Susanna Lira, diretora da série ‘Adriano, Imperador’, revela curiosidades sobre o backstage das filmagens


A cineasta dirige série documental lançada pela Paramount+ e destaca momentos marcantes para ela: “Já era fã do Adriano como flamenguista que sou. Tinha uma visão dele como todos, de um homem muito reservado, trancado. Mas ele é uma ebulição de emoções”

*Por Brunna Condini

Esta semana, muito se tem falado (e ainda há muito por vir) sobre Adriano Leite Ribeiro, o Adriano, Imperador, que ganhou uma série documental lançada hoje no Paramount+ . Vida e trajetória profissional, as polêmicas e as conquistas memoráveis, como o fato de ter tido sua ascensão aos 19 anos e ter construído um império na Itália… vamos poder acompanhar tudo a cada episódio. O próprio Adriano concordou em compartilhar suas lutas pessoais, a intimidade com familiares e, acima de tudo, o amor que sempre sentiu pelas suas origens. Mas, o que tem a revelar a diretora Susanna Lira sobre este mergulho na intimidade do Adriano, que alcançou a chancela de uma das lendas do futebol? O que ela guardará em suas memórias afetivas para sempre e que pode dividir conosco?

Em tempo: a mesma Susanna também acabou de assinar para a Globoplay um doc. sobre outro ex-jogador icônico, Walter Casagrande Júnior, ‘Casão – Num Jogo Sem Regras‘. A produção pretende mostrar o homem por trás da persona que se criou.

Com a palavra, Susanna: “O futebol é um lugar machista, masculinista. Ter um olhar feminino é interessante. Tanto o Casagrande quanto o Adriano se deixaram mostrar vulneráveis, se abriram realmente. Meu objetivo ao fazer essas séries foi dizer que podem mostrar quem são, porque fragilidade também é força, e colocar um olhar que acolhe, não julga. Traduzir esses caras para o mundo”. A diretora fez registros inéditos da infância de Adriano, Imperador, na Vila Cruzeiro, comunidade do Rio, que segue sendo seu abrigo. “As pessoas especulam o que tanto o que ele faz na Vila Cruzeiro, e pude acompanhar de perto essa intimidade. A família, que é toda apaixonada por futebol, os amigos da vida toda. Adriano tem quase 2 metros de altura, mas é um homem extremamente sensível. Não quis ver o documentário antes da estreia, está bem emocionado. Queremos mostrar o que está por trás do império que ele criou”.

Não faço filme sobre as pessoas, faço com as pessoas. Ajudo-as a encontrar o caminho desta comunicação. São elos, vínculos profundos – Susanna Lira, cineasta

A diretora Susanna Lira e Adriano, Imperador: série documental sobre trajetória do ídolo e mergulho no universo onde tudo começou: a Vila Cruzeiro (Foto: Divulgação)

EBULIÇÃO DE EMOÇÕES DE UM HOMEM TÍMIDO

“Já era fã do Adriano como flamenguista que sou. Tinha uma visão dele como todos: um homem muito reservado, trancado. Mas ele é uma ebulição de emoções, transborda. Acho que não fala muito para não se mostrar tão vulnerável. Não tem uma entrevista que eu tenha feito com Adriano que não tenha chorado em algum momento. E também é tímido, acredite”.

O flagrante da introspeção do Imperador (Foto: Divulgação)

UMA CÂMERA VHS COMPRADA EM PARCELAS PELO TIO-FÃ

“A série é toda baseada em umas fitas VHS que um tio do Adriano, o Pedro Paulo, tio Papau, cedeu. Ele registrou a vida da família. Uma câmera naquela época era artigo de luxo, mas ele foi lá, parcelou e comprou. Eles se divertiam com os registros, as lembranças, valorizavam. Foi um tesouro ter a intimidade dessa família nas mãos. São mais de 60 horas de gravação, 20 anos filmados. Jamais ninguém conseguiria acessar essa intimidade. É muito emocionante e inédito. Esse acervo pessoal é o trunfo dessa série”.

A UNIÃO NA VILA CRUZEIRO

“O momento mais desafiador das filmagens foi reproduzir um jogo de futebol com os times da adolescência dele na Vila Cruzeiro. O pai do Adriano era o técnico do time que ele jogava. Foram mais de 50 pessoas no campo, dois times, as famílias na torcida. Foi incrível”.

“O Adriano sempre foi um cara da Vila Cruzeiro, fiel às sua origens como nunca vi, aos amigos. Ele é muito amado naquele lugar” (Foto: Divulgação)

FAMÍLIA QUE ACREDITOU EM UM SONHO

“Todos da família adoravam futebol e era flamenguista. Por isso, e também por ser um time grande, que foram atrás da escolinha do time para que Adriano começasse a treinar. A família se uniu pelo que se tornou o sonho dele”.

Backstage de ‘Adriano, Imperador’ (Foto: Divulgação)

ADRIANO E A MÍDIA

“Adriano não tem mágoas, mas tem uma resistência sobre como a imprensa abordou sua vida, foi muita pressão, julgamento quando fez uma pausa na carreira e voltou para o Brasil. Ninguém se perguntou o que fez um cara abrir mão de um contrato de milhões de euros. Ele tinha lealdade à direção do Inter de Milão, qualquer outro jogador ficaria fazendo corpo mole, para continuar ganhando. Mas escolheu a integridade, não se deixou levar pelo dinheiro. O Adriano sempre foi um cara da Vila Cruzeiro, fiel às sua origens como nunca vi, aos amigos. Ele é muito amado naquele lugar”.

O CHOQUE PÓS-TRAUMÁTICO COM A MORTE DO PAI

“Depois da morte do pai (Almir Ribeiro, pai do ex-jogador, morreu vítima de um ataque cardíaco dias depois da vitória da Seleção Brasileira na Copa América, campeonato no qual Imperador teve um papel de destaque em 2004) -, ele ficou mal emocionalmente. O pai era uma espécie de mentor. Quando o filho, enfim, vira o ‘Imperador’, o pai morre. Não à toa Adriano fala muito sobre saúde mental até hoje. Acho que o depoimento dele além de prestar um grande serviço aos atletas, porque mostra suas fragilidades, que é permitida a sensibilidade, a afetividade, e também suscita a reflexão para que as pessoas na internet, a imprensa, falem das pessoas com mais empatia. É preciso ter responsabilidade nisso”.

COMO CHEGAR AO ÂMAGO DE ADRIANO

“Não foi fácil a aproximação com Adriano para que se abrisse, mas valeu muito a pena. Vocês vão poder conferir. Ele me ensinou ainda mais o quanto é preciso se aproximar verdadeiramente das pessoas para entendê-las. Mergulhos profundos são importantes. E esse me colocou em um lugar de acolhimento que jamais experimentei. Ele me ensinou isso: se aproxima, se aprofunda, depois fala. Mergulhar é importante para retratar”.

A ALQUIMIA DE SUSANNA NA SUA ARTE

“Tudo que achei importante falar, falei, não foram colocadas limitações. É um retrato intimista, precisei ganhar a confiança dele para colocar no trabalho o que imaginamos. Não faço filme sobre as pessoas, faço com as pessoas. Ajudo-as a encontrar o caminho desta comunicação. São elos, vínculos profundos”.