*por Vítor Antunes
Com recorrência, a TV aposta em novos nomes e novos rostos. Quando eles são destinados a fazer os papéis protagonistas, ainda que haja alguma constância, esta passa pelo investimento em um artista que tenha reconhecido talento, uma estrada percorrida ou repertório. Esse é o caso de Túlio Starling. O ator, protagonista masculino de “No Rancho Fundo”, vem imprimindo sua identidade na trama de Mário Teixeira. “É muita demanda, muito trabalho”. Com isso, o ator que era exclusivamente do teatro, agora está no mainstream das novelas e tendo, não apenas, que gravar a novela mas também a se familiarizar com as redes sociais, algo ao qual sempre foi avesso.
“Me vejo na necessidade de produzir conteúdos para rede social hoje para dialogar com a popularidade da novela e com isso passar a me relacionar de maneira diferente com as minhas redes. Vou aprender a fazer isso para meio que brincar de saber o que as pessoas sentem e pensam sobre o meu trabalho e para isso preciso criar publicações que tenham a ver comigo. Tem um desafio em tornar habitual para mim uma coisa simples, como fazer uma selfie e postar, por exemplo. Pode parecer estranho, mas não é tão natural para mim ainda”, diz o ator que sempre guiou a vida através dos caminhos da discrição.
A presença maior nas redes sociais acaba sendo ainda mais relevante em razão de ele estar com muitas produções na Globo. Além de “No Rancho Fundo“, ele está em “Justiça 2“, série arrojada e de temática social escrita por Manuela Dias, no ar na TV Globo e na Globoplay. Um dos temas de “Justiça 2” e que Túlio traz ao debate é a grande pejotização de profissionais, algo que acabou atingindo, de alguma forma, os artistas. “Nenhum setor escapou da uberização, da plataformização. Nós atores precisamos todos abrir empresa nesse período. Estruturalmente, isso é um processo de precarização de todas as áreas. Mas seria injusto eu me comparar com o quanto é precarizado o trabalho de um entregador de comida por aplicativo, por exemplo.””.
Há quem acredite na balela de ser empresário e CEO de si próprio, ou consome conteúdos de coaches que oferecem ensinar como se fazer o primeiro milhão enquanto essa pessoa, que trabalha de motorista de aplicativo não tem seque o carro próprio. Essa crítica, obviamente, não se direciona a eles, mas à estrutura social que faz com que as pessoas acreditem que a pejotização é uma modernização das leis trabalhistas – Túlio Starling
PRA LÁ DO FIM DO MUNDO
Em “No Rancho Fundo“, Túlio vive Artur Ariosto. Um homem justo, e segundo ele, uma pessoa sobretudo, sincera. “A sinceridade é um traço que descobri e que faz com que eu consiga deslocar ele para várias temperaturas. Artur pontua sempre sua sinceridade entre os conflitos e movimentos narrativos, e isso parte muito do texto do Mário Teixeira. Artur é um homem correto, não quer fazer ninguém sofrer, mas não consegue porque vários conflitos o atravessam, como a relação com o seu pai que não o acolhe”.
S”Quando alguém é sincero, nem sempre vai ser fofo ou agradável. Às vezes a sinceridade resolve um conflito e ao mesmo tempo gera outro. Às vezes interrompe o sofrimento, às vezes o produz. – Túlio Starling
Ariosto (Eduardo Moscovis) é o pai de Artur e não o aceita como filho em razão de ele ser adotivo. “A Valdineia Soriano, que interpreta a Manuela, mãe do Artur, definiu-o como ‘filho do coração’. Ela escolheu ele para ser seu filho. Acho isso bonito por que ele não é um apêndice. É efetivamente uma escolha de afeto, amizade e cumplicidade. Ele não é, para ela, um apêndice na família. Daí nasce essa relação de amizade, cumplicidade e com quem se escolheu ter uma relação materna e sem constrangimento e de maneira deliberada”. Perguntamos a Túlio se a questão da adoção o toca ou sensibiliza de maneira especial e ele ressaltou que usa deste artifício para compor o personagem. “Eu abordo pelo lado emocional. Não que não queira negar a dimensão social do debate. Coloquei no personagem essas faltas e noções de abandono dentro dessa relação de órfão. A novela não traz esse assunto, pelo menos não até agora, de forma social, mas essa condição é condizente com a estrutura emocional do personagem”.
Em “Justiça 2“, série que também conta com o ator no elenco, ele elogia o aprofundamento de alguns temas sociais. “A série, tanto na primeira versão, de 2016, como na atual, é antológica. Ou seja, a estrutura e o tema se repetem, mas as histórias são outras. A primeira aconteceu em Recife e a atual, na qual estou, se passa em Brasília. Acho importante que com esse alcance de popularidade que a série tem se fale de histórias com outras complexidades e aprofundamentos. Tanto que acho bem importante o meu núcleo tratar sobre abuso sexual em contextos familiares Isso acontece ao mesmo tempo em que uma agenda moralizante É pautada baseada nas significações conservadoras de família.”
É preciso ter uma política pública de educação sexual que aborde, sim, as noções sobre abuso, e permita que crianças e adolescentes saibam o que é abuso e consentimento. São temas que tem que ser debatidos e a série tem um alcance que contribui para que esse debate siga acontecendo – Túlio Starling
Túlio celebra o atual momento em que está com trabalhos importantes nas plataformas. “Estou construindo possibilidades no audiovisual brasileiro há um tempo, subindo degrau por degrau, trabalho a trabalho, na minha carreira. Sobre a novela, sem dúvida nada se assemelha a ela em relação a alcance popular e volume de trabalho”. Além dos projetos citados, Túlio poderá ser visto em “A porta ao Lado“, filme dirigido por Julia Rezende e que entrou recentemente na Globoplay.
… E A SAUDADE CONTA COISAS DA CIDADE
Túlio Starling é aluno-discípulo de Zé Celso Martinez Corrêa (1937-2023), f. Com ele, aprendeu o um dos maiores ensinamentos – e que é o que norteia o Movimento Antropofágico: “A alegria é a prova dos nove. Mesmo submetido a um ritmo incessante de trabalho, no qual se dialoga com a rapidez, colocar em destaque a delicadeza do ofício. A urgência da entrega não pode me roubar a alegria. E o Zé sabia disso porque concretamente sabia viver no agora. Era das pessoas que eu conheci, a que de fato mais vivia radicalmente o agora”
Zé Celso morreu em São Paulo, num incêndio acidental em sua casa, em 2023. Coincidentemente, ou não, sua última participação em novelas foi justamente uma trama das 18h, de temática nordestina, “Cordel Encantado“. O Mestre, que se pautava em Dionísio, deus grego das artes, viveu a tempo de ver seu aluno dar vida justamente a Dionísio na série “Vicky e a Musa”. É a saudade em forma tridimensional.
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