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“Terremoto: a falha de San Andreas”: brucutu da hora, Dwayne Johnson segura longa de efeitos bacaninhas, mas esquemático

Papo de nerd: saudade de Charlton Heston, Paul Newman, Gene Hackman e Shelley Winters! Produção se ancora na computação gráfica, mas catástrofe mesmo é o roteiro previsível com personagens-clichê

Publicado em 29/05/2015 | Por Alexandre Schnabl

Entrou em cartaz nesta quinta-feira (28/5) “Terremoto”: A Falha de San Andreas (San Andreas, de Brad Peyton, Warner Bros. e outros, 1015), produção que acompanha a nova safra de filmes-catástrofe que tem tomado novamente conta de Hollywood e que pretende fazer frente aos outros dois gêneros que se beneficiam da moderna tecnologia digital: os longas de super-herói e os contos de fada live action.

Confira o trailer oficial (Divulgação)

Para entender essa nova empreitada, é preciso voltar no tempo. Fazia apenas quatro anos que a moda do cinema-catástrofe havia sido deflagrada nas telas quando “Terremoto” (Earthquake, de Mark Robson, Universal Pictures, 1974) estreou nas salas de cinema amparado pelo desejo da plateia de se inserir numa experiência que simulasse como seria estar no meio de um evento devastador, amplificado pelo novíssimo sistema de som Sensurround (criado pelos Universal Studios para dar maior intensidade de áudio) e por modernos (para época) efeitos de maquete combinados com uma edição de imagens picotada.

Afinal, o longa vinha no embalo das boas bilheterias de “Aeroporto” (Airport, de George Seaton, Universal Pictures, 1970) e “O Destino do Poseidon” (The Poseidon Adventure, de Ronald Neame, Twentieth Century Fox,1972) – primeira produção a abocanhar o recém-criado Oscar de ‘Melhores Efeitos Especiais’ pela primorosa concepção de um navio emborcado.

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Nesta época, Steven Spielberg, George Lucas e sua patota ainda estavam engatinhando no tipo de realização que os consagraria e não haviam instituído em Hollywood o conceito de blockbuster, que viria a acontecer logo depois com “Tubarão” (Jaws, Universal Pictures, 1975) e “Guerra Nas Estrelas” (Star Wars, Twentieth Century Fox, 1977), de forma que o mais próximo que existia do cinema-espetáculo era a então moda dos filmes de acidentes ou cataclismas naturais que durou até a virada dos anos 1980, quando finalmente as superproduções de férias se encarregaram de sepultá-los.

Heston salva o sogro interpretado por Lorne Greene em cena de "Terremoto" (1974): na impossibilidade de inserir os atores em grandes cenas externas, tomadas fechadas combinadas com imagens de maquetes balançando se encarregavam de tornar o longa crível numa época em que os blockbusters ainda não existiam (Foto: Reprodução)

Heston salva o sogro interpretado por Lorne Greene em cena de “Terremoto” (1974): na impossibilidade de inserir os atores em grandes cenas externas, tomadas fechadas combinadas com imagens de maquetes balançando se encarregavam de tornar o longa-metragem crível numa época em que os blockbusters ainda não existiam (Foto: Reprodução)

Ao lado de realizações desse tipo fomentadas pela Fox, por exemplo, “Terremoto” era risível, embora fizesse uso da fórmula que consolidou o gênero: um mocinho interpretado por ator no auge da fama, um punhado de antigos astros da Era de Ouro arrematados por cachês baratos e usados como chamariz, um expoente de uma série televisiva de ótima audiência e o capricho na cenografia suplantando um roteiro preguiçoso, tão previsível quanto precário e sensacionalista, com narrativa maniqueísta na qual arquétipos da natureza humana desfilam numa sucessão de cenas absurdas, todos se revezando entre a abnegação digna da Irmã Dulce e a mesquinharia absoluta de quem vai descer direto para o inferno sem escalas. Sim, nesse tipo de filme predomina o preto & branco do moralismo barato, sem espaço para cinquenta tons de cinza, e é daí mesmo que vem o seu sucesso catártico.

Confira abaixo o trailer de “Terremoto” (1974), um dos expoentes da onda original do cinema-catástrofe (Reprodução):

Apesar da boa venda de ingressos (custou aproximadamente 7 milhões de dólares e abocanhou no box office cerca de 12 vezes mais só nos Estados Unidos), “Terremoto” foi massacrado pela crítica, que não via qualidade alguma nesse cinemão comercial estrelado por um carismático Charlton Heston – na época ainda detentor da fama de salvador do mundo que hoje pertence a Will Smith – e por uma Ava Gardner balzaca, mais um ator vindo de seriado icônico (Lorne Greene, o patriarca de “Bonanza”), o astro negro Richard Roundtree – saído daqueles filmes blaxploitation voltados para a nova classe negra emergente pós-Martin Luther King e que se tornou o principal ator negro do pedaço com “Shaft” (idem, de Gordon Parks, MGM, 1971), –, George Kennedy, Walter Matthau, Victoria Principal e Geneviève Bujold.

A galeria de tipos-clichê do "Terremoto original" (1974): da esquerda para a direita, a amante descolada Geneviève Bujold, a esposa manipuladora traída Ava Gardner, a mocinha black power Victoria Principal, o policial que põe o dever acima de tudo George Kennedy, o astro negro Richard Roudntree e o engenheiro que condena a especulação imobiliária Charlton Heston (Foto: Reprodução)

A galeria de tipos-clichê do “Terremoto” original (1974): da esquerda para a direita, a amante descolada Geneviève Bujold, a esposa manipuladora traída Ava Gardner, a mocinha black power Victoria Principal, o policial que põe o dever acima de tudo George Kennedy, o astro negro Richard Roudntree e o engenheiro que condena a especulação imobiliária Charlton Heston (Foto: Reprodução)

Tirando o casal protagonista, esse longa-metragem era até fraquinho de elenco, se comparado com os similares dos estúdios concorrentes: “O Destino do Poseidon”, “Inferno na Torre” (The Towering Inferno, de John Guillermin, Twentieth Century Fox, 1974) e “O Enxame” (The Swarm, de Irwin Allen, Warner Bros., 1978).

Ainda assim, “Terremoto” marcou época para uma geração, o tempo se encarregou de torná-lou cult e nada mais natural que, depois de tantas cópias vagabundas feitas nas últimas décadas – na base do papelão, isopor, resina plástica e plôts piores que enredo de novela mexicana –, eis que ele ressurge repaginado com novos personagens, mas sempre explorando o medo constante de que a falha de San Andreas (que une duas placas tectônicas no extremo oeste norte-americano e que, dizem, ainda vai causar muito estrago) fosse novamente explorado, levando literalmente a ensolarada Califórnia para o buraco.

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Agora, o cataclisma comparece turbinado pela nova onda dos efeitos digitais (CGI) combinada com 3D, o que sem dúvida proporciona ao público uma degustação muito mais realista daquela apresentada em 1974. De fato, os efeitos são bem feitos e a turma da cenografia trabalhou bem, ainda que o desenvolvimento do enredo continue tão inverossímel quanto a cura gay.

Mas, se o espetáculo visual vale o ingresso, a narrativa comprova que, salvo pouquíssimos exemplares do gênero, hoje ou na década de setenta, os roteiristas continuam precisando perder a preguiça e amarrar melhor a história, para os ganchos não ficarem gratuitos e difíceis de se acreditar, ainda que a realidade de algumas cenas contribua para a adrenalina na plateia.

Terremoto 3 final

Johnson e sua missão impossível para se redimir com a família: exército de um homem só na salvação da Califórnia (Foto: Divulgação)

Para piorar, o tema da redenção de um casal desfeito e da recuperação de uma família em crise continua imperando como o mais imaginativo que se consegue conceber em termos de drama existencial. Mas,… tudo bem! O que público quer ver mesmo é como vão se abrir as rachaduras no asfalto, como os arranha-céus irão se esfacelar, os viadutos se envergar e os tsunamis evoluir; esses sãos os verdadeiros personagens deste espetáculo.

Felizmente, os produtores de casting se encarregaram de convocar o astro dos filmes de ação que melhor tem se saído nos últimos 15 anos – Dwayne Johnson –, que consegue alternar filmes para cabra-macho com comédias ligeiras, assim como seu antecessor Arnold Schwarzenegger nos anos 1980/90. Mesmo sem ter nem de longe o cacife de um Al Pacino, é ele quem dá conta do recado e segura o roteiro, com o apoio somente de Carla Gugino e do sempre competente Paul Giamatti. O resto é mera figuração.

Dwayne Johnson: o anabolizado que já foi The Rock segue os passos de Schwarzenegger nas telas e agora salva o mundo no melhor estilo Heston de ser (Foto: Divulgação)

Dwayne Johnson: o anabolizado que já foi The Rock segue os passos de Schwarzenegger nas telas e agora salva o mundo no melhor estilo Heston de ser (Foto: Divulgação)

Ou quase isso, já que vale lembrar que o diretor fez o dever de casa diretinho e escalou um garotinho (Art Parkinson, de “Drácula: a história nunca contada”) que funciona bem em cena. Afinal, na ausência de um cachorro (“Independence Day” e “2012”), de uma vovozinha clandestina que viaja num avião (“Aeroporto”) ou uma velhinha judia fora de forma que salva o reverendo (“O Destino do Poseidon”), vale apelar para um moleque fofo e tentar garantir o sucesso da película.

Hollywood e o público amam velhinhos, cachorros e crianças em situações-limite! Confira abaixo a galeria de talismãs que ajudam a salvar alguns dos filmes-catástrofe mais representativos do gênero (Fotos: Divulgação):

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