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Na esteira do Oscar e com a esnobada em Ava DuVernay, de “Selma”, diretoras travam guerra pelo poder em Hollywood e Berlim

Vários filmes em cartaz no Brasil atestam a presença cada vez mais comum de mulheres à frente de importantes projetos. Ainda assim, a história prova o quanto é difícil galgar um lugar ao sol por trás das câmeras. O red carpet na cerimônia, amanhã, será mais uma arena dessa luta por afirmação

Publicado em 21/02/2015 | Por Alexandre Schnabl

*Por Flávio Di Cola

A esperada cerimônia da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas no Teatro Dolby, em Los Angeles, neste domingo (22/2) à noite, encerra definitivamente a passarela de premiações do cinema mundial do finado ano de 2014. Na condição de ritual supremo da mais importante indústria audiovisual do planeta, o prêmio Oscar acaba por traduzir – na visão de muitos críticos – não só os últimos avanços artísticos e técnicos do cinema mainstream, como também por conduzir as discussões sobre o papel sócio-cultural da Sétima Arte. Por isso, “o como” e “o que” Hollywood produz sempre serão considerados o mais significativo termômetro do cinema. E, é claro, durante essas avaliações sempre reaparece esta mesma pergunta: a presença das mulheres em posições de destaque na indústria aumentou ou encolheu?

Na temporada cinematográfica de premiações de 2014, que acaba oficialmente amanhã, esse debate pegou fogo logo depois da divulgação da lista de candidatos ao galardão da Academia em que “Selma – Uma luta pela igualdade” (Selma, Pathé/Plan B/Paramount) da diretora negra Ava DuVernay foi incluído entre os oito títulos apontados para a categoria de ‘Melhor Filme’, mas – estranhamente – excluído de todas as outras demais indicações importantes, como direção, atores principais, fotografia, roteiro original ou edição. Isso quer dizer que – na hipótese remotíssima de “Selma” conseguir superar os favoritos “Boyhood”, “Birdman” ou “O Grande Hotel Budapest” , não será a diretora DuVernay que subirá ao palco para receber a estatueta, mas sim seus quatro produtores, incluindo a notória Oprah Winfrey. A colunista do New York Times Manhola Dargis expressou publicamente o inconformismo das mulheres que trabalham no setor audiovisual norte-americano ao apontar essa omissão como mais uma “esnobada” sexista e um sintoma de que os membros da Academia não acreditam, na verdade, que a diretora mereça o crédito de uma obra que ela própria desenvolveu desde o nascedouro. É verdade que Angelina Jolie e seu “Invencível” (Unbroken, Legendary/ Universal), ficaram de fora nas categorias de ‘Melhor Direção’ e ‘Melhor Filme’, mas o seu açucarado melodrama de guerra talvez não justifique nenhum dos três prêmios a que foi indicado (fotografia, edição de som e mixagem de som).

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Essas polêmicas se intensificaram ainda mais durante o 65º Festival de Cinema de Berlim, que se encerrou nesta última segunda-feira (16/2), através de pronunciamentos bastante assertivos por parte de importantes cineastas sobre a desigualdade entre os sexos no exercício da atividade considerada a mais importante do cinema: a direção. Naomi Kawase – a mais jovem cineasta a receber, aos 28 anos, o prêmio Caméra d’Or do Festival de Cannes de 1997, destinado aos novos talentos, e que apresentou o seu belíssimo “O segredo das águas” (Futatsume no mado, 2014, em cartaz no Rio de Janeiro) – contrariou a tradicional discrição nipônica e denunciou claramente o machismo empedernido que reina não só na vida social, mas também no interior dos próprios sets cinematográficos do seu país. Outra que não se calou foi a diretora espanhola Isabel Coixet que levou ao festival “Nobody wants the night”, estrelado por Juliette Binoche e Gabriel Byrne. Para ela, num cenário em que o cinema perde paulatinamente a relevância que já teve em relação ao passado, a trajetória para uma aspirante a diretora torna-se ainda mais espinhosa, enquanto o justo seria que tanto homens como mulheres trabalhassem em pé de igualdade, nada mais.

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Aliás, essa posição simplesmente igualitária é compartilhada pela mulher que recebeu, pela primeira vez, um Oscar de ‘Melhor Direção’: a “senhora James Cameron” por três anos (1989-1991), Kathryn Bigelow, também produtora e roteirista. Na carreira de diretora desde 1978 e reconhecidíssima pelos triunfos seguidos “Guerra ao terror” (The hurt locker, 2008) e “A hora mais escura” (Zero dark thirty, 2012), que lhe trouxeram não só a estima do público como uma enxurrada de prêmios importantes, Bigelow declarou em 1990: “Se há uma resistência específica em relação às mulheres que querem dirigir filmes, eu simplesmente escolhi ignorar esse tipo de obstáculo por duas razões: não posso mudar o meu gênero e me recuso a desistir por causa disso”. Quase vinte anos depois, já banhada pelo sucesso mundial, Kathryn avaliaria a sua profissão dispensando esse clichê tão brega como impreciso que é o famigerado “olhar feminino”: “Passo um bom tempo refletindo qual seria a minha aptidão particular como diretora. Acho que é simplesmente a de explorar as possibilidades inerentes à arte cinematográfica, sem contrariar muito os códigos e as tradições dos gêneros clássicos”.

Guerra nas telas e por trás delas: Bigelow revela pulso firme durante as filmagens de "A hora bem escura" (Foto: Divulgação)

Guerra nas telas e por trás delas: Bigelow revela pulso firme durante as filmagens de “A hora bem escura” (Foto: Divulgação)


Kathryn Bigelow recebe o Oscar de ‘Melhor Diretora’ de 2010 das mãos de Barbra Streisand: a eterna Funny Girl até introduz mensagem “feminista”, mas a diretora de “The hurt locker” faz questão de não se preocupar com isso (Vídeo: Reprodução) 

Aliás, ao longo de toda a história do cinema, entre as diretoras que realmente conquistaram ao mesmo tempo uma posição de aceitação artística e o poder real, encontramos poucas as que reivindicaram o direito ou a necessidade de exprimir um “específico feminino”. A grande maioria delas materializava seus projetos pessoais ou trabalhava nos palcos de filmagem simplesmente como artistas ou artesãs de talento, preocupadas tão somente em exercer seu métier em consonância com as circunstâncias e exigências específicas de sua época e realidade profissional. Assim foi desde a pioneiríssima Alice Guy (1873-1968), que começou como datilógrafa nos estúdios Gaumont, em plena Belle Époque. Logo depois, já como diretora e chefe de produção de uma indústria ainda nascente, ela introduziu uma série de inovações artísticas e executivas como o próprio “sistema de estúdio”, na Europa e nos Estados Unidos, para onde se transferiu em 1907. As mulheres também tiveram representantes importantíssimas em dois movimentos capitais da história da arte do século 20 – a vanguarda dos anos loucos da década de 1920 e a Nouvelle Vague dos anos 1950-60 – através, respectivamente, das cineastas Germaine Dulac (1882-1942) e Agnès Varda, atualmente com 86 anos e ainda ativa.

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Pelas suas dimensões e pelos talentos que sempre precisou recrutar a fim de manter sua supremacia, Hollywood acabou por incorporar ou formar várias diretoras para compor seus quadros, mas poucas – de fato – conseguiram um lugar de destaque na Meca do Cinema. Nessa fase clássica, a figura mais importante foi Dorothy Arzner (1897-1970) que dirigiu filmes importantes nos grandes estúdios americanos entre 1927 e 1943, mas enfrentando muitas hostilidades, até por que era abertamente lésbica. Seu look altamente masculinizado tornou-se uma lenda e era empregado – não sem astúcia – para se impor perante os chefões e as equipes machistas dos estúdios. O historiador de cinema William J. Mann na sua exaustiva pesquisa “Bastidores de Hollywood: a influência exercida por gays e lésbicas no cinema 1910-1969” [publicado no Brasil pela editora Landscape, em 2002, com tradução de Celina Cavalcante Falck], cita o seguinte comentário de Dorothy Arzner pinçado de um famoso artigo que ela escreveu para a revista The Hollywood Reporter em 1932, intitulado ironicamente “Como se tornar diretora cinematográfica”: “A intuição de uma mulher não vale nada em Hollywood. (…) Uma diretora precisa pensar analiticamente… Todos os peixes nadam na água… os homens nadam na água, portanto os homens são peixes. Há aqui um pequeno problema de lógica que a maioria das mulheres sabe que existe pela intuição, mas os homens encontram a resposta determinando que nem tudo que nada é peixe. Eu precisei tirar conclusões como homem”. A vitoriosa Kathryn Bigow assinaria embaixo, sem dúvida.


 Miniclipe sensacional e curioso com trechos de filmes dirigidos por Dorothy Arzner com as maiores estrelas de Hollywood em que há mensagens feministas ousadas (homenagem do Festival de San Sebastian),legendado em espanhol (Reprodução)

Desde então, esse debate vem alimentando uma fogueira de controvérsias, lamúrias, escândalos, acusações, movimentos e conquistas que se alastraram até o Brasil. Afinal, não podemos esquecer a trajetória corajosa e polêmica das nossas diretoras pioneiras e muito bem-sucedidas se considerados a época e o contexto em que dirigiram seus filmes: a diva-atriz-diretora-produtora Carmen Santos (1904-1952) e Gilda de Abreu (1904-1979), célebre pelo seu melodrama “O ébrio”, um autêntico blockbuster do longínquo ano de 1946.

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Mas amanhã, já no red carpet do Teatro Dolby haverá – sem dúvida! – espaço para algo mais do que o entra-e-sai de estrelas super maquiadas e embonecadas com vestidos emprestados pelos departamentos de marketing das grandes grifes globais: cineastas consumadas e – principalmente – as iniciantes do mundo inteiro estarão se perguntando se essa profissão terá um dia um horizonte mais igualitário para elas.

Com discurso feminista, Barbra Streisand recebe o Globo de Ouro de ‘Melhor Direção em Comédia ou Musical’ por “Yentl” (1983)

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