*por Vítor Antunes
Um novo e detalhado artigo do jornalista e pesquisador Gabriel Sarturi traz à tona o estado de conservação de obras que ainda não entraram no catálogo do Globoplay, além de apontar algumas das razões que explicariam a demora na disponibilização desses títulos. No que diz respeito às novelas, nove tramas já haviam gerado discussão desde 2024, quando o autor lançou seu primeiro estudo sobre o tema, “O vídeo é uma fantástica máquina do tempo: a preservação e a rememoração do arquivo de entretenimento da Rede Globo”, pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Na ocasião, Sarturi já apontava que algumas dessas obras estavam parcialmente arquivadas — seja por terem capítulos demais para se enquadrar no Projeto Fragmentos, seja por terem capítulos de menos para retornar pelo projeto Resgate, que exige a obra na íntegra. Segundo o novo levantamento do pesquisador gaúcho, as novelas “O Casarão” (1976), “Saramandaia” (1976) e, especialmente, “Mandala” (1987) apresentam problemas importantes de preservação.
No caso da trama oitentista — que consolidou a imagem de Vera Fischer “como a de uma deusa”, já que a atriz interpretava o mito de Jocasta, da peça de Sófocles —, restam apenas 63 dos 185 capítulos originais. O acervo está integral somente até o capítulo 54, exibido em 08/12/1987; depois disso, restam apenas capítulos esparsos.
“Mandala” está preservada na íntegra até o capítulo de 08/12/1987, que exibiu, em uma única vez, os roteiros de nº 50 e 51. A partir daí, as ausências passam a se evidenciar justamente no momento em que a trama escala o romance incestuoso entre os personagens de Vera Fischer e Felipe Camargo — Édipo se descobre apaixonado por Jocasta no capítulo 56, de 13/12/1987, desfecho que foi recebido com indignação pela Censura Federal. Em 04/01/1988, “Mandala” exibiu o beijo entre Édipo e Jocasta, momento essencial da obra. Esse capítulo, porém, está justamente entre os que não existem mais na versão original.
Do que foi exibido a partir do meado de dezembro de 1987, restam apenas os seguintes capítulos:
- Capítulo 055 — 12/12/1987
- Capítulo 057 — 15/12/1987
- Capítulo 110 — 16/02/1988
- Capítulo 118 — 25/02/1988
- Capítulo 127 — 07/03/1988
- Capítulo 131 — 11/03/1988
- Capítulo 140 — 22/03/1988
- Capítulo 141 — 23/03/1988
- Capítulo 142 — 24/03/1988
- Capítulo 147 — 30/03/1988
- Capítulo 184 — 12/05/1988
- Capítulo 185 — 13/05/1988 (último)

“Como uma deusa”: vera Fischer foi Jocasta em “Mandala” (Foto: Divulgação)
Ouvido por Sarturi, o ex-roteirista do Vídeo Show Bruno Weikersheimer descreveu a confusão em torno do acervo de “Mandala”, inclusive na versão internacional dublada (DPI): “‘Mandala’ existem muitos capítulos na versão original e existem muitos capítulos na versão DPI, mas não existe para montar uma novela inteira, eu acho. Existem capítulos diversos na versão original, faltando muitos capítulos, e existem muitos capítulos na versão DPI, mas não existe inteira. É uma novela confusa. Não tem a DPI inteira de Mandala”.
Já as ausências que afetam “Saramandaia” e “O Casarão” têm outra origem. Em depoimento prestado a Sarturi, o engenheiro Félix Gasiglia, que foi supervisor do setor de Logística de Mídias da Globo entre 2015 e 2018, explicou a possível razão técnica por trás das perdas: “Saramandaia e O Casarão estavam, em boa parte, em fitas quadruplex fabricante Ampex. Essas fitas desse fabricante não suportaram o tempo: a manta de magnetização desmanchou, não houve como recuperar na tentativa de copiar para VT de 1 polegada [Félix refere-se ao Projeto Quadruplex, a primeira grande iniciativa de manutenção do acervo da Globo, ocorrida de 1994 a 1999]. (…) Quando eu cheguei na Globo em 1983, as fitas não estavam ainda dentro de um sistema de preservação adequado. Não tinha ainda um controle rígido da umidade relativa do ar […], não tínhamos o padrão de preservação internacional”.
Vale lembrar que, de 1996 a 1998, em meio ao Projeto Quadruplex, as fitas menos movimentadas do acervo da Globo — entre elas as de obras mais antigas — foram armazenadas no galpão de acervo de cenografia e figurino, localizado em Bonsucesso, na Zona Norte do Rio, conforme já mostramos nesta reportagem.
No caso de “O Casarão” (1976), dos 160 capítulos da novela, a Globo possui 133 — faltam 27. São ausentes os de número 058, 079, 083, 105, 119, 122, 124, 134, 135, 136, 137, 140, 141, 142, 146, 147, 148, 149, 150, 151, 153, 154, 155, 156, 157, 158 e 159. Diante dos capítulos preservados, é possível observar que quase todo o último mês da novela foi perdido. Já o compacto que reprisou a trama, exibido entre 21/03/1983 e 09/04/1983, foi preservado na íntegra, com 18 capítulos.
Em “Saramandaia” (1976), o acervo conta com 124 dos cerca de 160 capítulos originais — faltam 36. São ausentes os de número 015, 084, 089, 097, 099, 107, 113, 114, 116, 118, 119, 120, 121, 122, 123, 125, 126, 127, 128, 129, 132, 133, 134, 135, 137, 138, 139, 141, 144, 145, 148, 149, 152, 153, 155 e 156. Repete-se aqui a mesma lógica observada em “O Casarão”: quase todo o último mês de exibição está perdido, somado a capítulos do meio da trama.

Renata Sorrah em”O Casarão” (Foto: Divulgação/Globo)
COMPLETAS, SÓ QUE NÃO
Há casos de novelas que, ao contrário, estão majoritariamente preservadas. É o caso de “Gabriela” (1975), quase completa — faltam apenas os capítulos 19 e 30. “Paraíso” (1982) está totalmente preservada, mas há um salto na numeração oficial dos capítulos acervados que em nada prejudica o entendimento da trama — a propósito, “Paraíso” volta em breve, ainda neste mês de julho, ao Globoplay. Há, neste caso, apenas um salto na numeração de roteiro, que vai do capítulo 7 para o 11.
Outras, como “Te Contei?” (1978), têm seus 151 capítulos preservados, mas a novela foi catalogada como “incompleta” por poder conter partes ausentes dentro de um capítulo já preservado. Ou seja, um dos três blocos do episódio pode estar inviável, ou um capítulo dividido em dois pode ter tido uma de suas partes perdida. Não era incomum que uma novela dividisse um capítulo em dois, fazendo nascer, por exemplo, um “capítulo 7” e um “capítulo 7A”.
A mesma situação se repete em “O Homem Proibido” (1982): a novela possui seus 146 capítulos preservados, mas, assim como verificado em “Te Contei?”, é apontada no banco de dados do acervo como “INCOMPLETA”. Mais uma vez, ressalta-se: a situação pode não acometer capítulos inteiros, justificando-se, portanto, por blocos irrecuperáveis a partir do original e/ou possíveis capítulos “A”.

Cristina Mullins e Kadu Moiliterno em “Paraíso” (Foto: nelson di Rago/Globo)
Já “Cabocla” (1979) tem, como alternativa integralmente preservada, sua versão internacional (DNI) — lançada em 1982, com 166 capítulos de cerca de 26 minutos cada. Da versão original da obra, preterida ao final do Projeto Quadruplex, por volta de janeiro de 1999, o acervo resguarda apenas o capítulo 1 (04/06/1979) e os cinco capítulos finais, do 166 ao 170, exibidos entre 11/12/1979 e 15/12/1979. “O Sítio do Picapau Amarelo” (1977-1986), por sua vez, teve todos os seus 1.551 capítulos inéditos preservados.
Gabriel Sarturi destaca, contudo, que todo esse material é referente ao Arquivo da Globo, do núcleo de Entretenimento. O acervo de jornalismo da emissora, o Cedoc, dividido em cinco praças (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Brasília e Recife), ainda não foi totalmente digitalizado — e pode resguardar mais materiais.
Artigos relacionados
Cristiana Oliveira retorna à novela inédita da Globo após 14 anos, fala sobre maturidade e diz: "Não vivo de passado"
Post de um ex-BBB sobre beleza de Rivellino faz Daniel Blanco, que interpreta o craque em "Brasil 70", explodir nas redes
Do perigo das linhas 0900 nos anos 1990 às bets na CazéTV: velhas fórmulas de lucro voltam a expor público a prejuízos