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CINE CEARÁ: ‘VOZES DA FLORESTA’, DE BETSE DE PAULA, E O DRAMA DE UM JOVEM GAY IRANIANO EM ‘LUCIÉRNAGAS’

O protagonismo feminino na luta social pela preservação da natureza e respeito aos povos indígenas e quilombolas ganhou atenção especial durante a exibição do novo documentário da diretora carioca

Publicado em 03/09/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Com Iron Ferreira

O Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema recebeu a cineasta carioca Betse de Paula, responsável por produções como “O casamento de Louise”, de 2001, “Celeste e Estrela”, de 2005, e “Revelando Sebastião Salgado”, de 2013, para promover o lançamento nacional do seu mais novo documentário, intitulado “Vozes da Floresta”. O filme, que foi exibido na Mostra Competitiva Ibero-Americana de longa-metragem, narra a liderança feminina na resistência de grupos indígenas e quilombolas do Brasil. É um forte relato sobre a realidade de muitas mulheres que são diariamente silenciadas, ameaçadas e que possuem um só objetivo: fazer com que seus povos sejam respeitados e garantir a preservação da natureza.

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Diretora e elenco na exibição especial do filme “Vozes da Floresta” (Foto: Chico Gadelha)

O longa, que foi baseado na série de televisão “Guardiães da Floresta”, de sua própria autoria, levou mais de um ano para ser finalizado e foi filmado em diversos estados do país, como Roraima, Pará e Maranhão. “Eu quis dar voz a essas mulheres que são lideranças em movimentos sociais importantes. Elas sobrevivem em meio a conflitos muito marcantes. Esse filme ficou pronto em um momento onde a nossa Amazônia está em chamas. Está na hora de ouvirmos essas pessoas que protegem a natureza e que lutam pela manutenção do nosso planeta”, frisou a diretora, que é filha de Zelito Viana, sobrinha de Chico Anysio, irmã de Marcos Palmeira e prima de Cininha de Paula.

Antes de apresentar “Vozes da Floresta” para o público, ela convidou três personagens importantes no documentário para apresentarem suas histórias e falar um pouco de suas realidades: Rosenilde Costa, quilombola e quebradeira de coco babaçu no Maranhão, Dorinete Morais, integrante da Comunidade Quilombola de Canelatiua, em Âlcantara, no Maranhão, e Nice Machado, integrante da Comunidade Quilombola Bairro Novo, também do Maranhão.

“Eu tenho muito orgulho de dizer que sou quilombola e luto pela sobrevivência do meu povo. É muito difícil para as pessoas de fora entenderem a nossa realidade, somos pessoas de luta e só queremos defender a nossa história e as nossas florestas. Nós sofremos violências e ameaças de pessoas que querem nos tirar do território que é nosso por direito. O nosso enfrentamento é diário, talvez não estejamos mais vivas para um próximo documentário”, revelou Rosenilde.

Nice Machado alertou para a importância da preservação da natureza, que é constantemente destruída por donos de fazenda e latifundiários: “Esperamos que através desse filme as pessoas possam olhar com mais carinho para a nossa causa e entendam que o que está em jogo são as nossas vidas, a vida das nossas florestas e a dos animais”.

Dorinete Morais, que faz parte da coordenação do Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (MABE), chamou atenção para os enfrentamentos ocorridos na região desde o início dos anos 80, quando o governo brasileiro autorizou a construção de um centro de lançamento espacial. “Estamos nessa luta para garantir a permanência dessas comunidades nos seus lugares tradicionais e 22 dessas comunidades já sofreram deslocamentos. A nossa situação é de total desespero diante dos recentes acordos internacionais”, disse.

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Nice Machado, Rosenilde Costa, Betse de Paula, Dorinete Morais e a diretora geral de programação do festival, Margarita Hernández (Foto: Rogério Resende)

Betse afirmou que não pretende desistir da causa e quer continuar ajudando essas mulheres a saírem da zona de invisibilidade: “Eu quis mostrar o cotidiano dessas pessoas e os conflitos em que elas estão inseridas. Mesmo dentro de suas próprias aldeias, elas sofrem preconceito por serem mulheres”. A diretora ainda nos contou com exclusividade que já está produzindo a segunda temporada da série “Guardiães da Floresta”, que terá uma maior participação indígena na equipe técnica, e um novo documentário intitulado “Encantadeiras”, que irá acompanhar a viagem de um grupo musical de quebradeiras de coco através do interior de Pernambuco.

A diretora  Bani Khoshnoudi na exibição do longa “Luciérnagas” no Cine Ceará (Foto: Chico Gadelha)

O segundo filme do dia a ser exibido na Mostra Competitiva Ibero-Americana de Longa-metragem foi “Luciérnagas”, uma coprodução entre México, Grécia e República Dominicana. O longa, que foi dirigido pela iraniana Bani Khoshnoudi e que teve sua estreia mundial durante o Festival de Roterdã, narra história de Ramin, um jovem gay iraniano que foge da perseguição de seu país e se muda para o México. Em um novo país, sua vida muda completamente e ele começa a viver novas experiências e experimentar novos hábitos.

“Através desse filme eu quis mostrar o desejo das pessoas em resistir, mesmo diante de um contexto adverso. O personagem que eu escolhi retratar nesse filme transparece essa indignação em ter que sair do seu local por causa de conflitos e preconceitos contra sua sexualidade. Apesar disso, o filme também fala de esperança. Na esperança de encontrarmos abrigo e afeto, mesmo que em um lugar bem distante da nossa casa”, falou Bani.

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O quarto dia de programação do 29º Cine Ceará – Festival Ibero-Americano de Cinema ainda contou com a exibição especial, no Cinema do Dragão, de “Noite Estrelada”, dirigido por Sérgio de Sousa e realizado em parceria com os alunos do Curso Básico de Cinema da Casa Amarela Eusélio Oliveira. A Mostra Olhar do Ceará também apresentou os curtas “A Mulher da pele azul”, de Esther Arruda e Pedro Ulee, “Onde a cidade é comida, saudade é fome”, de William Ferreira, “Oceano”, de Amanda Pontes e Michelline Helena, “Hoje teci imagens que me habitam há muito tempo”, de Nilo Rivas, “Iracema mon amour”, de Cesar Teixeira, “Deusa Olímpica”, de Emília Schramm, Jessika Barbosa, Pedro Luis Viana e Rafael Brasileiro, e “O bando sagrado”, de Breno Baptista.

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