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Rafael Primot vive vilão na série “Aruanas” e divide impressões e aprendizados sobre relacionamentos abusivos

O ator vive a história de Ramiro, um homem violento e passional que faz parte de uma narrativa necessária levando o tema para a reflexão da sociedade

Publicado em 02/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

Ator fala sobre seu personagem e reflete a temática dos relacionamentos abusivos (Foto: Rubens Shiromaro)

*Por Domênica Soares

Rafael Primot está fazendo parte de mais um trabalho importante que marca a sua carreira. No ar, na série da Globoplay, “Aruanas”, o ator divide sua empolgação e aprendizado em fazer parte de uma produção audiovisual como essa. Gravada no coração da Floresta Amazônica, a trama trata de temáticas muito importantes, e a principal delas é a ambiental. “Acho que ‘Aruanas’ vem em um momento excelente. Apresenta uma temática muito pertinente a respeito da biodiversidade, da ecologia, da Amazônia, pautas muito importantes e caras de serem discutidas nesse momento em que o país atravessa uma devastação florestal em nome de uma política de crescimento econômico”. Além disso, ele frisa que a série aborda essas questões de uma forma bastante interessante pelo âmbito da ficção e que tudo se torna uma grande metáfora da atualidade do que estamos vivendo. 

Fora a questão ambiental, conversamos mais com Rafael sobre seu personagem, Ramiro, um homem que vive em um relacionamento abusivo com Clara, interpretada pela Thainá Duarte. O ator relata que na narrativa o vilão está inserido em um contexto de machismo, pelo fato do homem achar que tem propriedade sobre a mulher. Assim, começa a adquirir hábitos abusivos que são desenrolados ao longo do tempo na trama. O personagem tem atitudes agressivas que são impressas em cenas de violência. O ator comenta que apesar desses detalhes estarem restritos à atuação na trama, momentos como esse são sempre desgastantes tanto físico quanto psicológicos. “Gravar cenas de violência nunca são confortáveis. Apesar de ser ensaiado, de comum acordo, os atores estão lá para “um mergulho no personagem”, mas sempre tem a situação do físico, a agressão da pessoa que está interpretando o outro papel, então, eu sempre tenho muito cuidado com as minhas parceiras ou parceiros de cena. Nas brigas, eu sempre tento ser aquele cara que puxa todo mundo e diz: “calma, gente! Vamos ensaiar, vamos coreografar”, para que ninguém se machuque de verdade e que tudo funcione na hora. Eu acho que esse é o melhor resultado, pois precisamos fazer com que as cenas fiquem críveis, realistas para quem assiste, mas, ao mesmo tempo, ninguém pode se machucar. Então, é sempre muito desgastante, mas quando é bem feito o resultado fica incrível nós ficamos felizes, apesar de exaustos”, relata.  

Levando a temática de seu personagem para o mundo real, o ator descreve que trazer à tona temas como esse são de extrema importância para construir um pensamento crítico nas pessoas, sejam elas de qualquer idade. “Sempre que você aborda esses assuntos na televisão, na internet, na sala de jantar, você consegue instruir melhor quem está a sua volta, os seus filhos, que vão se tornar adultos, que vão ser namorados, maridos, pais e vão passar isso adiante”. Ele reflete também que um ponto que acha necessário e que falta no pensamento social é a empatia, palavra muito usada nos dias atuais e que tem um significado transformador em sua opinião. Para Rafael, a empatia era usada com uma conotação errada, sendo aproximada da palavra simpatia, mas que hoje já é percebida de outra forma. Baseando-se no fato de se colocar no lugar do outro e fazer uma análise não pela ótica própria, criação, nível social ou educacional, mas sim pela visão do próximo. “Esse exercício que nós atores fazemos sempre de ver os personagens, acho que seria fundamental para todo mundo tentar exercitar, acho que a empatia não deve ser apenas dita, e sim, praticada”.

Rafael Pimot vive seu primeiro vilão em “Aruanas” (Foto: Rubens Shiromaro)

O ator conta que mesmo seu personagem sendo desprezível, é capaz de aprender muito com ele, citando que a compreensão do machismo intrínseco e arraigado nos comportamentos da sociedade foi a principal reflexão. Além disso, relata que também ouviu muitos depoimentos de mulheres que passaram por situações de agressão, tanto psicológica quanto física e observou que muitas nem se quer percebem que essa situação está acontecendo e não enxergam que estão em uma relação abusiva. “Normalmente quem vê isso são amigos ou familiares que estão de fora e começam a dar sinais e alertas a elas. Outro ponto que aprendi é: em briga de marido e mulher se mete a colher, sim. Não podemos deixar passar e fingir que não acontece”. 

Em relação à essa preparação para atuar seu primeiro vilão, ele percebe que muitas vezes existe um fetiche em torno desse tipo de personagem e que acha isso curioso. “É um pouco engraçado, porque existe esse fetiche em torno dos vilões. Os atores querem interpretar, os diretores dão atenção, os escritores querem escrever bons vilões, como se os mocinhos e as pessoas legais e éticas não fossem interessantes. Eu acho que, na verdade, o que é mais interessante é a gente começar a notar isso”. Ele diz ainda que os personagens que são vistos como bons, éticos e legais deveriam ser mais exaltados através do seu lado real e humano. “Eu acho que o vilão existe dentro de cada um de nós, existe até dentro do mocinho.  É um lado que todo mundo tem, que a gente esconde, segura ou controla, administra. Acho que o ser humano é dotado de muitas facetas e a gente através da educação e da auto consciência, através do amor, aprende a lidar com isso e que usar e o que não usar na vida em sociedade, porque é para isso que estamos aqui: para aprender a conviver, viver, amar e ter empatia pelo outro”. 

Empolgado, Rafael conta que os aprendizados são muitos. Ele divide, então, que esse crescimento como ser humano faz parte de um dos seus maiores sonhos e diz que isso acontece muitas vezes por consequência do seu trabalho e de seus personagens vividos. Mas frisa também que deseja que o Brasil e o mundo se tornem menos polarizados, onde as pessoas saibam ouvir mais, chegando juntos a um denominador comum e fazendo parte de uma construção mais justa da sociedade. Por fim, ele deixa claro que além de aprender, quer ensinar. “É importante e necessário se falar e trazer esse tipo de tema à tona a todo instante, pois o ser humano é falível. Nós somos falíveis principalmente quando não temos um embasamento, uma educação, uma base familiar mais forte e amorosa, então ficamos muito suscetíveis a cair em relações conturbadas, violentas, abusivas em diversos níveis. Eu espero que o seriado, assim como os outros temas importantes que ele traz, sirva para isso, para a gente atentar, refletir e agir. É para isso que a arte serve também”, afirma. 

 

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