Taís Araújo em ‘Vale Tudo’: “Vou brincar e se quiser até chamar a Maria de Fátima do jeito icônico da Regina Duarte”


Ela é Raquel Acioly no remake escrito por Manuela Dias e detalha as razões de ter aceitado viver a personagem eternizada no original de Gilberto Braga por Regina Duarte. E também fala da responsabilidade de liderar o clássico da teledramaturgia brasileira, de comparações, de liberdade de criação, de homenagens e da experiência de viver a protagonista sendo uma mulher preta. “A Raquel é uma mãe solo, que abdicou da sua vida para criar essa filha. É uma mulher que está na base da pirâmide desse país, é a cara do Brasil. E é também a minha existência da mulher preta nesse país, mesmo sendo privilegiada, porque está no meu sangue. Sei quem são essas mulheres, tenho elas na minha família. A experiência de uma mulher negra é muito diferente, porque é como o mundo a encara . Tem algo muito conhecido da gente, dessas mulheres do nosso dia a dia”

*Por Brunna Condini

Ainda bem que Taís Araújo voltou atrás em sua negativa após o convite para protagonizar o remake ‘Vale Tudo’, que estreia no horário nobre da Globo em 31 de março. A atriz que coleciona heroínas, havia pedido uma antagonista a José Luiz Villamarim, diretor de dramaturgia da TV Globo, então não se empolgou de cara para viver Raquel Acioly, uma super heroína, vivida por Regina Duarte na clássica versão de 1988. “Mas acabou que se inverteu a situação, porque depois que assisti novamente o primeiro capítulo no Globoplay, corri atrás querendo muito fazer. Não podia perder essa oportunidade, é uma personagem genial. Personagens bons são aqueles que têm conflitos, e isso é só o que a Raquel tem (risos). Uma jornada do herói, uma escalada, é um papel muito bem escrito. Em termos de arco é a personagem perfeita”, diz Taís sobre a novela criada por Gilberto Braga (1945-2021), Aguinaldo Silva Leonor Bassères há 37 anos.

Sobre a responsabilidade de liderar a trama do clássico da teledramaturgia brasileira, ela responde: “É a novela das novelas. É uma responsabilidade imensa, mas a honra é muito maior. O mais importante é estar livre e segura o bastante para revisitar essa história”. E falando de comparações com o original e com a performance de Regina Duarte que marcou época, a atriz observa:

Taís Araújo diz que remake de 'Vale Tudo' é outra novela, fala da responsabilidade de fazer trama e de comparações, e dedica trabalho às mulheres que constroem o país (Foto: Divulgação)

Taís Araújo diz que remake de ‘Vale Tudo’ é outra novela, fala da responsabilidade de fazer trama e de comparações, e dedica trabalho às mulheres que constroem o país (Foto: Divulgação)

“Estamos remontando, refazendo. Então a trama tem as nossas identidades, nosso olhar, nossas críticas. A novela é a mesma e não é. É a história de uma mãe com uma filha, é a história de uma guerra de classes, mas com uma mulher preta, por isso é outra história”. Taís também elogia a ‘releitura vintage’ da autora Manuela Dias para o folhetim:

Quando leio os capítulos parece até que foi escrito por uma mulher preta. A Raquel que faço é uma grande homenagem e representação das mulheres pretas que constroem esse país, que estão na base da pirâmide dele – Taís Araújo

Taís Araújo e Bella Campos: Raquel e Maria de Fátima no remake de 'Vale Tudo' (Foto: Divulgação/Globo)

Taís Araújo e Bella Campos: Raquel e Maria de Fátima no remake de ‘Vale Tudo’ (Foto: Divulgação/Globo)

Manuela Dias completa sobre o tema: “A Raquel sempre foi preta. Foi branca lá atrás pela nossa incapacidade de perceber e de dar esse protagonismo. Era difícil naquela época, que bom que hoje entendemos cada vez mais, e lutamos por essa construção. De 1988 para cá passamos por um processo de letramento de coisas estruturais e estruturantes: o racismo, o machismo, o classismo. No original só existiam dois atores pretos na novela, mas nosso olhar está tão deformado pelo racismo estrutural que não conseguíamos enxergar. Que bom que isso vem mudando”.Taís fala ainda da representação dessa mulher preta hoje e de como isso a atravessa:

Taís Araújo é Raquel Acioly em 'Vale Tudo': "É uma responsabilidade imensa, mas a honra é muito maior" (Divulgação/Globo)

Taís Araújo é Raquel Acioly em ‘Vale Tudo’: “É uma responsabilidade imensa, mas a honra é muito maior” (Divulgação/Globo)

“A Raquel é uma mãe solo, que abdicou da sua vida para criar essa filha. É uma mulher que está na base desse país, é a cara do Brasil. E é também a minha existência da mulher preta nesse país, mesmo sendo privilegiada, porque está no meu sangue. Sei quem são essas mulheres, tenho elas na minha família. A experiência de uma mulher negra é muito diferente, porque é como o mundo a encara . Tem algo muito conhecido da gente, dessas mulheres do nosso dia a dia. É mesmo uma grande homenagem”, reflete. 

Taís Araújo é a protagonista Raquel Acioly em 'Vale Tudo': "A cara do Brasil" (Divulgação/Globo)

Taís Araújo é a protagonista Raquel Acioly em ‘Vale Tudo’: “A cara do Brasil” (Divulgação/Globo)

Taís conta que também vai misturar em sua composição a sua versão da Raquel com homenagens à interpretação original de Regina Duarte:

Quero estar tão livre pra fazer, que se eu quiser possa chamar a Maria de Fátima (Bella Campos) daquele jeito icônico que a Regina fazia (imita o som do grito da personagem). Quero ter liberdade para brincar com essa coisa que remete à nostalgia. Essa novela está no nosso imaginário, no nosso coração.  Ao mesmo tempo, como já frisei, é algo completamente diferente. Não é questão de criar a minha Raquel ou a Raquel feita pela Regina. É a experiência de uma mulher negra, que é completamente diferente da de uma mulher branca, que eu não faço ideia de como seja . O mais importante é a liberdade pra fazer esse trabalho e essas homenagens- Taís Araújo

Paulo Silvestrini e Taís Araújo gravam 'Vale Tudo' em Foz do Iguaçu (Divulgação/Globo)

Paulo Silvestrini e Taís Araújo gravam ‘Vale Tudo’ em Foz do Iguaçu (Divulgação/Globo)