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Cine Ceará: Wolney Oliveira, diretor do festival, estreia o documentário “Soldados da Borracha”

À frente da 29ª edição do Cine Ceará – Festival Ibero Americano, o cineasta também conversou com o Site HT sobre a importância do evento e o impacto cultural e econômico que gera

Publicado em 05/09/2019 | Por Heloisa Tolipan

Wolney Oliveira, diretor do Cine Ceará, estreia documentário no festival (Foto: Lia de Paula)

*Com Iron Ferreira

Formado em cinema pela Escola Internacional de Cinema e Televisão de San Antonio de los Baños, em Cuba, Wolney Oliveira possui uma longa carreira de dedicação e fomento ao audiovisual. O cineasta, em atividade desde 1982, já dirigiu curtas, longas, documentários e até ficções científicas, como “A ilha da morte“, de 2006. E estreou ontem, durante o 29º Cine Ceará – Festival Ibero-americano de Cinema, do qual é diretor executivo, o seu mais novo projeto, intitulado “Soldados da Borracha“. O filme, que venceu um dos prêmios paralelos no 24º Festival Internacional É Tudo Verdade, em maio, em São Paulo, resgata a saga de cerca de 60 mil brasileiros enviados para a região amazônica pelo governos do Brasil durante a Segunda Guerra Mundial, para a extração do látex. As promessas da volta para casa como heróis da pátria nunca se cumpriram. Hoje, alguns integrantes dessa missão, já com idade avançada vivem em situação de pobreza e ainda têm a esperança do reconhecimento.

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“É a estreia em Fortaleza do meu quarto filme, no cinema que frequentava desde a infância na companhia do meu pai, e no festival no qual eu sou o diretor. É muita emoção. Essa história, na qual mergulhei durante anos, é pouco conhecida pelo grande público. Eu espero que as pessoas sentir a realidade dessas pessoas e a forma como elas entraram para a história”, frisou o diretor. Wolney já está em plena ação para seu próximo e grande projeto: o longa-metragem batizado “Lampião, o governador”, um resgate do fenômeno do cangaço no Brasil e no mundo. A partir de “O cangaceiro“, filme de 1953, escrito e dirigido por Lima Barreto (1906-1982), considerado um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos e que ganhou prêmio de melhor filme de aventura e de melhor trilha sonora no Festival de Cannes, o cineasta vai fazer uma sincronia com os dias atuais. “Vanja Orico (1931-2015) se tornou conhecida mundialmente. A música “Mulher Rendeira”, interpretada por ela ganhou mais de 100 versões. Já rodei cenas na Grota de Angicos, em Sergipe, na missa pelos 80 anos da morte de Lampião e Maria Bonita. E, agora, embarco para Paris para filmar depoimentos de críticos de cinema, pois o filme esteve oito anos em cartaz na França”.

Atualmente, Wolney ocupa a direção da Casa Amarela Eusélio Oliveira e do departamento de cinema da Universidade Federal do Ceará. Em conversa exclusiva com o Site Heloisa Tolipan, ele ressaltou a importância da indústria cinematográfica nacional e fez questão de salientar o impacto econômico e social que ela reverbera para o país. Ele ainda elogiou a força e o poder do cinema nordestino, que vem quebrando barreiras e conquistando espaço através da sua indiscutível qualidade.

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Fernanda Montenegro, Karim Aïnouz e Wolney Oliveira na abertura do Cine Ceará (Foto: Chico Gadelha)

“Para a nossa sorte, estamos vivendo o melhor momento do cinema no Brasil. Embora algumas pessoas não saibam, a indústria audiovisual brasileira mobiliza quase um por cento do nosso PIB e gera 340 mil empregos diretos, empregando mais do que a indústria da celulose e farmacêutica. Ano passado, o nosso setor cresceu oito e meio por cento em um cenário de crise econômica e política. É uma indústria de peso. Pessoalmente, acho que os filmes nacionais que mais têm conquistado reconhecimento internacionalmente estão vindo fora do eixo Rio-São Paulo. Em especial, filmes nordestinos, como “Bacurau”, do Kleber Mendonça Filho e do Juliano Dornelles, que acabou de ser premiado no Festival de Cannes, e “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, indicado do Brasil para concorrer a uma vaga no Oscar 2020”, afirmou.

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A edição de 2019 do festival já é  histórica. Além das mostras competitivas de longas e curtas, que concorrem ao Troféu Macuripe em várias categorias, em uma premiação que acontecerá amanhã, no dia de encerramento, filmes inéditos estão sendo exibidos durante o Cine Ceará. Títulos como “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, “Maria do Caritó”, de João Paulo Jabur, “Pacarrete”, de Allan Deberton, vencedor de oito Kikitos no 47º Festival de Cinema de Gramado, e “Notícias do Fim do Mundo”, dirigido por Rosemberg Cariry, “Greta”, dirigido por Armando Praça, entre tantos outros importantíssimos.

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“Promovemos a festa do cinema no Ceará desde o início dos anos 90. Para a nossa satisfação, estamos conseguindo fazer mais uma edição cumprindo rigorosamente a data anunciada e com a melhor programação dos últimos anos. Abrimos os trabalhos com o filme do Karim, um cearense que divulga a nossa cultura no Brasil de Norte a Sul e no exterior. Ele sempre teve um trabalho de formação junto à Secretaria de Cultural do Ceará muito importante. Foi vencedor em Cannes e um possível indicado ao Oscar. E vamos ter ainda “Pacarrete”, o maior vencedor do Festival de Gramado e que estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Xangai. São dois grandes títulos da cinematografia brasileira dentre outras de muita importância para a cultura do Brasil e internacional”, disse.

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Os grandes homenageados da 29ª edição do Cine Ceará – Festival Ibero Americano de Cinema, premiados com o Troféu Eusélio Oliveira, pela contribuição ao cinema brasileiro, são Lilia Cabral e Karim Aïnouz, que já receberam seus troféus, e Matheus Nachtergaele, que será incensado na cerimônia de encerramento. “O Karim é um dos mais brilhantes cineastas brasileiros da atualidade. Todos os seus filmes, desde o “Madame Satã”, possuem um impacto muito forte. Ele é um dos diretores mais importantes do cinema brasileiro. A Lilia Cabral, protagonista de “Maria do Caritó”, é uma diva da dramaturgia brasileira. Uma das atrizes mais queridas pelo público, não só na televisão, mas também no teatro e no cinema. Ela recebeu a homenagem no mesmo dia em que o filme fez a sua estreia mundial. Já o Matheus Nachtergaele é um dos mais brilhantes atores do cinema nacional. Ele tem uma história pessoal com o Cine Ceará, quando apresentou uma das edições ao lado da atriz Ingra Lyberato. Essa homenagem será um reconhecimento ao seu talento e as suas contribuições para a cultura nacional”, apontou.

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Grande parte das exibições e lançamentos, assim como a cerimônia de abertura e encerramento, estão sendo realizados no tradicional Cineteatro São Luiz, fundado pelo cearense Luiz Severiano Ribeiro em 1958. Localizado na Praça do Ferreira, tradicional ponto turístico de Fortaleza, o cinema é um patrimônio cultural da cidade, que sempre concentrou a sua trajetória artística. “O Cineteatro São Luiz é um cinema lindíssimo dos anos 50, com uma capacidade de 1.050 lugares. Eu tenho uma relação pessoal muito forte com ele, afinal, foi o primeiro cinema em que eu entrei. Meu pai, Eusélio Oliveira, me levava para as matinês de ‘Tom & Jerry‘. Em 2014, para a nossa sorte, ele foi comprado pelo governo do estado e foi totalmente reformado, resgatando suas características originais”.

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Cineteatro São Luiz (Foto: Rogério Resende)

Wolney Oliveira ainda nos contou sobre o viés educacional do festival, que além de fomentar a cultura, também promove a formação. O curso “Histórias de Cinema no Acervo do Arquivo Eusélio Oiveira – UFC”, ministrado por Ana Carla Sabino, é parte integrante do calendário oficial do evento, ajudando a incentivar ainda mais profissionais para o ramo. “ O festival também atua nessa importante parte que é a formação profissional”, comentou.

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O diretor concluiu avaliando o impacto cultural e econômico do evento para a cidade de Fortaleza. Segundo o cineasta, a intenção é transformar o Ceará em um destino para o turismo cultural, gerando investimento no estado e divulgando, ainda mais, a força do cinema nordestino: “O festival movimenta, aproximadamente, R$ 10 milhões na economia local. Ocupamos praticamente todo um hotel, com 100 leitos. Esperamos que a gente possa potencializar a cadeia turística do Ceará. Empregamos quase 100 pessoas, movimentando toda a cadeia econômica, que vai desde hotel e restaurante até a logística. Toda a efervescência audiovisual que o Ceará vive esse ano está dando resultados. Dos quase mil curtas inscritos no festival, 102 são do Ceará, além de oito longas. Isso mostra como o nosso trabalho é importante não somente para fomentar a cultura, mas para trazer recursos econômicos para o estado”.

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