor possam ser aceitas e celebradas”. Ao portal iG, Regiane declarou que “Para a artista que estuda e faz uma cena, ela quer que a cena aconteça. A partir do momento que ocorre uma edição, acaba prejudicando um pouco, no sentido de contar aquela história, de como seria. Se a Rosane [Svartman] colocou, é porque ela quer que seja contada [essa história]”.

É muito louco, porque na história o Theo teoricamente é um estuprador e as pessoas estão aceitando. Estão falando de um estuprador e todo mundo está ‘ok’. Agora um beijo de duas mulheres, por que incomoda tanto? O que agride tanto?” – Regiane Alves

Leia Mais: Regiane Alves estreia como roteirista em peça autoral e discute relacionamento tóxico em nova novela das 19h

#clarena. Casal lésbico de “Vai na Fé” teve cenas de beijo cortadas (Foto: Reprodução/TV Globo)

Aruanas

A segunda temporada de “Aruanas” está sendo exibida pela Globo desde 09/05 deste ano, ainda que tenha sido produzida e disponibilizada no Globoplay em 2021. Com temática mais densa, tanto na questão da ecologia como na das relações interpessoais, “Aruanas” tem dois casais gays: Um composto por Vítor Thiré e Daniel de Oliveira e outro liderado por Camila Pitanga e Elisa Volpatto. Especialmente este segundo tem causado mais discussão das redes diante de sua invisibilização. Até o presente momento, duas cenas românticas foram cortadas. Uma delas, uma cena de beijo. A outra, de sexo. E a de transa seria levada ao ar nesta semana. Diante da polêmica, Volpatto se posicionou em suas redes sociais: “Rede Globe [sic], que tristeza. Cortaram de novo a cena de duas minas se pegando. Com tanta cena hétero mais fuerte [sic] do que essa passando em horário nobre bem nobre… Você nos obriga a entregar ela por aqui”, disse a artista, publicando em sua rede a cena vetada. Curiosamente, a cena de beijo do casal André (Vítor Thiré) e Theo (Daniel de Oliveira), foi levada o ar sem cortes.

Camila Pitanga e Elisa Volpatto em “Aruanas”. cena de sexo lésbico foi cortada na exibição da série “Aruanas” (Foto: Reprodução/Globoplay)

“Mulheres Apaixonadas” (2003)

Após 20 anos, “Mulheres Apaixonadas” está de volta ao ar na TV aberta. A novela de Manoel Carlos trouxe há duas décadas a discussão sobre a homossexualidade numa época em que o assunto ainda não era abordado com habilidade ou de maneira respeitosa. Muito menos, posto à cena os conflitos dos quais vivem os casais homoafetivos. Clara (Paula Picarelli) e Rafaela (Alinne Moraes) eram vítimas do preconceito tanto da família como dos colegas da escola. A abordagem feita por Maneco foi tão jeitosa que os telespectadores torceram muito pelo final feliz do casal de meninas e pedia que houvesse o beijo entre elas, ainda que a manifestação pública de afeto fosse um tabu.  Para cumprir os anseios da plateia e fazer com que as moças se beijassem, o veterano autor montou na trama uma encenação do clássico “Romeu e Julieta“. Coube a ambas viverem os personagens de Shakespeare (1564-1616) e, desta maneira, o beijo aconteceu. Suavizado. Eram duas mulheres que, ainda que fossem um casal, interpretavam um casal heterossexual na encenação que havia dentro da novela.

Clara e Rafaela. O casal de “Mulheres Apaixonadas” teve seu beijo suavizado na trama de Manoel Carlos, atualmente em cataz no “Vale a Pena Ver de Novo”. (Foto: Reprodução/Globoplay)

“América” (2005)

Bruno Gagliasso e Erom Cordeiro em “América”. Beijo dos personagens foi vetado. Não há sequer muitas fotos do casal (Foto: Divulgação/TV Globo)

América, exibida dois anos depois de “Mulheres Apaixonadas“, também trazia um personagem gay. Este, porém era um rapaz que descobria-se homossexual e vivia os conflitos inerentes a isto. Vivendo num ambiente hostil, e criado no universo dos rodeios, profundamente opressor, Junior (Bruno Gagliasso) via-se apaixonado por um peão, Zeca (Erom Cordeiro). Ainda que houvesse torcida pelo casal e aguardassem pelo beijo de ambos – cena que foi escrita e gravada  – o último capítulo não exibiu a manifestação de afeto entre os namorados. Recentemente, no documentário “Orgulho Além da Tela“, exibido pela Globoplay, a emissora reconheceu não apenas a falha, mas tornou público o fato de que o tape que continha a cena não existe mais. Não há nenhum registro do tal momento. De igual maneira, não há fotos de Zeca e Junior como casal.

Mea-culpa: No documentário “Orgulho Além da Tela”, do Globoplay, a Globo afirma que o registro do beijo dos personagens Zeca e Junior foi apagado do acervo (Foto: Reprodução/Globoplay)

“Cortina de Vidro” (1989)

Em pesquisa realizada pelo Site Heloisa Tolipan para a matéria sobre a trama “Cortina de Vidro”, exibida pelo SBT em 1989, localizamos uma cena de romance gay que foi censurada e não chegou a ir ao ar. Envolveria os personagens de George Otto (1955-1991) e José Américo Magno. Segundo aponta o jornal O Estado de São Paulo (14/03/1990), Magno negou-se a  gravar a cena que comporia o Capítulo 143, impedindo assim que o autor, Walcyr Carrasco desenvolvesse não apenas uma trama sobre um romance homoafetivo, mas como a abordagem sobre o ao vírus HIV. Magno foi desligado de “Cortina de Vidro” com uma “viagem para Santa Catarina”. Curiosamente, anos depois, o próprio Walcyr seria o responsável por levar ao ar o oficialmente tido como primeiro beijo gay da história da TV Globo, em “Amor à vida”.

Um dos poucos registros de George Otto na novela “Cortina de Vidro” (1989). Seu personagem não desenvolveu sua trajetória (Foto: Reprodução/Tellecità)