Paula Barbosa nega ter privilégios na TV por ser neta de Benedito Ruy Barbosa e anuncia investir na música


Colhendo os louros do sucesso de “Pantanal”, Paula Barbosa pretende investir na carreira em 2023. A atriz, que também é cantora, lançou seu trabalho na música em 2015 logo depois de sua participação em I Love Paraisópolis, porém questões pessoais acabaram interferindo num investimento mais decisivo no segmento. Aproveitando da popularidade da personagem da novela escrita por seu avô, Benedito Ruy Barbosa, e adaptada por seu primo, Bruno Luperi, a atriz celebra o fato de que mesmo encerrada há dois meses, “Pantanal” lhe vale o carinho do público, que dedica a ela o carinho da personagem fuxiqueira-e-romântica da trama das 21h. Ainda que tenha uma família intimamente ligada à dramaturgia – além de seu primo Bruno há outro, Marcos Barbosa, Benedito, a mãe e a tia da atriz, respectivamente Edilene e Edmara Barbosa – a artista nega haver sido privilegiada por sua parentela “Fiz teste como qualquer outra atriz”. Porém, dentre tantas experiências, Paula destaca que a mais importante delas é uma: Ser mãe de Daniel

*Por Vitor Antunes

“São como veias, serpentes, os rios que trançam o coração do Brasil”. A frase anterior, traz a saudosa lembrança de “Pantanal”, novela de Benedito Ruy Barbosa, que foi recentemente exibida em remake na faixa das 21h. A trama, que elevou os índices do horário, na Globo, fez com que seus personagens entrassem para o imaginário popular. Um deles é a Zefa, de Paula Barbosa. A empregada de Maria Bruaca (Isabel Teixeira) fez sucesso por ser, ao mesmo tempo, fofoqueira e romântica e esta dualidade conquistou o telespectador. “Navegando no remanso” do êxito da novela, atriz (re)lança-se como cantora e anuncia um projeto musical para 2023 e para tal, gravou um clipe com o cantor Gabriel Sater, o Trindade da trama pantaneira. Atriz também relembra a trajetória, nega haver sido privilegiada por ter uma família artística, celebra o papel que lhe rendeu prêmios – a Gina de “Meu Pedacinho de Chão” (2014) – e diz que se pudesse, não teria redes sociais.

Paula Barbosa: Zefa de Pantanal nega ter facilidades por ser neta de autor, e anuncia investir na música em 23 (Foto: Priscila Prade)

VEM

Gravado em 2015, o disco “Vem” foi lançado no Rio de Janeiro. Porém, uma série de intercorrências acabou impedindo que o projeto musical que revela a verve cantora de Paula Barbosa pudesse ser trabalhado da forma devida. Agora, passados alguns anos, a atriz/cantora retorna ao projeto, dedicadamente, para 2023: “A minha ideia para o ano que vem é trabalhar o meu disco, que gravei em 2015 logo depois de minha participação em “I Love Paraisópolis”. Muitas coisas aconteceram na minha vida, acabei dando uma parada nisso e levei mais tempo do que gostaria para retornar a este projeto. Agora, porém, é um bom momento”.

A atriz quer aproveitar do sucesso de Zefa que, diante do talento de sua intérprete, cantou na novela e isso chamou a atenção do público e da casa. Tanto que fora, por isso, convidada a cantar em outros programas da Globo. Aproveitando-se da venturosa exibição de “Pantanal”, a atriz convidou o ator e cantor Gabriel Sater para participar de um dos clipes do álbum.

Além da música a atriz quer voltar ao teatro numa obra autoral. Paula estava em cartaz com uma produção sua, “Antes que amanheça”, que chegou a estrear em São Paulo. Ficou três meses em cartaz e foi interrompia pelo agravamento da pandemia e é de sua vontade retomar. Novela, ainda que goste, diz ser algo “muito puxado. Mas, se pintar algo que eu aprove, eu topo”.

Temporada teatral interrompida pela pandemia e a rotina extenuante das novelas (Foto: Priscila Prade)

Paula Barbosa. Atriz ainda sente a repercussão de Zefa, de “Pantanal” (Foto: Priscila Prade)

Segundo a atriz, atuar em “Pantanal” foi uma experiência “muito prazerosa”. Parafraseando um dos sucessos da trilha, Paula esteve na segunda comitiva de atores que foram gravar no Mato Grosso do Sul. Conta-nos ela que não chegara a viver grandes perrengues junto aos colegas, diferentemente daqueles que foram na primeira leva de gravações. “Na primeira, eles também estavam entendendo a estrutura, a logística do lugar. Eles passaram por uma temperatura mais elevada, a contrário de mim, que fui numa época mais fria. Além dos mosquitos, os perrengues que vivi tinham a ver com os deslocamentos que eram muito extensos. Por vezes, a distância entre uma fazenda e outra era de três horas para ir e voltar, acordávamos muito cedo, era algo muito puxado”.

O termômetro do sucesso da trama pantaneira não foi sentido durante sua exibição, de acordo com Paula. Ela diz que “durante as gravações a gente mal saía. Gravávamos de segunda a sábado e tínhamos o domingo para estudar as cenas da semana seguinte. Agora, com o fim da novela, estou voltando para São Paulo e sentindo as pessoas falarem da Zefa, de que ela era um alívio na trama, e que eram apaixonadas por ela”. A atriz também relata haver vivido experiências insólitas por causa do par de Tadeu (José Loreto): Foi elogiada por Caetano Veloso, ao ser parada numa blitz, a policial pediu uma foto e foi reconhecida por lavadores de carro. Ou seja, sinal definitivo que a trama “pegou”.

Zefa e Tadeu. O casal teve torcida nas redes sociais (Foto: João Miguel Junior/TV Globo)

Dentre tantas coisas, Paula relata que este “foi meu primeiro trabalho após haver tido filho. Tive de deixá-lo para gravar as cenas no Mato Grosso do Sul, e depois, por conta das cenas gravadas no Rio. Foi preciso entender como lidar com a distância em estar longe do meu pequeno”. Disse ela, que é casada com o diretor musical Diego Dália.

Maternidade é algo que transforma. Não apenas nasce um filho, mas uma mãe também. Trata-se de um amor que a gente não consegue imaginar. Só tenho a agradecer por ter um filho lindo, cheio de saúde e energia – Paula Barbosa  

Daniel é o primeiro filho de Paula e, por enquanto, o único. Ela, que só havia acompanhado o crescimento de meninas, quando viu de perto o nascimento de sua afilhada, diz que “ser mãe de menino traz a mim muitas novidades. Esse universo infantil masculino eu não conhecia, não tinha experiência nenhuma, além daquela que tive com meninas, pois que estive com a minha afilhada. É tudo muito novo. Assim como aumenta a minha bagagem como como atriz. A mulher que vivencia a gravidez, que vive a gestação e o parto [quando precisa interpretar isso] o faz de outra maneira”, diz.

Diante da beleza da maternidade, ser mãe talvez seja o seu melhor papel. Não como atriz, mas o da vida real. “Num trabalho a gente pode acertar e errar. Na vida real, quando você tem vida que depende de você é uma coisa muito diferente. É improviso o tempo todo, não tem tempo de ensaio e mesmo quando pensamos ter algo preparado, tudo sai diferente. Mas colocando enquanto papel familiar em ser filha ou neta, sem dúvida o de ser mãe é meu o melhor disparado”.

LAÇOS DE FAMÍLIA

Ainda que este seja um nome atribuído a uma famosa novela de Manoel Carlos, nenhuma outra citação seria mais oportuna para falar da família Barbosa nas novelas. É  possível fazer uma paráfrase com o poema “Quadrilha” de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987): “Benedito que é pai de Edilene que é mãe de Paula que é irmã de Marcos, que é primo de Bruno, que é filho de Edmara, que é filha de Benedito Ruy Barbosa, que não é parente de Marina Ruy Barbosa pois que ela não entrou nesta história”

Depois da grande repercussão do remake da trama inicialmente exibida pela Manchete, outro produto bem-sucedido de sua autoria, “O Rei do Gado”, voltou ao ar, e pela quinta vez vem obtendo bons resultados. Edmara e Edilene, filhas do autor e respectivamente, tia e mãe de Paula trabalhavam junto ao roteirista. A parceria de Benedito com Edmara, que é mãe de Bruno Luperi, adaptador de Pantanal (2022), iniciou ainda na TV Cultura. Na Globo, a primeira novela a contar com pai e filha foi “Voltei pra Você” (1984). Já Edilene, mãe de Paula, a primeira novela a contar com a dupla de irmãs na colaboração foi “Renascer” (1993). Em “Terra Nostra”, Benedito quebrou o braço e precisou de um suporte que também foi concedido por um familiar, Marcos Barbosa, que retornaria a escrever com o avô “Meu Pedacinho de Chão” (2014).

Sobre esses laços consanguíneos, Paula diz que “em casa, eu e meus primos crescemos ouvindo histórias do vovô, e eram momentos super simples. Não tínhamos dimensão do privilégio em ter um gênio como ele, em casa, contando-nos histórias. Esse universo sempre instigou, especialmente a mim, ao Bruno e ao Marcos. Nossa família é enorme. Ninguém, além de nós, está envolvido com a área artística”.

Paula Barbosa em “Pantanal”. Novela foi escrita por seu avô e adaptada por seu primo (Foto: João Miguel Junior/TV Globo)

Engana-se quem pensa que o fato de ter uma família de artistas facilita as coisas. pelo contrário. “Eu fazia teatro desde pequena e gostava. O fato de minha família ser do meio só acrescentou isso para mim. Não nego que quem abriu a primeira porta foi meu avô, mas tive de provar a ele que eu levava a profissão a sério, que que não queria apenas ser famosa. Depois de muito tempo trabalhando ele me indicou para um teste em “Paraíso”, ressaltando que “Não estava me prometendo nada”.

Ainda que tenha passado por testes como qualquer outra atriz, percebeu, contra si algum ranço “Foi algo mais intenso na época de ‘Paraíso’ (…). Era difícil. Entendo que seja natural e a gente sabe que o nepotismo existe em qualquer área. Há várias pessoas não qualificadas exercendo trabalhos em qualquer área por causa da conexão [parental]. Eu entendi que posso, através do meu trabalho, mostrar que eu faço aquilo por amor, por competência, dedicação e quando tenho respostas positivas fico muito feliz. Algo semelhante ocorreu com a Gina de ‘Pedacinho de Chão’”. Com este último personagem a atroz foi indicada a diversos prêmios, como o Extra de Televisão, em 2014.

Eu tinha que pôr na minha cabeça que eu não devia estar provando nada a ninguém. Meu vô também tinha esse medo. Ele sabia que eu ia passar por isso – Paula Barbosa

Sobre ‘Pedacinho’ a atriz relata que o processo de criação foi muito semelhante àquele que vivia no teatro. Fomos mergulhando em trabalhos de corpo e voz, descobertas de estilos musicais e nos figurinos que eram muito diferentes, além de havermos podido improvisar bastante. É uma oportunidade que é muito difícil de haver em televisão e me caiu como uma luva. Gina era personagem difícil, estava num contexto muito teatral, era um desfio dosar [o tom] da atuação para a TV. Todos os atores estavam em personagens muito distantes. Era algo muito lúdico, quase uma fábula. Foi uma baita experiência”.

No reboot de “Meu Pedacinho de Chão”, Paula Barbosa foi Gina (Foto: Reprodução/TV Globo)

O TEMPO E A RAZÃO

As redes sociais são agressivas e competitivas. É algo púbico e notório. Recentemente, Paula Barbosa esteve no alvo das discussões online, quando tentaram colocá-la versus a intérprete da sua personagem na versão de 1990, a atriz Giovanna Gold. Fala-nos ela que o tribunal da internet é algo que ela enxerga com muita dificuldade “Tem coisas que não dá para levar em consideração. Eu não teria a coragem de me dirigir a algumas pessoas da mesma maneira que as pessoas se dirigem anos artistas nas redes parece um ódio gratuito uma coisa que sem conhecer Eu sei como tirar dali críticas positivas e negativas, mas há aqueles comentários duros, que vêm do nada, e que tem a ver com alguma superficialidade como o cabelo. Eu tento fazer com que isso passe batido. Além disso, há quem espere de nós um certo glamour. Eu não sou esta pessoa. Tem dia que eu estou de pijama, não é sempre que eu estou maquiada. Parece que as pessoas pedem isso, que estejamos sempre “na pose”. A gente tem que entender isso, mas também não pode se alienar.

Sinceramente se não fosse tão importante estar nas redes eu, particularmente, não teria nem páginas nas redes sociais. O Twitter, por exemplo, eu nem chego perto. Ali é terra de ninguém. Parece que as pessoas ficam esperando para massacrar – Paula Barbosa

A atriz que retoma as rédeas de sua carreira como cantora, parece fazer de si a letra da música gravada por Gal Costa (1945-2022), que diz que a vida de artista no mercado comum da vida humana é um projeto de sonho inocente. A menina que há nos seus olhos parece querer ver o sorriso que que lembra, de leve, uma criança.