“Só me arrependo do tempo que gastei me importando demais com a opinião dos outros”, diz Vannessa Gerbelli


A atriz, no ar simultaneamente na série “A Divisão”, no Multishow, e em “Mulheres Apaixonadas”, no canal Viva, fala da repercussão do trabalho memorável no folhetim de Manoel Carlos, e avalia o percurso de quase 30 anos na carreira: “Acho que o que caracterizou esses anos foi a diversificação. Fiz muitas personagens diferentes e isso me trouxe desafios, mas também muito prazer e crescimento. Olhando para trás na minha vida, posso dizer também que tenho orgulho da minha relação com meu filho, e da minha busca em me tornar um ser humano melhor e mais íntegro. Sempre fui excessivamente preocupada em ser muito correta e eficiente e em me superar. Hoje em dia, eu me trato com mais gentileza”

*Por Brunna Condini

Em plena pandemia, Vannessa Gerbelli tem tido a oportunidade de revisitar algumas versões suas em papeis bem diferentes e memoráveis: na pele da ex garota de programa Fernanda, na reprise de “Mulheres Apaixonadas” no canal Viva; e também como Raquel, esposa de um deputado, na série “A Divisão”, que estreou no Multishow nesta segunda-feira. “Revejo o que fiz quando posso e é muito interessante. A pandemia nos trouxe uma proposta de reflexão, de autoanálise. Rever os trabalhos está sendo um pouco assim para mim e tem colaborado no processo”, diz Vannessa, que até bem pouco tempo também podia ser vista nas reprises de “Novo Mundo”, na Globo, e ainda em “Jesus”, na Record.

“Revejo o que fiz quando posso e é muito interessante. A pandemia nos trouxe uma proposta de reflexão, de autoanálise”(Foto: Guga Melgar)

Em “A Divisão”, a atriz está ao lado dos atores Silvio Guindane, Marcos Palmeira, Erom Cordeiro, Dalton Vigh, Natalia Lage e Cinnara Leal, fazendo parte de uma trama conduzida no Rio de Janeiro do final da década de 1990, em uma cidade acuada pelos constantes sequestros e a violência. “Raquel, minha personagem, é a esposa de um deputado que está se candidatando a vereador. O casamento vai mal e eles se mantém juntos para não estragar a candidatura dele. É uma mulher que está deslocada, não concorda com nada do que vê neste ambiente da política e se sente presa naquela situação. A personagem tem uma trajetória surpreendente, vale esperar para ver. A filha dela é sequestrada e torturada na história. As cenas são bastante reais e acho que o desafio é a gente se entregar a esses sentimentos de horror e medo”, detalha sobre a produção criada por José Júnior e José Luiz Magalhães, que tem a história da Delegacia Antisequestro como pano de fundo.

Vannessa Gerbelli e Danton Vigh em cena de “A Divisão” (Divulgação)

Ganhos e perdas

Do universo cru e violento da série, inspirada em fatos reais, para o Leblon do início dos anos 2000, em “Mulheres Apaixonadas” (2003), ela celebra a reexibição do folhetim com a personagem que foi um divisor de águas em sua carreira. Na pele de Fernanda e protagonizando uma das cenas mais memoráveis da teledramaturgia brasileira, ao lado de Tony Ramos, que vivia o músico Teo, e de Salete, filha dos dois, vivida por Bruna Marquezine ainda uma criança começando a carreira, Vannessa relembra a famosa cena do tiroteio no Leblon, em que sua personagem é atingida por uma bala perdida e acaba morrendo. Que lembranças têm disso tudo? “Foi algo muito inesperado para mim. A personagem morreria em um mês de novela e foi continuando e continuando…de uma maneira que eu jamais imaginaria. Eu me lembro de ter sido uma comoção nacional e eu ainda era uma “ novata”, apesar de ter feito “O Cravo e a Rosa”(2000) e “Desejos de Mulher”(2002) nos anos anteriores. Eu nunca havia participado de um trabalho que tivesse aquele alcance e que engajasse tanto as pessoas. Choravam ao me ver na rua, me abraçavam. A comoção foi muito intensa e eu pude perceber o quanto a novela tocava e era importante para aquele público. Minhas lembranças são ótimas. Tony Ramos, uma pessoa espetacular, a Bruna, um encanto. A direção maravilhosa e o texto do Manoel Carlos, que adoro. Ganhei prêmio, foi ótimo. Só guardo boas lembranças”, recorda.

Em “Mulheres Apaixonadas”: “Nunca havia participado de um trabalho que tivesse aquele alcance e que engajasse tanto as pessoas. Choravam ao me ver na rua, me abraçavam” (Divulgação/Globo)

Aos 47 anos e com 27 de carreira, ela que começou a trajetória profissional no teatro, viveu muitos momentos para ficar na memória. “Acho que o que caracterizou esses anos foi a diversificação. Fiz muitas personagens diferentes e isso me trouxe desafios, mas também muito prazer e crescimento”, analisa. “Olhando para trás na minha vida, posso dizer também que tenho orgulho da minha relação com meu filho (Tito Coimbra, de 13 anos), e da minha busca em me tornar um ser humano melhor e mais íntegro”.

Tem arrependimentos? “Acho que meu arrependimento maior foi o tempo que gastei me importando demais com a opinião dos outros. Sempre fui excessivamente preocupada em ser muito correta e eficiente e em me superar. Hoje em dia, eu me trato com mais gentileza”.

“Acho que meu arrependimento maior foi o tempo que gastei me importando demais com a opinião dos outros” (Foto: Guga Melgar)

Vannessa tem passado os últimos meses recolhida ao lado do filho Tito por conta da pandemia do novo coronavírus. E aproveita a entrevista para falar dos desafios do momento. “Tenho passado os dias na minha casa com minha mãe e meu filho. Às vezes, vou a Itatiba, interior de São Paulo, na casa dos meus pais, por conta das minhas lembranças da infância e adolescência…e o lugar é lindo. Mas neste momento, mais do que nunca, procuro conversar de tudo com meu filho. Ele é muito bom de conversa. Acho que os adolescentes estão sofrendo um pouco mais que os mais novos neste período. Estão mais ansiosos e tendem a acentuar a introspecção da adolescência. Tento me manter atenta e disponível, ajudando no que posso, até voltei a estudar matemática com ele pra ser solidária!”, conta, aos risos. “Na verdade, acho que o momento é desafiador para todos, para a humanidade inteira. Muita gente sem poder trabalhar, eu inclusive. Coisas insanas acontecendo no cenário político, social, no Brasil e fora. Parece que estamos em um liquidificador! O desafio é manter o equilíbrio no caos e fazer a limonada com os limões”.

A atriz Vannessa Gerbelli e o filho Tito Coimbra (Acervo)

O cenário da pandemia e todas as dificuldades geradas em consequência disso, pegaram a artista em um momento de recuperação, após uma sucessão de perdas.Em 2018, Vannessa perdeu o irmão Gian Gerbelli em um acidente de moto, e em seguida,  em 2019, o pai, Romeu Gerbelli, vítima de leucemia. Você faria a doação da medula óssea para ele, o que aconteceu? “Foi um período bem difícil! Duas pessoas fundamentais na sua vida se despedindo, sendo uma delas de maneira trágica. A doação da medula era uma possibilidade que, infelizmente, não se concretizou porque meu pai não conseguiu manter as células cancerígenas zeradas a tempo de preparar todo o processo. O que este período me proporcionou foi um mergulho intenso na espiritualidade, na oração, no silêncio. Levo isso para a vida toda. Acredito que estamos aqui com um propósito evolutivo e perceber a vida desta forma me traz boas respostas, mais leveza e menos vitimização”. Se engajou ou pretende se engajar em campanhas de doação de medula?“Me engajaria, sim. Hoje, os tratamentos para leucemia estão avançados, é algo que realmente pode salvar mais e mais vidas”.

Vannessa tem estado mais atenta à sua saúde e bem-estar, e anseia por uma vida como a que leva agora, menos atribulada, mas que se mantenha pós pandemia. Mas também, aguarda o momento da volta ao trabalho com alegria, e anuncia, que em outubro, planeja colocar em cartaz seu primeiro monólogo, “Sombras no final da escadaria”, de Luiz Carlos Góes, com direção de Amir Haddad: “É uma comédia sobre uma atriz que faz um show independente, apaixonada pelo teatro, mas é completamente equivocada. É abusada por tudo e todos. Patética, mas apaixonante. Faremos sessões nas terças-feiras de outubro, no Teatro Petra Gold”.