Cinema & TV

“O mercado é muito cruel e muito covarde”, dispara Luiz Antonio Pilar sobre o audiovisual nacional

Diretor da série Cinema de Enredo conversou com o site HT e contou os bastidores das dez histórias que em breve estarão no Canal Prime Box Brazil

Publicado em 09/07/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Rafael Moura

“Foram seis semanas. 36 diárias de filmagens. Nunca mais repito”, foi com essa frase que Luiz Antonio Pilar começou o papo com o site HT nos contando sobre os bastidores da série Cinema de Enredo, que estreia, ainda em 2019, no Canal Prime Box Brazil. O diretor nos recebeu em sua casa para contar detalhes do filme que tem “dez episódios e nasceu da expectativa e do desejo de trabalhar com elementos que remetam às manifestações culturais, sempre correndo em paralelo ou oriundas da população negra”, pontua o diretor.

E como em casa de bamba ‘todo mundo bebe, todo mundo samba’, Pilar conta que “assim como em seus outros projetos, o cde tem essa particularidade somada à paixão pelo samba de enredo, esse gênero musical, essencialmente brasileiro, genuinamente carioca, que conta narrativas muito grandes, de suma importância na minha formação cultural quando criança no subúrbio do Rio de janeiro (Vila Vintém, Zona Oeste do Rio de Janeiro), onde apendi muitos fatos sobre a história do Brasil, pelos sambas de enredo que se ouviam na minha comunidade. Eu sempre encarei eles como um mote. E esse foi o ponto de partida para esses dez episódios”, explica.

Ator, produtor, diretor de cinema, teatro e TV, Pilar é dessas personalidades que, em vez de reclamar das dificuldades de ser negro no Brasil, preferem usar o talento e o fazer artístico para mudar essa realidade de ainda sofrer preconceito. “É fácil denunciar e protestar contra a forma como as emissoras de TV apresentam os personagens negros em novelas e minisséries. Quero ver as pessoas estudando e se preparando para escreverem boas histórias e roteiros com protagonistas negros e negras. Bons roteiros, quem é louco de recusar? O mercado costuma surfa ondas da moda. Se a moda é a comédia, então todo mundo corre para esse lado. Mas se a moda é falar de um cidadão marginal, periférico, todos apostam nesse gênero. No fim, a gente vê que o resultado é pífio, porque falta a veracidade. O mercado é muito cruel e muito covarde. Como eu não tenho compromisso, fico mais solto para contar essa história.”, dispara.

Muitos dos trabalhos de Pilar abordam temáticas relacionadas à afro-brasilidade. Avesso à demagogias, ele afirma: “É uma questão ideológica, sim, mas fundamentalmente é porque tem um espaço comercial que demanda esse tipo de produção. A televisão, o teatro e o cinema têm de perceber que trabalhar com esse tema também dá lucro”. Para ele existem três ideias que são difíceis de se representar na dramaturgia. “No cinema, no teatro e na televisão, você reproduzir uma sessão de umbanda ou candomblé, um desfile de carnaval e um jogo de futebol é muito difícil! Porque já são manifestações artísticas, espetáculos prontos e que tem características muito particulares, por conta tem uma carga emocional enorme. Uma cena de carnaval soa sempre muito falsa. A série não retrata aspectos de uma escola de samba, mas o resultado do que um enredo me evoca como história, uma passagem, que se desdobra numa narrativa, que não necessariamente é a história do samba enredo ou a história daquela escola.”, explica o diretor.

Sua paixão pelo gênero musical, o tornou um profundo conhecedor sobre o assunto, daí veio a ideia de fazer a série televisiva. Será que foi fácil selecionar apenas dez dentro de centenas de letras tão ricas? “Foi muito difícil. Eu fiz uma escolha que foi mais do coração, bem sentimental. Ficaram de fora mais dez, que já daria uma segunda temporada. Vamos ver se o canal vai topar! O produto está muito bem feito, a equipe foi muito boa. Foram sambas que eu já curtia, que eu já analisava, que eu já contava histórias, e sambas que tinham me contado histórias. Tem um do Martinho da Vila que ele me contou como o samba foi elaborado, como foi rejeitado na disputa e como foi consertado para ser aceito. O mestre disse que a música ‘Iá Iá do Cais Dourado’, 1969, originalmente, tinha outro final. A personagem feminina que acaba traindo o herói com um gringo, ia descobrir que o amor dela era o capoeirista e que a aceitava de volta e eles viveram felizes a sambar. A letra foi rejeitada. Eu pensei: ‘vou fazer uma história sobre isso e mudar esse final’ . Nesse momento nasceu o embrião de fazer uma série. Pegar esse mote e transformar em dramaturgia”, enfatiza.

E como em um grande desfile que tem o intuito de criar sentido e emoção no espectador, Pilar conduziu as gravações com muita garra e energia, como um exímio diretor de harmonia. Ele nos contou que escolheu as canções, escreveu os argumentos e convocou a roteirista Claudia Vali, já indicando os episódios que seriam comédia, drama urbano, etc. “Quando eu digo que escolhi os sambas que me comoviam, eu também fui estabelecendo critérios. Eu quero que a série tenha em seu bojo, essa variante de temas, mas também de gêneros”. E completa: “Vou contar uma novidade só porque é para você: tem quatro dessas histórias que eu vou transformar em roteiros de longas”, revela.

Equipe concentrada durante as gravações da série Cinema de Enredo, na Praça Mauá

A valorização da identidade negra e brasileira são pontos centrais nos trabalhos do diretor que convocou 153 atores, em sua maioria negros. “Nós tivemos pouco tempo para preparar o elenco. Mas nesses encontros, nós enfatizamos muito o compromisso deles chegarem bem estudados a partir da ideia básica que eu dava na leitura. Em 95% dos casos o elenco veio bem preparado, o que me permitiu trabalhar bem as cenas. Foi um elenco não só grandioso, em termos numéricos (153), desde atores falando um simples ‘sim ou não’, até monólogos gigantes, mas também diversificado. Um time em sua maioria de negros e tipos que fugiam dos padrões socioculturais, isso tudo vai dar a série um olhar diferenciado, uma cara nova para o que está sendo feito no mercado audiovisual. Desde o início era importante para nós afirmarmos essa posição. E eu acho que consegui, trazendo para o mercado um produto com gente muito talentosa, que nunca tinha feito nada de audiovisual, que me surpreendeu e se surpreendeu”, pontua.

Por esses 36 dias de gravações passaram nomes como – Elisa Lucinda, Antonio Pitanga, Rocco Pitanga, Ester Dias, Helga Nemeczyk, Luciana Balby, Léa Garcia, Gisele Itié, Reinaldo Junior, Zé Pedro Baroni, entre outros. Pilar trouxe a mesma filosofia para sua equipe, em que reuniu um time múltiplo, diverso em que pudesse ter todas as manifestações positivas da sociedade.

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Foi uma maratona que contou com gravações em mais de 10 locações, internas e externas (não tiveram cenas de estúdio), para ‘dar certo’ o diretor ressalta o trabalho de suas assistentes de direção Madara Luiza e Elisa Passos foi fundamental. “O plano de filmagem que as assistentes de direção conseguiram elaborar de maneira brilhante foi imprescindível, isso conjugado a um número muito grande de elenco e de locações, fora as intempéries de tempo, trânsito. Nós não penduramos nenhuma cena (deixar de gravar), não teve temporal, tiroteio e falta de autorização da prefeitura que nos impediu de finalizar o dia. Foi uma coisa milagrosa. Eu não repito nunca mais, porque foi uma grande loucura”, conta sorridente.

Pilar destaca ainda a importância dessa narrativa para o reconhecimento e a história do povo brasileiro, que tanto os roteiros como na formação da equipe e do elenco, “nós fizemos alguns apontamentos que eram situações fundamentais. Eu não queria jovens negros, vendendo ou consumindo drogas ou envolvidos com a marginalidade ou violência. A gente pontua, mas eles não são sua maioria e nem é essa a discussão. A gente queria firma a possibilidade de diferentes tipos de famílias. Mostrar outras variantes e outras possibilidade dentro das periferias e das favelas, como esse povo se diverte e como esse povo trabalha. Mas sem cair na questão da violência social”, enfatiza.

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Na segunda parte do nosso papo, o diretor frisou as dificuldades do mercado audiovisual. “A gente vinha de uma crescente dos últimos dez anos do cinema nacional através da política da Ancine que se consolidou, estava indo muito bem. Agora, o cenário está muito instável no campo da cultura”, conta o diretor. E ressalta: “Na cultura do brasileiro, no fazer cultural do brasileiro, se a gente não tiver essa relação com os governos, estamos fadados a falir. Durante todos esses anos nós estamos criando modos de formação de platéia. O nosso sonho é sermos sustentáveis, mas tem um trabalho paralelo social, econômico e, fundamental, de educação que precisa correr junto para que a nossa população se habitue a ir ao cinema, por isso o Estado tem um papel imprescindível”.

Considerada a sétima arte, o Cinema Nacional tem tido cada vez mais destaque mundo afora. “O cinema é uma indústria limpa, que não polui, que não vende arma, educa, bota livro na mão das pessoas, que faz as pessoas pensar, que forma cidadãos. Existe todo um universo intelectual por trás dessa arte. Estamos agora num compasso de espera e apreensivos com o que vai acontecer.”, disse. Pilar conta que fazer cinema no Brasil é uma grande ‘guerra’ e resistência. “O cinema brasileiro, na verdade, sempre trabalhou com pouco dinheiro. A gente faz de teimoso e porque ama. Na nossa série já sabíamos o orçamento desde o início e a nossa autora caprichou no roteiro e mesmo com pouca verba, eu resolvi apostar’, afirma.

Esse mestre, que ama boas histórias, nos contou uma de quando tinha seus 25 anos. “Um dia, eu resolvi me comunicar com o agente literário do Jean Genet (1910-1986), porque eu tinha a ideia de montar o espetáculo ‘Os Negros’, uma peça que ele fez pra atores negros da Argélia. Ele me autorizou em carta, que eu perdi! Ele disse que me autorizava, desde que eu fizesse a montagem com atores negros. E eu montei um projeto que, por acaso, foi o que me levou a televisão, quando eu conheci o Walter Avancini (1935 – 2001) que me deu a oportunidade de ser diretor. Foi um grande momento da minha vida que me possibilitou a entrar numa atividade em que a presença do negro é quase inexistente. Hoje, eu sou funcionário da Rede Globo de Televisão, fiquei lá por 12 anos, e um diretor, negro, de dramaturgia, não tinha. Eu era sozinho. E é fundamental que a população negra possa chegar nesse lugar de contar histórias”.

No fim o diretor nos contou que o longa ‘Lima – Ao terceiro dia’ estará finalizado em breve. “O Lima é um longa-metragem, adaptado da peça teatral do Luis Alberto de Abreu, que fez uma peça biográfica sobre os últimos três da vida do Lima no hospício. É estrelado pelo Luis Miranda e a trilha assinada pela Paula Leal e Amora Pêra. No Festival do Rio ele já estará pronto e depois das telas ele irá pro Telecine, Canal Brasil e TV Globo”.

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