*por Vítor Antunes
Ela deu vida a uma das maiores vilãs do SBT, razão pela qual é constantemente lembrada pelos telespectadores. Da mesma forma, é frequentemente homenageada pela classe artística por seu talento. Tania Bondezan, recentemente, foi reconhecida por sua atuação em A Golondrina, e acaba de fazer a peça Radojka, no Teatro Sérgio Cardoso. “Agora, eu estou parada na televisão, não recebi mais convites. Mesmo que eu tivesse recebido, eu não poderia aceitar. Antes desta peça, eu estava fazendo A Golondrina, que foi premiada com o Shell. A última novela que fiz foi no SBT, Cúmplices de um Resgate, e na emissora fiz muitas vilãs, como a Malvina de Maria Esperança (2007). Até hoje, especialmente no Nordeste, a Malvina tem muita força e repercussão. Já cheguei a ser apedrejada na rua por conta dela”. E ela detalha o episódio: “Fomos gravar no interior de São Paulo uma cena de casamento numa igreja, e as pessoas estavam acenando para nós, atores. A gente se trocava numa sacristia, que ficava no andar inferior. Quando subimos as escadas, todo mundo continuava acenando, e eu acenei de volta. Foi quando começaram a jogar pedras”, diverte-se. Protagonizada por Bárbara Paz, a novela pode ser vista no +SBT.
Um dos temas abordados em “Radojka”, ainda que de maneira sutil, é o etarismo, já que a personagem de Bondezan, mais madura, enfrenta dificuldades para conseguir um novo emprego. “Ele está presente na peça no caso de eu ser uma cuidadora mais velha, que teria dificuldade em se recolocar no mercado após a morte da sua paciente. Em qualquer profissão, o etarismo acaba pesando. Naturalmente, esse é um dos temas da peça. A partir de uma determinada idade, fica mais difícil para as mulheres conseguirem um trabalho. Acho que a discussão sobre isso está cada vez mais presente na nossa sociedade, e tem que ser assim, tanto para as mulheres quanto para os homens. “A busca por emprego numa idade mais avançada é difícil, especialmente quando se dispensa uma mão de obra mais qualificada, com mais tempo de trabalho e experiência. Mas estamos na luta”, afirma.
Tania Bondezan deve seguir o ano com a montagem de Radojka, peça dos autores uruguaios Fernando Schmidt e Christian Ibarzabal, dirigida por Odilon Wagner. “Esse ano eu vou ficar dedicada à Radojka. Já fiz várias capitais do Brasil e vou fazer outras agora. O gostoso é poder viajar. Eu tenho tido a sorte de contar com uma produtora junto ao Odilon Wagner, e ele sempre faz espetáculos que duram muito tempo. Já estamos com Radojka há um ano, e agora vamos continuar com ela, na companhia da Fabiana Karla, com quem estou dividindo a cena”.
A atriz nega que esteja havendo uma visão deturpada do teatro em razão do que foi herdado do governo passado com relação ao Ministério da Cultura e da postura anti-artistas, especialmente presente nas redes sociais. “Aconteceu uma coisa muito interessante agora com a nossa excursão de Radojka. Lotamos todos os teatros a ponto de precisar fazer sessão dupla. Em todos os lugares que a gente foi, inclusive em Porto Alegre, depois das enchentes — aquela coisa tão triste — nós fomos a única grande peça que foi até lá, e fomos muito bem recebidos. Não acho que tenha uma recusa do público ao teatro. Tenho visto os teatros cheios. Não sei se, por conta da pandemia, as pessoas perceberam um pouco a finitude e quiseram estar em espaços públicos e foram atrás do aqui-e-agora do teatro. Isso me parece muito especial.”
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Fabiana Karla e Tania Bondezan (Foto: Divulgação)
“MÁ”, DE MALVINA
Muitas das novelas nas quais Tânia Bondezan atuou foram no SBT. Nesta emissora, como ressaltado, seu último trabalho foi em Cúmplices de Um Resgate, e um dos mais marcantes foi Malvina, de Maria Esperança. “O SBT confiou em mim, e foi lá que pude desenvolver personagens incríveis. Tive uma parceria muito feliz e muito forte com Henrique Martins (1933-2018) e com o Jacques Lagoa. Esmeralda, uma das novelas que fiz no SBT, chegou a ter 20 pontos de audiência”.
Sobre a nova geração de atores, alguns contratados em razão do número de seguidores, Tania analisa: “Acho que tem duas vertentes. Uma parte é mais preparada, sim. Você assiste aos musicais e vê quanta gente boa cantando, dançando, interpretando… É encantador esse movimento que a gente tem no Brasil. Por outro lado, tem pessoas que não têm preparo nenhum. E aí nem é culpa delas. Na realidade, é culpa dos meios, principalmente da televisão, que acaba contratando a pessoa com mais seguidores. Isso é uma bobagem”.
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Tânia Bondezan está há dez anos fora das novelas (Foto: Divulgação)
Tânia é mais uma das pessoas que tem preferido acompanhar as tramas mais antigas, assunto do qual tratamos recentemente aqui como “a revolução dos mofos”, onde projetos de TV mais antigos geram mais engajamento e interesse que os novos. “Tenho visto novelas mais antigas que são maravilhosas. É uma aula de interpretação. As novelas precisam de atores bons, carismáticos, e é isso que leva uma novela adiante: os atores mais experientes. Você pode ter um ator sem experiência, que nunca fez nada, e ele pode acertar em um trabalho. Pode acontecer. Mas acertar uma vez não quer dizer que ele vai acertar sempre. O ator tem que se voltar para o teatro, para a pesquisa, ele tem que se realimentar. Muitos jovens me procuram perguntando sobre como performar bem na carreira, e eu aconselho que invistam no teatro, na improvisação.”
A televisão é maravilhosa, mas é uma fábrica de ilusões. Para se dar bem naquele veículo, você tende a ser massacrado, consumido por muita gente, fora as exigências da própria emissora, do patrocinador, as cobranças que a TV demanda. Eu adoro fazer televisão, mas ela tem outro tempo (de realização). A pesquisa que a gente faz no teatro, as horas que você passa ensaiando, estudando texto… Isso a televisão não te permite, não dá tempo – Tânia Bondezan
Tendo como ofício a emoção, Tania descreve o que mais a toca na vida: “O que me emociona… Eu vou dizer algo que parece piegas, mas não é. Claro, me emociona a família, meu filho, isso é óbvio. Mas, me emociona estar em cena, arrepiar. Emocionar a plateia a ponto de levá-la às lágrimas, como era o caso de A Golondrina. Agora, em Radojka, é ver o público rolar de rir. É proporcionar para essas pessoas um momento de ‘Meu Deus!’, um momento de ‘Vamos esquecer tudo da vida aqui e agora, nesse instante’. Isso é muito emocionante. É uma coisa que eu levo com tanto carinho para a minha vida toda. Minha profissão é, realmente, tocar as pessoas. Tocar o coração das pessoas”.
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Tania Bondenzan quer seguir com “Radojka” em temporada pelo Brasil (Foto: Divulgação)
Entre vilãs marcantes e personagens cômicas, Tania Bondezan construiu uma trajetória de emoção e entrega. Das pedras atiradas pela força de suas interpretações ao riso solto que ecoa em Radojka, ela segue tocando corações. Mesmo longe da televisão, sua presença continua viva no palco, onde o tempo ganha um novo sentido. Com a paixão de quem vive para emocionar, Tânia segue sua jornada, provando que o verdadeiro espetáculo está em nunca deixar de encantar.
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