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Sucesso em novela do SBT, Maria Gal luta por representatividade negra: “o Brasil é um país sem memória”

A atriz está no ar como Gleyse na trama infantil “As Aventuras de Poliana” e criou a Maria Produtora, que busca representatividade e empoderamento dentro do nicho dramatúrgico. “A produtora nasceu no segundo em que eu ouvi que não conseguiria um papel por meu rosto não ser tão comercial como de alguém branco. A partir daí, eu sabia o que eu precisava fazer”, revelou

Publicado em 13/12/2018 | Por Anna Castro

O pai, no começo, gostaria que ela fosse advogada e a mãe desejava a carreira de médica, mas Maria Gal resolveu ouvir o chamado da atuação, que veio acompanhado do ativismo. Reconhecida pelo seu talento como atriz e pelos seus discursos conscientizadores sobre racismo e representatividade negra na mídia, a atriz possui desde criança a vontade pela arte e, com a criação da Maria Produtora, busca captar recursos para produzir filmes e conteúdos audiovisuais que incluam a população negra. Em breve, também levará para as telas a série “Os Souzas”, que fala sobre uma família que enriquece rapidamente e muda de vida, e para o cinema o filme “Carolina” sobre a escritora Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de Despejo”. “Nós somos 54,6% da população brasileira e não somos vistos em cargos e postos de poder e de representação. Se nós não nos vemos na televisão, não vamos consumir. E vai ser assim em todas as esferas: se não me sinto representada, não consumo e vou procurar outros conteúdos produzidor por pessoas negras. É o movimento black money que vem fortemente dos Estados Unidos e nós vamos consumir o que nosso povo produz”, explicou Maria, que também faz parte do sucesso do SBT “As Aventuras de Poliana”, interpretando Gleyse Soares. A atriz contou ao site HT sobre seus novos projetos, seu papel como ativista e a luta pela representatividade.

No teatro desde os 10 anos, Maria Gal sempre foi uma pessoa ligada às artes e à comunicação (Foto: Pino Gomes)

A novela atingiu a maior audiência das últimas semanas e promete ficar no ar até 2020. Grande parte do sucesso é por Maria Gal que, interpretando a personagem que, segundo a atriz, é um retrato que as pessoas se identificam. “Gleyse é a típica mulher brasileira. Ela luta para conseguir dar uma boa educação para os filhos, não tem uma ótima condição financeira, trabalha, tem filhos que não tem um pai tão presente assim e é parte de uma família formada por pessoas negras. É essencial que tenhamos isso representados na televisão, porque nós também temos família, também somos seres com boas histórias para contar. E isso tudo está dentro do escopo familiar e do afeto. Nós também temos que ser representados dentro do afeto e do carinho e, muitas vezes, os papeis que são destinados às pessoas negras estão fora da afetividade e focados em violência, em subserviência, em agressividade. Nós somos a maioria da população e somos diversos, por isso pedimos isso na mídia também”, exemplificou a artista. A personagem é moradora de uma comunidade e e tem dois adolescentes, o que torna difícil a vida como mãe.

Do mesmo jeito que sua personagem tenta driblar diariamente o racismo, Maria Gal vive esta luta em sua realidade. Desde muito criança, sempre foi ligada às artes, fazia ballet e logo ingressou nas aulas de teatro. “Eu comecei a fazer teatro em Salvador, no Teatro Vila Velha e Bando de Teatro Olodum, que foram essenciais para me fazer entrar de verdade nessa carreira. O que me motivou a ser atriz foi a possibilidade de interpretar diferentes personagens. E eu tenho muitas inspirações, principalmente internacionais, como os grandes atores e criadores negros dos EUA: Viola Daves, Denzel Washington, Lee Daniels, Spike Lee, Will Smith e Shonda Rhimes”, comentou a artista.

Maria Gal já participou de grandes produções e hoje interpreta Gleyse, na novela “As aventuras de Poliana” Foto: Pino Gomes)

Como qualquer pessoa negra, enfrentou o racismo diretamente muitas vezes. Na dança, era uma das únicas alunas negras e foi assim em muitos espaços quando cresceu.“Algo que me marcou muito foi o teste que eu fiz para um filme grande. O diretor, que era negro, escolheu outra atriz para ser protagonista e depois eu soube que ele não me escolheu porque meu rosto não era comercial. Eu tive a certeza naquele momento de que eu precisava fazer algo”, contou Maria. E o cenário é realidade, tanto para quem produz audiovisual quanto para quem atua nessas produções: dos 142 filmes brasileiros lançados em 2016, apenas 28 foram dirigidos por mulheres e, infelizmente, nenhuma delas era negra, segundo os dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Neste contexto nasce a Maria Produtora. “Eu vi que eu precisava ajudar a aumentar o campo do audiovisual para representatividade negra e a conscientização sobre nossos direitos e a história do país. Então nasceu a produtora que tem o foco principal em produzir narrativas de entretenimento com temática que se alinhem ao empoderamento negro e feminino. Atualmente, estamos no momento de captação de recursos e negociação para produzir a série ‘Os Souzas’ e o filme ‘Carolina’, encontramos um campo bem restrito e fechado que é o audiovisual e lutamos muito para continuar”, disse.

O que Maria e tantos outros ativistas pelo país querem é trazer a recuperação de uma memória e o empoderamento da população que resiste e que ainda reina como uma democracia racial, diretamente ligada à mídia. Adélia Sampaio foi a primeira cineasta negra do Brasil a dirigir um longa-metragem e produziu, em 1981, o primeiro filme lésbico da América Latina, “Amor Maldito”, fato pouco conhecido e constantemente apagado da história do audiovisual. “É cansativo falar disso o tempo todo, mas o racismo não nos deixa esquecer que ele existe. Desde que eu abro os olhos pela manhã, não tenho como não estar inserida nisso e falar disso. Eu acredito sim que as palavras que digo afetam e inspiram muita gente e tem muita gente importante que faz o mesmo, inclusive no cinema e na televisão”, refletiu a artista. Vivendo o racismo diariamente, Maria acredita na importância de incluir pessoas negras com as ações afirmativas. “Muita gente critica as cotas, mas já se comprovou que elas são efetivas para inserção nas universidades, nos ambientes de trabalho em todos os nichos e na comunicação também. Eu acredito que ainda existe dívida histórica, principalmente porque os negros foram tomados de suas casas e levados à força para trabalhar no Brasil e não tiveram chance de serem reinseridos no mercado de trabalho e na sociedade. Nós sofremos isso até hoje e fica claro quando pensamos no filme em que fui rejeitada. Eu creio nas cotas para atores, diretores, roteiristas, estudantes. É uma obrigação social”, complementou.

Criando novas formas de fazer dramaturgia e representar as heterogêneas narrativas do negro, ela atuou em diversos espetáculos de teatro, como: “Cabaré da Raça”, “Ensaio sobre Carolina”, “O Cravo e a Rosa”, “Anjo Negro + A Missão” e “Os Sertões”, estes dois últimos apresentados no Teatro Volsksbhuene, na Alemanha. No cinema, Gal atuou nas obras “Dona Flor e seus Dois Maridos”, “Carandiru”, “Amor em 4 Atos”, “DOR”, curta que lhe rendeu prêmio de melhor atriz, e “A Carga”, pelo qual obteve indicação de melhor atriz. Na Netflix, a atriz participou da série “3%”, dirigida por César Charlone e exibida em 192 países como a primeira obra brasileira produzida pelo serviço de streaming. Na televisão, ela atuou nas novelas da Rede Globo “Gabriela” e “Joia Rara”, além de “Carrossel”, no SBT, e nas séries “Sob Pressão”, da TV Globo, e “Conselho Tutelar”, da Record.

A atriz Maria Gal é ativista pela representatividade negra no audiovisual (Foto: Pino Gomes)

Além de atuar, a artista também ama escrever e lançou o livro infantil “A Bailarina e a Bolha de Sabão”. A história é sobre o bullying vivido pela pequena Maria nas aulas de ballet e, tentando se livrar do problema, inventa uma fórmula para se tornar mais parecida com os seus colegas. Iniciativas como essa fazem parte do trabalho que Maria considera ser o começo da mudança. “Nós temos que começar com a base, o princípio do combate ao racismo começa em trazer essas pessoas para frente, para as narrativas, para trocar ideias, colocar esses rostos na publicidade, que ainda é um campo muito embranquecido. Conversar, perguntar, provocar questionamentos. Nós podemos fazer essa mudança”, contou a atriz.

Maria Gal tem grandes nomes como inspiração: Viola Davis e Shonda Rhimes, por exemplo (Foto: Pino Gomes)

Sobre o futuro, Maria Gal tem receios. “Diante de tudo já aconteceu antes do presidente eleito assumir, pessoas serem assassinadas, agredidas, ofendidas e humilhadas por não concordarem, eu creio que vamos enfrentar um momento extremamente complicado e difícil. Mas eu continuo lutando por espaço, assim como muitos artistas negros, ativistas e defensores da nossa causa”, revelou. A ativista ainda propôs um desafio aos veículos midiáticos, jornalísticos e audiovisuais do país. “Eu quero que vocês reflitam se estão ajudando a nossa luta e se estão colaborando ao mostrarem narrativas incríveis do nosso povo, pessoas que dançam, cantam, produzem, dirigem e escrevem de forma representativa. É convite a todos os comunicadores que procurem e noticiem essas histórias”, completou.

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