Rede TV! completa 24 anos com pouca audiência e repercussão e grade que margeia o traço no Ibope


A Rede TV! está há 24 anos no ar. Há anos, a sua média-dia raramente ultrapassa 1 ponto. Por diversas vezes empata com Record News e TV Aparecida. Muito pouco para uma emissora que chegou a disputar audiência com a Globo e que revelou Adriane Galisteu como apresentadora, assim como Fernanda Lima e ainda teve a rainha da TV brasileira, Hebe Camargo. Ou ainda, por ser a primeira a produzir inteiramente em TV digital e em 3D. Cercada de polêmicas, a história da emissora consta da exibição da nudez de uma modelo ao vivo, processos movidos por artistas e jornalistas e apoio deliberado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que chegou a margear com propaganda em vez de Jornalismo

*por Vítor Antunes

Lançada com pompa e circunstância para substituir a Rede Manchete, que havia falido ainda naquele 1999, a Rede TV! no formato que conhecemos hoje, estreou no dia 15 de novembro daquele ano. E vinha recheada de possibilidades. Estimava investir “em dramaturgia e no bom gosto” quando surgiu. Alguns profissionais vieram “herdados” da extinta emissora, como os jornalistas Cláudia Barthel e Augusto Xavier. Além deles estrearam junto com a TV, Andrea Sorvetão com uma série infantojuvenil, e Valéria Monteiro com o “A Casa é Sua” – atração que, de alguma forma se assemelhava ao atual “É de Casa“, da Globo. Outro que chegou à primeira hora da emissora foi João Kleber. Além dos nomes citados, Marília Gabriela chegou a ter um programa na casa. João Dória, Hebe Camargo (1929-2012) e Amaury Júnior também.  Porém, 24 anos depois, a emissora flerta com a irrelevância na audiência, e não raras vezes assinala 0 pontos. Em sua trajetória, mergulhou fundo no baixo nível de programação, como o “Pânico na TV” , além do “Você na TV“, e suas variações apresentadas por João Kleber.

Atualmente, ainda que se considere a queda do consumo de audiência da TV aberta, a emissora tem uma média-dia difícil. No dia 29 de outubro, por exemplo, foi de 0,3 pontos, índice igual ao dia 12 de outubro. Importante ressaltar que no dia 29 a emissora empatou com a Record News e ficou atrás da TV Cultura. No dia 12, empatou com a TV Aparecida, num dia de programação especializada em homenagem à Nossa Senhora Aparecida na emissora católica. Somando com a porcentagem dos canais pagos e com o empate entre SBT e Record, a Rede TV! está no sexto lugar entre as emissoras de TV aberta no Brasil.

Nos últimos anos, a Rede TV! ganhou foco especialmente quando foi alvo das piadas de Tatá Werneck. Mas o posicionamento favorável à emissora é advindo de um dos donos da casa, Marcelo de Carvalho, e da apresentadora Daniela Albuquerque – casada com o outro dono da TV, Amílcare Dallevo. Não chama atenção por sua programação ou por seus artistas. A maior audiência da casa costuma ser “A Tarde é Sua“, apresentado por Sonia Abrão. Os outros shows não costumam passar do 1 ponto de audiência. Um dos últimos lançamentos do canal, o programa “UltraShow”, apresentado por Geraldo Luiz assinalou 0,5 ponto no dia 14 de novembro. Comparativamente, no mesmo horário, a Globo marcou 15,4 pontos, enquanto exibia “Todas as Flores“. Trinta e uma vezes mais a audiência da Rede TV!. Uma fase delicada para uma emissora que revelou Adriane Galisteu e Fernanda Lima como apresentadoras, que chegou a ter Rubens Ewald Filho (1945-2019) em seus quadros e que disputou audiência com a Globo na época áurea do “Pânico na TV“.

Rede TV na contagem regressiva para a sua estreia, em 15/11/99 (Foto: Reprodução/RedeTV)

A REDE DE TV QUE MAIS CRESCE NO BRASIL?

Oi, eu sou a Fernanda e o Interligado esta começando” foi assim que Fernanda Lima surgiu no cenário nacional, conduzindo o “Interligado”, programa de clipes com uma atmosfera MTV. A modelo estava em um campo oposto ao de Adriane Galisteu, que já era famosa, porém nunca havia recebido a chance de ter um programa seu, com a sua cara. Em meados dos anos 1990, após ser revelada como modelo e como namorada de Ayrton Senna (1960-1994), Galisteu apresentou um programa trash, de striptease, na CNT, o “Ponto G Puro Êxtase“. Na Rede TV! que estava nascendo, era a vez de Adriane brilhar. A emissora também  nasce cercada de expectativa, pois substutuía a Rede Manchete. O projeto inicial era arrojado: Um programa de Arte, o TV Arte, um programa infanto-juvenil, o “Galera da TV” apresentado por Andrea Sorvetão, uma equipe potente de jornalistas, inclusive com o já experiente Julio Mosquera, hoje na Globo. Há também o direito de transmissão da Copa da UEFA. Uma televisão promissora.

Fernanda Lima em sua estreia na Rede TV, em 1999 (Foto: Reprodução/RedeTV)

Muito diferente porém, do que a TV foi se revelando durante o tempo, quando a programação sofisticada deu vez a polêmica. De uma intervenção num sequestro delicado à exibição ao vivo do ânus de Ju Isen pintado de verde, a Rede TV! decaiu rapidamente. Mesmo programas que faziam audiência, como o “Pânico na TV” acabaram por riscar a imagem do canal, sua credibilidade, trazer alguns processos e problemas. Ainda hoje, mesmo anos após o “Pânico” haver deixado a casa – e de ser transmitido em TV aberta, não são poucos os nomes de artistas que não podem sequer ser citados naquela emissora, por decisão judicial. Alguns exemplos são Carolina Dieckmann, Preta Gil, Xororó, Zezé di Camargo e Luciano, Sasha e Xuxa Meneghel. Nos últimos quatro anos tornou-se ainda mais polêmica pela adesão inconteste da emissora ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Por várias vezes, o político esteve tanto no palco naquele canal, que a página “Jornalistas Livres” chegou a publicar manchete: “Rede TV! deixa Bolsonaro fazer pronunciamento em vez de sabatina”.

Em face da programação, a emissora chegou a sair do ar em São Paulo e teve de exibir uma programação educativa no lugar. Em 2005, a juíza federal Rosana Ferri Vidor, da 2ª Vara Cível de São Paulo, cessou a transmissão da Rede TV! e determinou a suspensão por 60 dias do programa “Tarde Quente“, apresentado por João Kleber. De acordo com o MPF e ONGs, a atração apresentava pegadinhas com ofensas a homossexuais, afrodescendentes, indígenas, mulheres, idosos, crianças e adolescentes e pessoas com deficiência”.

Quando surgiu, a Rede TV disse que investiria na produção de teledramaturgia, mas os produtos nesse segmento produzidos pela própria emissora restringiram-se ao ícone trash “Miguelito” – uma “cópia” do Chaves – e às séries “Vila Maluca” e “Galera da TV“. O mais importante projeto na dramaturgia foi a versão brasileira de “Donas de Casa Desesperadas“, uma co-produção com a  Disney que contou com um elenco estelar: Sonia Braga, Lucélia Santos, Tereza Seiblitz, Viétia Zangrandi e Franciely Freduzeski. A produção, porém, optou por ter atores brasileiros interagindo com argentinos dublados em português o que causou grande estranheza no público.

Em entrevista ao Site HT em outubro de 2022, Lucélia Santos considerou esta a sua experiência mais desafortunada em TV: “Apesar de ser uma produção muito competente do ponto de vista profissional e técnico, pois que era toda feita por profissionais argentinos de excelência, eu considero aquilo uma coisa esquisita, porque era um padrão internacional da Disney que era repetido desde as marcas no chão, rigorosamente executadas em todas as versões. Ou seja era o padrão de “Donas de Casa Desesperadas” que toda América Latina comprou da Disney. Então, se algum país latino fizesse o formato, a gente tinha que seguir rigorosamente as marcas cênicas, as mesmas roupas que os outros atores tinham usado e era necessário caber no meu corpo ou então eles davam lá um jeito e tudo ficava realmente idêntico. Então, isso tirava, a meu ver, qualquer possibilidade criativa de interpretação”. Quando foi funcionária da casa, Hebe Camargo queixava-se dos atrasos no pagamento:

Sílvio Santos é um patrão que respeita os seus empregados. Jamais atrasou o pagamento de nenhum deles. Jamais, nenhum dia, nunca atrasou. É um grande empresário que respeita seus funcionários – Hebe Camargo

 

O elenco estelar de “Donas de Casa Desesperadas”, exibida em 2007 (Foto: Divulgação/Rede TV!)

No que diz respeito aos sucessos e bons resultados, há algo sempre muito focal. A Rede TV! foi a primeira a ter todo o seu arquivo digitalizado e a gerar toda a sua progamação em HD, em 2009, e em 2010, a pioneira no mundo e única no Brasil a colocar sua programação em 3D. Na época, Keila Jimenez, do Estadão, disse que “a Rede TV! fará a primeira transmissão ao vivo em 3D da TV aberta no mundo. O curioso é que a novidade, que será estendida para toda a programação da emissora, ainda não tem público, e se tem, vai um pouco além dos 400 convidados da festa de lançamento do feito (…).  Para a RedeTV!, não importa quem irá ver, e sim sair na frente de todos, incluindo a Globo”. Como a televisão em 3D foi um total equívoco, a emissora padeceu por haver investido suas fichas nesse fracasso e desativou esse recurso em 2015, por baixa adesão. Outro sucesso foi a novela “Betty a Feia“, que chegou a permitir à emissora estar com o segundo lugar de audiência. Hoje é uma das emissoras de TV com mais seguidores no YouTube, com 13 milhões de adeptos. Muito mais que a Globo, que tem cerca de 5 milhões.

 

Adriane Galisteu na estreia do Superpop.Um dos poucos programas que permanece na grade desde a estreia, assim como o TV Fama (Foto: Reprodução/RedeTV!)

Numa época em que a TV aberta não tem mais tanta audiência, e já com 24 anos, a Rede TV! precisa mostrar sinais de que irá se recuperar em repercussão e relevância. O aplicativo de streaming da TV é problemático e pouco acessado pelo público, com pouco mais de 50 mil downloads. Muito distante do seu maior rival, o Globoplay, que tem 50 milhões. A Rede TV! precisa reformular sua programação para voltar a divulgar seu slogan: “A Rede de TV que mais cresce no Brasil”.