Tal como em “Travessia”, veja seis casos de atores que, insatisfeitos, reclamaram de novelas que trabalharam


Toda novela possui muitos personagens e universos e envolve uma entourage, quando somados elenco, autores, e equipe técnica. Ultimamente tem sido recorrentes as reclamações nos bastidores de artistas e técnicos da novela “Travessia” com os rumos. Ainda que algumas novelas sejam marcadas pelo sucesso, a trajetória confusa de alguns personagens, motivaram reclamações públicas de atores. Em “Amor à Vida” e “Baila Comigo”, por exemplo, duas novelas bem sucedidas, estas tiveram em Juliano Cazarré e Betty Faria os porta-vozes do descontentamento. Vera Fischer falou sobre seu papel em “Salve Jorge”, que virou até meme na web. Outras tramas de insucesso, como “Os Gigantes” e “Máscaras”, têm a coincidência de serem escritas pelo mesmo autor, e nos dois casos, atores chegaram a publicar nas redes sociais ou a sapatear por sobre o script em face da irritação. Veja seis casos de artistas que não gostaram das novelas nas quais atuaram

*Por Vítor Antunes

É de conhecimento público que novela é algo trabalhoso e extenso. A implantação de uma trama acontece meses antes de sua estreia e desde este momento alguns atores já encontram-se expostos aos seus papéis. Na novela “Travessia“, atualmente no ar às 21h, tem repercutido na mídia que atores reclamam da trama por conta dos ajustes que têm sofrido enquanto é levada ao ar em razão da baixa audiência – durante as festas de fim de ano marcou o recorde histórico de pior índice de audiência na faixa de horário. Recentemente, a autora Gloria Perez negou que tem atrasado a entrega de capítulos para ajustar cenas com objetivo de recuperar a audiência.

Conforme uma novela vai ao ar, com a necessidade de administrar muitos personagens, alguns, inicialmente promissores, acabam ficando pelo caminho e perdem ou importância. Caso da Chiara, interpretada por Jade Picon. Ela recebeu uma enxurrada de críticas na estreia da trama e hoje está em banho-maria. Fazendo uma linha do tempo, outra trama de Gloria Perez, “Salve Jorge“, foi criticada por Vera Fischer em razão de sua personagem, Irina, ser irrelevante, de modo que uma das frases ditas por ela no folhetim – “Estou só fazendo a contabilidade” -, passou a ser utilizada na Internet para definir personagens que não tem importância narrativa. Vera reclamou publicamente da personagem, que a seu ver era “quase que humilhante”. Traremos seis casos de atores que reclamaram publicamente de seus personagens. Veja!

Betty Faria em “Baila Comigo”. Atriz foi Joana na novela de Manoel Carlos e a personagem teve problemas de desenvolvimento (Foto: Divulgação/TV Globo)

Vera Fischer – Salve Jorge (2012/2013)

Quando começou a ser ventilada a possibilidade das reprises que ocupariam a faixa do “Vale a Pena Ver de Novo” em 2020, o jornalista Duh Secco citou “Salve Jorge” como uma das cotadas a reexibição. Na live do repórter, Vera Fischer comentou “Salve Jorge, não! Oh, novela ruim!”. Ainda que tenha tido um bom retrospecto junto à autora Gloria Perez, a participação de Vera em “Salve Jorge” não apenas não foi proveitosa, como ela própria não escondeu seu desagravo: “Irina não tem cenas fortes, não dá para decolar. Quando vi o caminho em que as coisas estavam indo, pensei: ‘Bom, deixa, é mais uma novela, acaba, o público esquece, e tal.’ Se fosse em outra época, eu daria um chilique”, declarou.

Com efeito, Irina, sua personagem, passou boa parte da trama sentada, o que motivou uma hashtag junto ao Twitter, a #levantairina. Uma das poucas vezes em que a personagem levantou-se foi no último capítulo, quando foi abordada pela polícia e deu a fala: “Eu só faço a contabilidade”, que também virou meme nas redes sociais, e costuma ser atribuída a personagens que não fazem diferença à trama. Como desabafou ao Jornal O Globo:

Para uma atriz como eu, com quase 40 anos de TV Globo, que fez milhares de trabalhos de qualidade, não precisava estar ali fazendo esse papel. Não precisavam me chamar para fazer a novela [Salve Jorge]. Não precisavam de mim. Poderiam colocar alguém que está começando, que precisa. É um personagem, que para mim, é quase que humilhante. (…) Só espero que o próximo personagem que me apresentem seja um com alguma dignidade, porque estou cansada de fazer papelzinho que não é para mim e sim para uma pessoa que está começando na carreira – Vera Fischer, em 2013

“Salve Jorge” foi a última parceria entre Gloria Perez e Vera Fischer, que só faria uma novela completa em 2018, “Espelho da Vida”, de Elizabeth Jhin.

Vera Fischer. Papel em “Salve Jorge” foi “humilhante” (Foto: Alex Carvalho/TV Globo)

Luiza Tomé – “Máscaras” (2012)

Cercada de problemas, desde a pouca adesão do público a questões difíceis nos bastidores, encurtamento e a necessidade de os próprios atores escreverem uma carta sinalizando que estavam apoiando a novela, “Máscaras” é um folhetim de triste memória na Record. Última trama de Lauro César Muniz, que deixaria a emissora pouco tempo depois da exibição do seu último capítulo, o projeto da Record foi alvo das reclamações de Luiza Tomé, intérprete de Geraldine. Na ocasião, Tomé foi às redes sociais e disparou: “Será que o Lauro [César Muniz] está gostando da figuração que estou fazendo? Vinte e oito anos nadando para morrer na praia?! Não quero mais!”. Entre outras falas, Tomé declarou: “Queria muito fazer a novela e não ser desvalorizada! Estou muito triste! Desabafo com você, [seguidor] porque ele, [Lauro], não tem Twitter. Sou guerreira, mas não quero mais ser Geraldine de nada. Pois nada é o que ela faz”. Luiza manteve as assertivas, dizendo que gostaria de ser tirada da trama e que aquele seria seu último trabalho com Lauro César Muniz, pois sua personagem não era “importante na trama”.

“Estou mega triste! Segurei até onde deu! Mas amo muito o que faço, não desrespeito ninguém! Mas exijo RESPEITO. Perdi a vontade, o tesão de gravar. Se não gosta [de mim] me tira. Pedi para fazer a novela porque adorava ele, mas a recíproca não rola, então me tira! Não é a primeira novela que faço do Lauro, mas com certeza será a ultima, me sinto humilhada. Ele não escreve pra mim! Me tira, é mais digno.” – Luiza Tomé, em 2012

Anos mais tarde, a atriz se disse arrependida por haver feito tais declarações. Em 2018, no Superpop, de Luciana Gimenez, afirmou que não estava em plenitude quando fez as postagens no microblog: “Nunca pegue uma taça de vinho e o telefone. Eu não estava me sentindo bem, feliz, e se um ator não trabalha feliz, não dá o melhor. Cheguei em casa triste achando que Lauro não estava escrevendo com empolgação. Estava começando a usar redes sociais e fiquei louca (…). Fiquei muito triste. Eu me arrependi, depois pedi desculpa, pedi perdão várias vezes ao Lauro. Conversei por telefone, e ele foi maravilhoso comigo, falou.

Luiza Tomé era Geraldine em “Máscaras”, da RecordTV (Foto: Miguel Angelo/RecordTV)

Juliano Cazarré – “Amor à Vida” (2012/2013)

O jornal O Dia, na época da veiculação da novela publicou uma fala rascante de Juliano Cazarré sobre seu personagem na novela “Amor à Vida”: “Estou doido para tirar de vez a zica desse Ninho”. Ainda que a trama tenha feito muito sucesso, especialmente por conta do personagem Félix, de Mateus Solano, aquele vivido por Cazarré transitou por vários registros no folhetim: Iniciou como um hippie, enriqueceu, era bondoso, transformou-se em vilão – especialmente para cumprir o ardil que antes competia a Félix, tornado mocinho. A indecisão no caráter de Ninho fez com que o ator declarasse ao mesmo veículo. “[Recebo] um personagem novo aos 45 minutos do segundo tempo. Ninho não se defende. Sinto falta de ele mostrar o seu lado na história. (…) Ele é sempre arrastado pelos planos dos outros, nunca tem vontade própria. (…) Não estou decepcionado com o rumo do Ninho. Mas continuo sem saber quem ele é. Ele é um vilão? Não. É um mocinho? Também não”, disse ele, sem saber os rumos de seu personagem.

Juliano prossegue, agora ao Jornal Extra: “Recebia as mudanças no desespero. Ah, meu Deus: agora ele é rico? Não era pobre e hippie? Tá bom, vamos lá. Conversei com Walcyr um pouco durante a novela. Pedi uns caminhos para ele. Ele falou comigo e me ajudou. Fui me adaptando. O Ninho é muito diferente do personagem que eu fiz no primeiro capítulo. Mas é bacana, porque é um desafio, e a gente cresce no desafio”

“O que o Walcyr escrever, vou fazer da melhor maneira possível. Eu não estou torcendo por nada, porque não adianta torcer. É gastar energia à toa. Vou fazer o que chegar – Juliano Cazarré, em 2012

Juliano Cazarré foi Ninho em “Amor à Vida”, e reclamou de seu personagem (Foto: João Cotta/TV Globo)

Juliano não foi o único a reclamar de seu papel. Ricardo Tozzi, no programa “Mais Você”, também disse que seu personagem “não tem atitude”. Tornaram-se públicas, igualmente, as farpas trocadas entre Marcello Antony e o autor Walcyr Carrasco. Este último também não estava satisfeito com os rumos de seu papel na trama.

Betty Faria – Baila Comigo, 1981

Betty Faria vinha de sucessos na televisão e no cinema. Nas telinhas, havia estado em “Duas Vidas” (1976), apresentado o programa “Brasil Pandeiro” (1978) e protagonizado “Água Viva” (1980), quando foi escalada a estar em “Baila Comigo” (1981), primeira trama de Manoel Carlos no horário das 20h. A uma novela que trazia a dança no título, coube à Betty ser porta-voz da modalidade no folhetim: Era professora da academia existente na novela e já em seu primeiro capítulo fazia um número de jazz. Um dos diretores da novela, Roberto Talma, (1949-2015) definiu assim a personagem: “A versatilidade de Betty Faria, uma das poucas artistas da sua geração a saber atuar, cantar e dançar motivou a sua entrada na novela. (Joana trata-se) de um personagem que, a princípio terá menor participação na história, mas que, por conta de versatilidade de Betty pode crescer”, falou ao jornal O Globo, em 06/03/1981.

Joana, era, sabidamente, um personagem menor na novela, uma participação, mas Betty insistiu em fazê-la. E arrependeu-se: “Boni [José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, diretor da Globo] tentou me alertar que não havia um personagem bom para mim, (…) mas insisti em fazer. (…) Ela não era protagonista – e eu vinha de Pecado Capital, Duas Vidas, Brasil Pandeiro, Bye Bye Brasil e Água Viva. (…) Joana ficou confinada naquele único cenário da academia, sem fazer parte do núcleo central da história. Foi ruim para mim, porque fui chata. E quando a gente é chata isso se espalha. Tenho certeza que aborreci o Manoel Carlos querendo que ele melhorasse o meu papel”, declarou Betty em sua biografia, o livro “Rebelde por Natureza“.

Nunca mais o Manoel Carlos me chamou para trabalhar em novela alguma sua. Possivelmente não deixei uma boa impressão – Betty Faria, em 2006

Maneco, com sua elegância característica, justificou à Revista Manchete: “Joana, para mim, realizou-se plenamente, tal como foi projetada. Se pareceu pouco aproveitado ou inacabado (o personagem), me faltou capacidade para passar essa realização para o público. O papel era exatamente esse. Talvez fosse pequeno para uma Betty Faria, (…) que sempre soube tratar-se de uma participação especial e, (…) como sempre em sua carreira, (a atriz) esteve em grande nível”.

Betty Faria em “Baila Comigo”: “Eu fui chata” (Foto: Divulgação/TV Globo)

Lima Duarte – Araguaia (2010)

A participação de Lima Duarte na trama das 18h era cercada de expectativa. Em especial por tratar-se de um reencontro de pioneiros da televisão: Walter Negrão e ele. O veterano viveria um dos vilões de “Araguaia”. E Lima animou-se por ser um personagem que enlouqueceu de amor por haver sido preterido por aquele interpretado por Regina Duarte, Antoninha. Além disto, trabalharia com Laura Cardoso e Eva Wilma (1933-2021). Porém, depois de veiculada a trama, Lima foi ferino sobre o que achara da novela de Negrão: “Muito chato, eu detestei esse vilão aí. Não gostei de fazer não. A repercussão foi boa, pois eu fiz muito bem um personagem que eu detestei”, disse, sobre Max Martinez, à Revista Serafina.

Lima Duarte não agradou-se com o vilão de “Araguaia” (Foto: Estevam Avellar/TV Globo)

Dina Sfat – Os Gigantes (1979)

Outra a desagradar-se de sua personagem foi Dina Sfat (1938-1989). A novela de Lauro César Muniz era problemática. “Os Gigantes” falava sobre exploração econômica promovida por multinacionais, além de tratar sobre eutanásia. O público não comprou a história, nem os atores. No começo da trama, Dina Sfat dizia não conhecer bem Paloma, sua personagem, mesmo já gravando o projeto: “Ela me preocupa e ainda não a conheço inteiramente, apesar de já ter gravado mais de trinta capítulos. Isso se deve um pouco ao fato de Paloma ser o eixo da novela, o que me dá medo e prazer ao mesmo tempo, mas também me deixa, como atriz, oscilante”, disse, ao jornal O Fluminense, em Agosto de 1979.

O clima na novela foi se agravando gradualmente. Tanto que, insatisfeita, e já próximo do término das gravações, Dina Sfat jogou o script no chão durante uma das gravações da trama, pisando sobre ele, pois que sua personagem praticaria suicídio. Por fim, Lauro César Muniz foi afastado da novela, Dina concluiu-a e disse que jamais faria um novo folhetim – ainda que tenha estado em outras duas obras após esta, até que falecesse, em 1989.

Dina Sfat foi a Paloma de “Os Gigantes” (Foto: Nelson di Rago/TV Globo)