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“Narrativas sempre centradas na perspectiva masculina têm visão limitada”, diz Maeve Jinkings sobre a importância do olhar feminino no audiovisual

A atriz, que estará na série A Lama dos Dias do Canal Brasil, falou da paixão pelo cinema nacional, da sua visão de mundo enquanto artista e da relação afetuosa com a cidade de Recife

Publicado em 19/09/2018 | Por Vanessa Cutrim

“Eu tenho fama de ser pernambucana!”, brinca a atriz brasiliense Maeve Jinkings, que fará uma participação especial em “Lama dos Dias“, série do Canal Brasil que estreia esta semana. A produção retrata o movimento musical manguebeat e tem como pano de fundo o estado de Pernambuco, lugar que a artista diz ter uma calorosa conexão. Ela já fez vários trabalhos que se passam na região, como os filmes Aquarius, O Som ao Redor, Boi Neon e a série da Globo Onde Nascem os Fortes, e chegou até a se mudar para a capital do estado por um tempo. “Quando cheguei a Recife pela primeira vez em 2008 eu fiquei muito impressionada com a riqueza cultural daquele lugar e fiquei me questionando por não ter conhecido antes. Existe uma identidade artística muito única e genuína que encontrei ali em muitos artistas”, relata a atriz, que é uma das mais disputadas no mercado cinematográfico brasileiro.

Maeve Jinkings estará na série “A Lama dos Dias” do Canal Brasil (Crédito: Mariana Vianna e Ana Paula Amorim/Canal Brasil)

Se você conversar um pouco com Maeve, já vai dar para captar o quanto é envolvida e firme nas causas feministas e sociais. Para ela, por mais que exista um avanço, há uma deficiência clara em retratar diferentes visões femininas no audiovisual. “Acho que a perspectiva feminina em histórias não é importante só para as mulheres. Narrativas não são só uma contação de histórias, são sempre uma chance da gente se ver, da gente se pensar, da identidade cultural. Quando você tem narrativas sempre centradas na visão masculina, você tem um olhar ausente, limitada da realidade. Esses dias eu tava conversando com um amigo meu e ele falou: ‘Se eu quiser falar da minha visão de homem hétero branco, não posso?’ Você pode tudo o que quiser, só que está correndo um risco muito grande de não complexificar sua narrativa”, enfatiza a atriz, que também ressalta a importância de dar voz a todas as mulheres, não só as que possuem um local de fala mais privilegiado. “Eu posso falar de mulher, mas eu vou continuar sendo uma mulher burguesa, eu preciso da visão de uma mulher de periferia, negra, de uma mulher trans”, afirma.

Com o ator Alexandre Nero em Onde Nascem os Fortes, série da Rede Globo (2018) (Crédito: Estevam Avellar/Rede Globo/Divulgação)

A artista teve seu primeiro contato com a atuação aos nove anos de idade e acredita que o amor pelo cinema brasileiro tem forte influência na sua decisão de viver de arte: “Eu sou cinéfila, antes de ser atriz de cinema, eu era atriz de teatro, e antes de estudar, eu simplesmente assistia cinema. Macunaíma, Marvada Carne, me marcaram muito, me inquietaram…talvez eu tenha escolhido ser atriz por ter tido acesso a essas produções nacionais”. Sobre o método de escolha dos seus próximos trabalhos, ela diz ser muito criteriosa e que não dá para saber o que vai ser bem sucedido ou não, mas é preciso acreditar na mensagem e no que se quer passar. “Eu fico feliz de ver a minha trajetória, tenho muito orgulho de tudo que fiz, mas antes de chegar a esse ponto, o processo do filme me encanta muito, o resultado dele a gente nunca sabe, pois são projetos de riscos em muitos sentidos, muitos deles são pesquisa de linguagem. A gente escolhe muitas vezes sem ter certeza que vai dar certo, porque é muito subjetivo, mas os processos são tão ricos, que é isso que me deixa muito transformada”, conta Maeve.

A atriz no filme Boi Neon (2016), onde interpretava a caminhoneira Galega (Crédito: Mateus Sá/Divulgação)

A atriz, que já fez papéis desafiadores, desde uma cantora de brega no longa Amor, Plástico e Barulho, até a vulnerável Domingas na novela A Regra do Jogo, é enfática quando fala da paixão pelo seu trabalho e da possibilidade de interpretar e contar diferentes histórias: “É uma chance de me rever, a benção do ator é essa sensação que a gente tem de viver muitas vidas em uma. A gente nasce em uma família, em uma classe social específica, em uma língua, em uma cultura, e ficamos muito restrito àquela perspectiva de mundo, aquele ponto de vista, aí quando você vai fazer outros personagens é como se você tivesse a chance de aprender um pouquinho mais.”

Na festa de 20 anos do Canal Brasil (Crédito: Anderson Borde/AgNews)

Para ver Maeve Jinkings nas telinhas, ela estará no ar em uma participação especial em Lama dos Dias no Canal Brasil, que estreia neste domingo (23) às 21h30. Sobre próximos trabalhos, a atriz faz mistério: “Estou em paqueras, não são nem namoros, então não posso oficializar”, brinca.

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