Juan Manuel Tellategui vive juiz corrupto na série “Chuteira Preta”, que aborda o submundo do futebol


O recente “caso Neymar” – em que o jogador foi acusado de estupro por uma brasileira – surpreendeu a equipe da série, que expõe as chantagens financeiras às quais jogadores são submetidos: “Sempre se diz que a arte imita a vida, mas nesse caso aconteceu ao contrário. Não é só glamour, dinheiro e fama”

*Por Karina Kuperman

Não é exagero afirmar: o futebol desperta paixões. Não só no Brasil, mas por toda América Latina e o mundo. Por isso, a série “Chuteira Preta“, do diretor Paulo Nascimento, tem sido sucesso de público e crítica do canal Prime Box Brasil. E, na trama, temos nada menos que… um ator argentino. Juan Manuel Tellategui vive um juiz corrupto e analisa: “Nem sempre interpretamos personagens agradáveis, mas o importante é tomar esse desafio por uma causa maior que é contar uma história. E, neste caso, inédita, já que os bastidores do futebol nunca foram mostrados dessa maneira na televisão”. De fato: a história de “Chuteira Preta” expõe o submundo do futebol, com direito a abordagem de temas como a máfia russa de compra de resultados, corrupção de dirigentes, autoboicote do próprios atletas e mais.

O ator argentino Juan Manuel Tellategui (Foto: Reprodução/Instagram)

“O imaginário das pessoas só conhece o lado bom do futebol: glamour, glória, dinheiro, fama… É claro que tudo não poderia ser assim. Pessoalmente, nunca passei por nenhuma situação relacionada a esses assuntos e esse universo, mas o jornalismo, tanto de esporte quanto de celebridades, vai nos revelando que esses assuntos transcendem a ficção e são muito mais comuns do que imaginávamos”, analisa ele, que foi convidado pelo diretor especialmente para o papel. “O personagem é um juiz uruguaio, e o Paulo Nascimento queria muito que quem interpretasse esse papel tivesse o sotaque da região do Cone Sul. Assim surgiu o convite, que foi feito pelo produtor de elenco Diego de Lima, com quem eu já havia trabalhado. Ele me apresentou para o diretor e imediatamente fizemos uma ótima parceria”, conta. A partir daí, a preparação envolveu muito estudo sobre o esporte, o comportamento corporal de árbitros e mais.

Na série, Juan vive um juiz de futebol corrupto (Foto: Reprodução/Chuteira Preta)

“Nós, da América Latina como um todo, compartilhamos a mesma paixão pelo futebol. É algo que nos une, nos faz vibrar. As copas e torneios regionais nos aproximam nessa vibração que é torcer pelos times de nosso país. Mas, para além das rivalidades, que às vezes podem ser mal entendidas, gerando situações desagradáveis e até a xenofobia, creio que o esporte deve ser estimulado sempre como forma não só para desenvolver nossa cultura, como também para estimular os jovens”, analisa ele, que sabe da complexidade do assunto que aborda na televisão: “É difícil fazer um juízo de valor sobre tantas tramas delicadas. Mas, eu acho que o seriado como um todo dá o devido cuidado e respeito a cada um desses assuntos não só como forma de explicitá-los, mas para refletirmos sobre eles”.

Recentemente, por exemplo, o “caso Neymar” estourou na mídia e, coincidentemente, a série aborda e expõe as chantagens financeiras às quais jogadores são submetidos. “Fiquei muito surpreso”, confessa Juan. “Sempre se diz que a arte imita a vida, mas nesse caso aconteceu ao contrário. É claro que muitas das situações ficcionais são de fato assuntos imaginários, mas inspirados profundamente no universo retratado. Tudo isso só evidencia o mérito da pesquisa feita pelo Paulo Nascimento para escrever o roteiro da história”, diz ele, que é nome confirmado na próxima temporada. “Há a ideia de dar continuidade a esses personagens com novos desdobramentos. A previsão de filmagem é para 2020”.

Juan mudou-se para o Brasil em 2011 (Foto: Reprodução/Instagram)

Se, nos campos, a rivalidade entre Brasil e Argentina já é tradição, na arte ela fica de lado, pelo menos no que depender de Juan. “O Brasil é um país que sempre admirei. Acompanho a cultura brasileira, música, novelas, Carnaval… Essas expressões culturais tão diferentes das argentinas chamam minha atenção. Em 2011, a vida me deu a possibilidade de aprofundar meus estudos no Brasil e foi uma oportunidade muito rica, já que me permitiu estabelecer trocas com artistas significativos”, elogia. E nem a diferença de idioma foi uma dificuldade. “De jeito nenhum, pelo contrário, sempre foi um diferencial. Todos temos um sotaque, independentemente de ser regional ou internacional. E isso é um ganho, pois personagens com perfis diferentes acrescentam à dramaturgia tanto no teatro, cinema e televisão. O interessante é a representatividade e não optar por composições caricatas. O Brasil está feito de milhões de imigrantes ao longo de sua história, nada mais natural que esses personagens tenha vez também em sua dramaturgia”, analisa.

“Hoje atuo tanto em português quanto em espanhol, o que me abre muitas frentes e possibilidades de trabalho. Ano que vem, por exemplo, estarei no filme ‘Águas Selvagens’, que é uma coprodução Brasil-Argentina dirigida pelo Roly Santos, um diretor de Buenos Aires, mas que foi filmada no Paraná”, conta. Enquanto o longa não sai, Juan aproveita para colher os louros do sucesso de outro filme, “30 Anos Blues”, que estará no próximo Festival de Gramado (saiba mais sobre o evento aqui). “É sempre um prazeroso estar em um filme participante de um grande festival, como Gramado, aqui no Brasil com este filme do Andradina Azevedo e Dida Andrade. Eu contraceno com a atriz Claudia Alencar, fazemos dois personagens próximos. Ela foi uma ótima parceira no set”, elogia.

Juan integra o elenco de “30 anos Blues”, que estará no Festival de Gramado (Foto: Reprodução/Instagram)

Mas quem pensa que essa é a primeira experiência de Juan com premiações está enganado. Na Argentina, o ator esteve no elenco de “Pompeya“, de Tamae Garateguy, que foi o vencedor do melhor filme argentino de 2010 no festival Mar del Plata. O que será que ainda falta realizar? “Tenho 23 anos de profissão desde que comecei aos 15 anos no teatro em Zárate, em Buenos Aires, Argentina. Desde então, tenho o privilégio de sempre participar de projetos interessantes. Meu maior sonho é seguir contando histórias fortes para seguir inspirando ou provocando uma reflexão no espectador, que é o interlocutor final. E eu gosto de transitar pelas diferentes linguagens, encarando os desafios. Independentemente se for no cinema, na televisão ou no teatro, sempre o melhor está por vir”. A gente não tem dúvidas.