Samuel Melo, o Beleza de ‘Chocolate com Pimenta’: ator mirim tentou carreira no futebol e hoje retorna às telas


O ator, que estreou na televisão aos 7 anos, está na reprise de “Chocolate com Pimenta”, seu último trabalho na televisão. A trama de Walcyr Carrasco, em sua quinta exibição, vem obtendo bons resultados de audiência na faixa de “Edições Especiais”, na Globo. Após esta novela, Samuel pausou a carreira a fim de tentar ser jogador de futebol, incluindo passagem pelo Botafogo. Agora, aos 32 anos, está na série biográfica de Anderson Silva, “Spider”, da Paramount; em “O jogo que mudou a história”, da Globoplay. Cria da comunidade do Vidigal, ele afirma: “Não vou sair nunca daqui”

*Por Vítor Antunes

Guerras de bolo, tortas na cara, banhos de tinta verde e um humor ingênuo. A soma desses ingredientes, sem trocadilho, vem garantindo o sucesso de “Chocolate com Pimenta”, que conquista o Brasil pela quinta vez. A audiência média da novela manteve aquela alcançada por sua antecessora, “O Cravo e a Rosa”, e isolou a Globo na liderança no horário, com o dobro da audiência da concorrente. No elenco infantil da trama, Samuel Melo, que engatava sua quinta novela. Ainda que tenha tido sucesso e feito vários trabalhos subsequentes, o ator optou por dar uma pausa em sua carreira após o folhetim e lançar-se ao futebol profissional, do qual saíra em 2017, ao reencontrar-se com as artes. Na novela “Topíssima”, na Record. Após realizar o especial “Falas Negras”, na Globo, os trabalhos passaram a se avolumar e hoje o artista está em “Maldivas”, na Netflix, além de haver gravado “O jogo que mudou a história”, da Globoplay, e “Spider”, da Paramount.

Samuel Melo: Ator é cria do Vidigal e profundamente linkado com suas origens (Foto: Leandro Lima)

CHOCOLATE COM PIMENTA

Exibida em 2003, “Chocolate com Pimenta” é uma das novelas tidas como clássicas pela historiografia da TV brasileira. As expressões dos personagens, como “Sou chique, bem”, “Eu sou muito eficiente”, ou “pata choca”, compõem ainda hoje o vocabulário do noveleiro mais aficionado. De igual forma, um núcleo de muito sucesso na trama, o do Hotel, trazia dois meninos espertos e travessos que roubaram a cena: Era Jóia, vivido por Luiz Antônio Nascimento, e Beleza, interpretado por Samuel Melo. Na ocasião, com 13 anos, Melo já era um ator experiente pois havia trabalhado em “Agora é que são elas”, “A Padroeira” e “Laços de Família”. Sua estreia, contudo, foi em “Força de Um Desejo”, em 1999 – que também estará de volta, no Canal Viva, no dia 24 de outubro.

Samuel Melo em “Força de Um Desejo”, seu primeiro trabalho em TV (Foto: Reprodução/TV Globo)

Desde muito cedo na televisão, interessamo-nos em saber qual era a perspectiva do então menino já trabalhando desde muito jovem na TV: “Eu estava muito feliz e ajudando minha família. Tinha a visão de que era um menino novo, que  estava trabalhando e ajudando a minha família. Recentemente, minha mãe comentou algo que me emocionou muito quando disse que eu era uma ‘fonte’ para a nossa família”, disse.

Outro ponto que vem sendo discutido com muita recorrência na teledramaturgia é o lugar do ator negro nas novelas. A representação de crianças pobres e/ou desamparadas, ou ainda em espaços de subserviência, bem como não terem história ou núcleo próprio tem sido questionada pelo movimento negro. E é justamente sob este contexto que estão situados os personagens de Luís Antônio Nascimento e Samuel Melo. Perguntamos ao ator se naquela época ele problematizava a questão em que estava inserido o personagem, justamente nesta questão de desamparo. Segundo ele, sua preocupação estava mais em “pensar na composição do personagem. Na época, eu não tinha essa visão. Depois de ler bastante, de ouvir os amigos e ter algum letramento racial, a gente percebe que o contexto familiar do personagem era problemático, já que os dois não tinham uma família completa e estavam sempre pedindo gorjeta, ou dinheiro, em situação de desamparo. Hoje, é claro, a gente observa isso”.

Beleza (Samuel Melo) e Joia (Luis Antônio Nascimento) eram parte do elenco infantil de “Chocolate com Pimenta” (Foto: Reprodução/TV Globo)

Outra memória que destaca é a de que ele e Luís Antônio tinham uma cumplicidade. “Tínhamos a ideia, ainda que meio inconsciente, de nos proteger, de estar junto, nossas famílias se encontravam, e, de certo modo, ainda que não estudássemos isso, ou que tivéssemos a essência da militância, a gente já tinha o senso de autocuidado. Parece que nós, negros, já trazemos isso no DNA, de nos autoproteger. Quando éramos crianças não havia essa questão de letramento racial, mas já percebia algo e se irmanava. Nunca tivemos nenhum problema, fomos sempre bem tratados, os personagens foram bem aceitos e eram carismáticos. A gente tem até hoje um carinho grande um pelo outro”, relembra.

Foi uma época muito gostosa do meu trabalho. Eu sinto muito orgulho da minha carreira desde a infância até o dia de hoje. A gente vive uma batalha diária, mas desde novinho eu pude trabalhar e com o meu trabalho ajudar a minha família, sendo mais um corpo financeiro podendo dar uma melhor condição – Samuel Melo

De 1999 pra cá muita coisa mudou no que tange ao espaço ocupado por negros na TV: “Quando há uma novela de época, invariavelmente veremos negros fazendo papel de escravo. Logo depois desta novela, eu fiz “Laços de Família”, uma trama contemporânea, que falava sobre a classe A do Leblon e só havia três negros em cena e eu era o único ator mirim negro. Praticamente tínhamos que lutar com os nossos colegas para conseguir um papel”. Ainda que os negros sejam poucos em cena, “Laços” tinha a peculiaridade de trazê-los em um papel às expensas daqueles os quais eles costumam fazer. O personagem do ator, Tide, morava no Leblon, era filho de um médico, Laerte (Luciano Quirino) e uma modelo, Nair (Nívia Helen).

Samuel Melo e Carla Díaz nos bastidores de “Laços de Família” (Foto: Arquivo Pessoal/Instagram)

CHÃO DE ESTRELAS

Samuel é cria do Vidigal, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. Depois da pacificação da comunidade que há em seu perímetro, ocorrida em 2011, o bairro passou por um processo de gentrificação e, com isso, sua população ganhou outros contornos, bem como a própria vivência comunitária mudou. Além disto, os projetos culturais existentes no local projetaram-no como um celeiro de artistas – como Thiago Martins, Juan Paiva e Roberta Rodrigues. Um chão fértil de estrelas.

Quando refere-se ao bairro, Melo destaca o privilégio que ele dispõe, quando comparado a outros bairros e/ou comunidades: “Eu sou cria do Vidigal, nasci e me criei aqui e dificilmente sairei daqui. Temos muito afeto e ciúme do lugar. A gente viu toda a transformação do lugar, a gentrificação oriunda da pacificação, os prédios que sobem e a estrutura da comunidade mudando. Uma mudança que percebi é a de que as casas não tinham muitas janelas antigamente. Hoje, depois que passaram a valorizar a vista da cidade que parte da favela, as casas passaram a ter janelões”.

Dispomos de algumas melhorias que não estão presentes em outros lugares, como em problemáticas relações de saneamento básico e infraestrutura – Samuel Melo

O rapaz prossegue em sua observação trazendo uma vivência que tivera na Favela do Dique, comunidade existente na divisa entre São João de Meriti e Caxias. Neste local, gravou a série “O jogo que mudou a História”, cuja estreia se aproxima, no Globoplay: “A casa do meu personagem, Gegê, era uma moradia real. Após entrar numa ruazinha, de terra batida, tive acesso à casa. Era uma residência de madeira, ao lado da Linha Vermelha, cujo chão era o mesmo da rua. O teto era baixo e esburacado e a luz do sol vazava pelo telhado. Aquilo me trouxe uma angústia, uma tristeza que me tocou. Me impressionou haver alguém viva situações assim. Quando eu estava me emocionando, a dona da casa chegou e apresentou-me o local. Ela morava sozinha ali. Num determinado momento fui procurar o banheiro e não encontrei. Tanto que a produção teve de providenciar um para que pudéssemos gravar uma cena. Aquilo me destruiu (Samuel emociona-se). Fiquei muito tocado”.

Ao gravar na casa de uma senhora, na Favela do Dique, quis preservar tudo do jeito dela, com muito respeito, já que aquele era o seu espaço. Ainda que eu não julgue, não consigo entender quem não se toca com uma realidade como esta e veem isto com normalidade” – Samuel Melo

Samuel Melo é Gegê em “O Jogo que mudou a história” (Foto: Reprodução/Instagram)

A dilacerante cena descrita de alguma forma se assemelha à antiga música “Chão de Estrelas”, de 1937, onde um telhado de “zinco salpicava de estrelas o chão”. Oitenta e cinco anos depois, a questão da moradia ainda é um problema no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro. Um amplo levantamento divulgado em março de 2022 e tomando 2020 por base pelo Instituto Trata Brasil, que trata sobre indicadores de saneamento nas 100 maiores cidades brasileiras, indica que os municípios de Belford Roxo, São João de Meriti, Duque de Caxias, São Gonçalo e Nova Iguaçu estão persistentemente entre os piores índices entre os anos de 2013 a 2020. Além deste dado, outro, divulgado em 2021 pelo CAU-RJ (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro) diz que “o Rio, tem hoje um déficit habitacional de quase 500 mil moradias”. Muita gente sem casa. Muita casa sem gente. E muita urgência de dignidade.

Voltando à série gravada no Dique, e que estreará pelo player da Globo, ela contará o início das facções criminosas no Rio de Janeiro. E seu personagem sonha e ser jogador de futebol. Sonho do qual seu intérprete também compartilhou: “Tive experiências muito legais como jogador. Mas este universo, tal como o artístico, é muito difícil. O do futebol ainda me pareceu mais complicado já que eu não tinha empresário e muito além da minha fé e determinação”. Samuel chegou a jogar no Sendas Clube (atual Audax), no Bangu e, por um tempo curto, no Botafogo, seu time do coração. Nesta época, ouvia falar muito do Cafu como referência, já que o jogador foi insistentemente rejeitado em sua carreira até conseguir um lugar no futebol. No retorno de Samuel à arte, encontrou-o, nas gravações desta série.

Além deste trabalho, o ator gravou recentemente uma outra série que também dialoga com os esportes. Trata-se de “Spider”, uma série biográfica de Anderson Silva. Nesta, Melo vive Elson, o irmão do protagonista, interpretado por Willian Nascimento. No projeto da Paramount, uma celebração: elenco e técnica majoritariamente pretos, a contrário do que havia em “Laços de Família”, novela que só tinha três atores pretos: “Agora estou conseguindo trabalhar em produções onde a maioria é preta e tenho os meus colegas num mesmo espaço. Isso é muito positivo. Estar com os nossos traz em si uma atmosfera diferente. Fomos muito amparados pela Paramount, que cuidou de tudo, colocou uma psicóloga à nossa disposição, observando qualquer desconforto que a gente pudesse passar, mas não tivemos problema nenhum e foi prazeroso à beça”, ressaltou.

Samuel Melo. A realidade das favelas difere em seu interior (Foto: Leandro Lima)

Samuel Melo. Ator sensibilizou-se com a vulnerabilidade social a qual fora exposto ao gravar a série da Globoplay (Foto: Leandro Lima)

 

REFERÊNCIAS E FÉ

O trabalho que marcou o reencontro de Samuel Melo à Globo foi o especial “Falas Negras”, exibido em 2020. Neste, o ator viveu o ativista negro Malcolm X (1925-1965): “Eu estou tremendo até hoje. Não sei mensurar, com toda a sinceridade, a grandeza e privilégio de fazer este personagem, que é a representação de um dos maiores nomes do ativismo negro. Fui escolhido pelo Lázaro Ramos e a Tatiana Tibúrcio para interpretá-lo. Foi muito importante, deu um salto na minha carreira. Ainda que eu tenha trabalhado desde pequeno, tive de recomeçar e muita coisa mudou nesse meio tempo.

Outro trabalho que marca o retorno do ator à arte é o filme “Um dia Qualquer”, no qual vivera um pastor evangélico. A religião protestante dialoga com o próprio ator, que também tinha uma grande vivência com a religião: “Foi como voltar aos meus 26 anos, quando quase fui obreiro da igreja e cheguei perto de tornar-me pastor. As referências que busquei faziam parte do universo evangélico que convivi por toda a minha vida”.

Samuel Melo foi Malcolm X em “Falas Negras”, da Globo (Foto: Victor Pollack/TV Globo)

“É sobre isso. O mundo gira e as coisas acontecem”, disse-nos Samuel num dado momento da entrevista, que chegou a ser interrompida por crianças do Vidigal: “As crianças aqui têm uma relação muito próxima a mim. Parece que veem em mim uma figura paterna e uma referência”. Já próximo do fim do bate papo, perguntamos se haveria algum momento em que não falaríamos de racismo ou de questões afirmativas. Samuel disse que esse é “seu sonho, mas realmente estamos longe disso. A gente vive o racismo o tempo todo e é inevitável abrirmos a boca o assunto não surgir. A gente caminha para esse mundo ideal, estamos no caminho, mas ainda falta muito”. Como diria Malcolm X, “o futuro pertence àqueles que se preparam hoje para ele”. Então, estamos a caminho do futuro.