‘Quando se tem Fernanda Montenegro de um lado e Lima Duarte de outro, a gente se sente acolhido’, diz Criolo


Rapper estreia em ‘O Juízo’, filme de suspense com roteiro de Fernanda Torres, direção de Andrucha Waddington, e com Felipe Camargo, Carol Castro e a estreia de Joaquim Torres Waddington. Criolo vive o escravo Couraça e Kênia Bárbara, sua filha Ana, determinados a se vingar dos antepassados de Augusto (Felipe Camargo, que os traíram no passado. “Sou um homem de muita fé. Filho de uma benzedeira e tenho muito orgulho disso. Um brasileiro, no sentido de perceber a força do nosso sincretismo e de que somos feitos de tantas energias ancestrais”, diz Criolo

*Por Brunna Condini

Frases como “é um suspense sobrenatural” ou “não é o tipo de terror que estamos acostumados a assistir”, eram ditas por Felipe Camargo na pré-estreia de “O Juízo”, nesta terça-feira, no Kinoplex do Rio Sul. O elenco e parte da equipe estavam presentes, com nomes como Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Carol Castro, Fernando Eiras, Criolo, Kênia Bárbara e Joaquim Torres Waddington, filho de Fernanda Torres e Andrucha Waddington, respectivamente, roteirista e diretor da produção. É a estreia de Joaquim nos cinemas. Fernanda (a Torres), comentava sobre trabalhar em família. “Às vezes dá até menos conforto. Se dá errado, é um erro coletivo em família”, faz graça. “Mas é muito natural para a gente. Não trabalho diferente com o Andrucha, do que trabalho com o Bruno Mazzeo, por exemplo. Ou com a Andrea Beltrão. Todos são meio família. Isso eu prezo, a intimidade no trabalho. Como neste, o Lima (Duarte) é família, o Fernando Eiras”.

Elenco de ‘O Juízo’ (Foto: Agnews)

Colunista, com três livros publicados, algumas adaptações e no segundo roteiro para cinema, Fernanda considera essa uma espécie de “estreia” nos filmes de gênero. “Esse foi o primeiro roteiro que escrevi sozinha e ele me abriu a porta para escrever dois livros depois. Agora adaptei para a Globo 10 capítulos do meu livro, o “Fim”, que começam a filmar em março, que também faço como atriz”, conta. “Escrevi o roteiro de “O Juízo” em 2012 e tinha uma espécie de overdose das comédias na época, o que deu ao mercado de cinema uma vontade de arriscar mais. Tanto que agora estão saindo vários filmes de suspense, que foram gestados nesta época”.

Fernanda Torres, Fernanda Montenegro e Lima Duarte (Foto: Agnews)

Filmado há três anos, o longa, que estreia em 5 de dezembro, conta a história de Augusto Menezes (Felipe Camargo) que está em crise no casamento com Tereza (Carol Castro). Na esperança de melhorar sua vida, depois de perder o emprego e sofrer com o alcoolismo, ele decide se mudar com a mulher e o filho Marinho (Joaquim Torres Waddington) para uma fazenda herdada do avô. Mas a propriedade carrega uma história de traição e vingança, responsável por todas as reviravoltas do filme. Felipe Camargo fala de seu personagem, envolvido nesse acerto de contas. “É um filme onde as coisas vão se desenrolando e surpreendendo o espectador. O desfecho é bastante surpreendente”, promete. “ É sobre um acerto quase “carmático”. Fala desta coisa do carma: de estar aqui para pagar alguns na vida. Meu personagem topa com um carma antigo da família, de escravidão, de ganância. Ele vai ter que lidar com isso e já não está legal de cabeça”.

Felipe Camargo e Carol Castro (Foto: Agnews)

No clima da noite, o ator comentou sobre a própria fé. “Já frequentei centro espírita, acho uma religião bacana. Não é envolvida em política, o que já acho uma vantagem. Hoje, acredito em Deus, em uma força superior. Não acho que a gente venha do nada e vá para o nada.  Não é só esse instante, tem algo maior, que não sabemos explicar. Tenho fé em Deus, no livre arbítrio, nas energias positivas”, revela Felipe, que acabou de fazer uma participação na série “Todas as Mulheres do Mundo”, de Domingos de Oliveira (1936-2019), que estreia em abril. “Estou negociando uma novela, mas ainda não posso falar”.

Felipe também deixou escapar uma curiosidade, digamos, um tanto arrepiante, do período de filmagens de “O Juízo”. “ Na verdade, aconteceu fora, nos bastidores. No filme, você vai ver, que, às vezes, meu personagem escuta o som de uns cavalos. Era de noite, eu estava sentado e meu quarto era o último da pousada que estávamos e dava para o mato. Ouvi o barulho de cavalos e de repente apareceram quatro, no morro na minha frente. Pararam uns instantes e foram embora. Aí pensei: acho que estou dentro do filme”, contou, aos risos.

O diretor Andrucha Waddington e Criolo (Foto: Agnews)

Já Criolo vive o escravo Couraça e Kênia Bárbara, sua filha Ana, determinados a se vingar dos antepassados de Augusto, que os traíram no passado. “Ele é um homem escravizado, porque ninguém nasce escravo. Importante a gente dividir isso. De alguma forma, o filme sugere e convida, daqueles convites que só a arte faz, a repensarmos nosso Brasil”, observa o rapper e ator. “ Faz um convite também a se repensar como é importante essa coisa fraterna que só a família oferece. Não importa o jeito que essa família se constrói: se é mãe e mãe, pai e pai, se é avó e neto ou se é mãe e pai. Mas pensar o quanto acreditar, confiar no outro é um sentimento real de família. É um filme que faz pensar. Fica o meu convite para que todos assistam. É um suspense de seu tempo”.

E Criolo acredita em que? “Sou um homem de muita fé. Filho de uma benzedeira e tenho muito orgulho disso. Um brasileiro, no sentido de perceber a força do nosso sincretismo e de que somos feitos de tantas energias ancestrais”.

O cantor chegou a ficar nervoso de contracenar com esse elenco? “Não. A gente fica tenso quando sente um ambiente hostil. E não tem ambiente assim, quando tem Fernanda Montenegro de um lado e Lima Duarte de outro. Me senti acolhido”.

Lima Duarte com Gilberto Gil e Flora na plateia (Foto: Agnews)

E tem gostado de ser ator? “Ainda não sei te responder isso. É tudo muito novo para mim. Sei que é um desafio. Te tira de um lugar e te põe em outro, que exige muito estudo, disciplina. E também amo cantar, respiro música”.