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Um Oscar para a Via Veneto: depois de “A doce vida” a Itália volta ao trottoir com “A grande beleza”

Ao arrebatar o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2014, a Itália quebrará um jejum de 15 anos sem o prêmio da Academia desde “A vida é bela”, e se isolará em relação à França na liderança dessa categoria de nominação. A Via Veneto vai ferver!

Publicado em 01/03/2014 | Por Alexandre Schnabl

*Por Flávio Di Cola

Ela não é tão longa: são apenas oito curtos quarteirões. E nem antiga para os padrões romanos: foi aberta no século 19. Começa torta numa praça barroca do século 17, mas ao subir fica reta, acabando numa muralha romana. Sua arquitetura nada tem de peculiar: parece um típico bulevar novecentista de inspiração francesa com grandes hotéis e cafés. Mas nela encontramos uma placa sui generis, colocada pela prefeitura, cujos dizeres explicam por que ela entrou na história do mundanismo internacional: “A Federico Fellini, que fez da Via Veneto o teatro da Doce Vida”. Isso diz tudo da Via Vittorio Veneto: passarela do período mais fabuloso e controvertido da história moderna da Itália, os anos 1950 e 1960 – apogeu do chamado “miracolo italiano” e da transformação de Roma na Meca para onde se destinavam celebridades de todos os calibres, principalmente as cinematográficas, levadas pelo êxodo das superproduções norte-americanas para a Europa, a ponto de a capital italiana ser apelidada de “a Hollywood sobre o Tibre”.

"A Doce Vida ": Fellini revela ao mundo uma Roma menos solar, mas bafônica (Foto: Reprodução)

“A Doce Vida “: Fellini revela ao mundo uma Roma menos solar, mais bafônica (Foto: Reprodução)

A obra-prima de Federico Fellini escandalizou despudoradamente o mundo em 1960 ao arrancar o véu solar e risonho normalmente atribuído à vida ítalo-romana. Por isso, enfrentou  campanhas ferozes e todo tipo de barreiras censórias pelo mundo afora, conquistando a tapas o respeito mundial, enquanto “A grande beleza” do diretor Paolo Sorrentino – com a qual a doce vida felliniana vem sendo exaustivamente comparada – chega serenamente à entrega do Oscar neste dia 2 como o favorito na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, após protagonizar um verdadeiro arrastão de prêmios importantes, como o Globo de Ouro e o BAFTA, cercado de unanimidade e reconhecimento. Se Roma ainda é a Cidade Eterna em ambos os filmes, os tempos são decididamente outros. Se o cinismo, o amargor, o vazio e o vulgar hedonismo precisaram ser corajosamente registrados por Fellini, eles já são aceitos como ingredientes normais da vida contemporânea, como sugere Sorrentino. Se na época retratada pela obra felliniana o mundo baila irresponsavelmente a poucos centímetros de um abismo, representado por uma guerra nuclear iminente e devastadora no apogeu da Guerra Fria, no filme de Sorrentino o espetáculo já acabou faz tempo e dele só sobraram ruínas, como atestam as sombras tenebrosas do Coliseu que se projetam permanentemente ao alcance de nosso olhar através da luxuosa cobertura do personagem principal.

A Grande Beleza: uma Roma decadente que se refugia entre as quatro paredes de festinhas particulares (Foto: Reprodução)

A Grande Beleza: uma Roma decadente que se refugia entre as quatro paredes de festinhas particulares (Foto: Reprodução)

As diferenças na forma de ambientar a Via Veneto nos dois filmes são um sintoma de como Roma e o mundo passaram do frenesi para a melancolia em poucas décadas. A Via Veneto de Fellini é caótica, é um formigueiro onde se encontram todos os tipos paridos no baixo ventre da prosperidade recém-adquirida: starlets, travestis, prostitutas, rufiões, turistas incautos, nobres decadentes, sultões, curiosos, desocupados, uma fauna em ininterrupto trânsito pronta para ser abatida pela voracidade das câmeras dos paparazzi. Reproduzir e encenar esse turbilhão feérico que só poderia acontecer na Via Veneto tornou-se uma obsessão tão grande para Federico Fellini que ele decidiu – para desespero dos produtores de “A doce vida” – recriar fielmente um trecho dela no estúdio 5 da Cinecittà, à época o maior do mundo. Só com a liberdade ilimitada proporcionada pela reconstrução cenográfica seria alcançado o projeto felliniano de registrar a explosão de vida desse novo mundo que finalmente se erguia cintilante dos escombros da Segunda Guerra e que se exibe na passarela mais famosa do planeta. Roma pode ser o cenário supremo da vulgaridade, dos novos-ricos, dos loucos e dos perdidos, mas – pelo menos – ainda está viva. Fellini diria: “Pus o termômetro num mundo doente que evidentemente tem febre. Mas se o mercúrio assinala 40 graus, no início do filme, continua a assinalar 40 no fim. Nada mudou. A doce vida continua. Os personagens do afresco continuam a mover-se, a despir-se, a agarrar-se, a dançar, a beber, como se esperassem algo”.

Os paparazzi em "A Doce Vida": Fellini revelou ao mundo essa nova categoria de abutres ávidos por uma fofoca (Foto: Reprodução)

Os paparazzi em “A Doce Vida”: Fellini revelou ao mundo essa nova categoria de abutres ávidos por uma fofoca (Foto: Reprodução)

Já no filme de Paolo Sorrentino, percorremos uma Via Veneto obscura, quase deserta – aliás, como a cidade inteira – pontuada por inferninhos decadentes e casas de pasto com seus “menus executivos” sob medida para uma clientela de emergentes asiáticos. A vida social pública em Roma morreu, só restando a privada, confinada em coberturas, night clubs, apartamentos e palácios murados. Enquanto uma elite estúpida e brega se diverte nesses interiores sob uma penumbra de neon e uma vertigem fabricada por cocaína e sintetizadores bate-estaca, a cidade recolhe-se numa ausência quase sinistra. Essa Roma não é mais nem pagã nem papal, nem alegre ou misteriosa. Está simplesmente vazia. À espera de alguma revelação.

“A doce vida” e “A grande beleza”: dois soberbos filmes cujas estaturas não se originam apenas das suas respectivas qualidades cinematográficas, mas também da forma como se entregam incondicionalmente aos braços da cidade mais notável da história – ora metaforizada como uma grande mãe prostituta, na visão felliniana; ora como a materialização em pedra e mármore do próprio enigma da vida, representado pelo soturno jogo de luzes e sombras da fotografia de Sorrentino.

Liz Taylor em "Cleópatra":   Hollywood corteja Roma e vai filmar em Cinecittà (Foto: Reprodução)

Liz Taylor em “Cleópatra”: Hollywood corteja Roma e vai filmar em Cinecittà (Foto: Reprodução)

Mas temos que reconhecer que a Itália e a Roma dos anos 1960 de Fellini eram muito mais divertidos: o próprio Papa, João XXIII, era um bonachão; os novos e charmosos donos do mundo – Kennedy e Kruschev – cortejavam a nova potência mundial que emergia, o país crescia a uma taxa média de 7% ao ano, as Olimpíadas de Roma foram uma das mais agradáveis e bem organizadas da história, nas telas de cinema Troy Donahue e Suzanne Pleshette trocavam olhares lânguidos embalados pela canção “Al di là” em “O candelabro italiano”; na Cinecittà Charlton Heston salvava a civilização cristã numa corrida de bigas em “Ben-Hur”, enquanto Elizabeth Taylor reinava como uma Cleópatra moderna e interrompia o trânsito da cidade para fugir de revoadas de paparazzi em suas lambretas.

"Ben Hun": a monumentalidade de Roma na propaganda da Guerra Fria (Foto: Reprodução)

“Ben Hur”: a monumentalidade de Roma na propaganda da Guerra Fria (Foto: Reprodução)

No falso documentário sobre a capital italiana que Fellini rodou em 1972 (“Roma de Fellini”), o escritor Gore Vidal – quando entrevistado – nos dá uma visão tão inusitada quanto debochada da Cidade Eterna: “Roma é a cidade das ilusões. Não por acaso temos aqui a igreja, o governo e o cinema. Todas as coisas que produzem ilusões. Como estamos próximos do fim do mundo, que cidade seria melhor do que Roma – que morreu e renasceu várias vezes – para esperar pelo fim?”. Certamente, sentado num café da Via Veneto.

* Flávio Di Cola é publicitário, jornalista e professor, mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ e coordenador do Curso de Cinema da Universidade Estácio de Sá. Amante judiado e teimoso da Sétima Arte, suporta todos os contrangimentos na sua fidelidade às salas de cinema

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