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Misturando novos e consagrados atores, o filme Duas Irenes exibe as questões do amadurecimento feminino e discute infidelidade e nudez

Equipe e elenco contou também sua opinião sobre o adultério masculino e como isto afeta o cenário familiar

Publicado em 22/08/2017 | Por Ana Clara Xavier

O que fazer quando se descobre uma versão melhorada de si mesmo? Além com o mesmo nome, idade e família e, mesmo assim, parece ter uma vida mais bem resolvida que a sua. Este espelho invertido foi o que instigou o roteirista e diretor Fábio Meira a fazer o filme Duas Irenes que está concorrendo ao título de melhor longa do Festival de Cinema de Gramado. A trama conta a história de uma menina de 13 anos que de repente descobre outra família que seu pai mantém às escondidas. Nesta outra casa, vive sua meia-irmã que possui características muito parecidas com as dela, inclusive, o nome. Todo o enredo se resume a tentativa de autoconhecimento destas duas irmãs que começam a querer tomar suas próprias decisões. “Acho que esse filme é a história de empoderamento destas meninas, é o momento que começam a tomar conta da vida delas, culminando em um final que mostra elas dominando tudo. Aquelas mulheres são poderosas e acredito ter um enredo feminista que mesmo não sendo intencional do diretor, acabou acontecendo por ele ter crescido rodeado de uma presença muito forte do gênero feminino”, garantiu a produtora Diana Almeida. Ao seu lado Fábio confirma a hipótese: “Na minha família, elas é que comandavam tudo e os homens eram submissos, por isso, inclusive, achava que o bacana socialmente no mundo era ser mulher”, comenta.

Isabela Torres faz uma das duas Irenes no filme (Foto: Edison Vara)

As protagonistas são duas atrizes completamente desconhecidas, a Priscila Bittencourt e a Isabela Torres. O processo de seleção foi bastante demorado e complexo pois era necessário profissionais que assumissem estes papéis, por serem as principais condutoras do filme. “Este é aquele tipo de filme que se não encontrasse as protagonistas eu teria que adiar as filmagens. O processo de seleção foi longo com cerca de 250 meninas e, destas, 25 fizeram uma oficina de duas semanas para testarmos. Encontrei a Priscila em uma escola de artes em Goiânia, ela estava subindo as escadas e contei que estávamos selecionando meninas, ela implorou para participar. Fiquei impressionado e mostrei o resultado para todos. Já a Isabela, vi as fotos dela em uma agência de Brasília e fiquei impressionado com a semelhança com a Inês Peixoto. Precisei convencê-la a fazer o longa, porque resistiu no começo por ser tímida”, contou Fábio. Por causa da inexperiência das meninas, ele optou por uma marcação de cena mais branda para que elas se sentissem mais soltas. A cada dia o diretor conversava com elas, separadamente, sobre a cena que iriam gravar e dicas de como agir. “O Fabio falava algumas marcações no meu ouvido e no da Priscila, ele não queria que soubéssemos o que disse para a outra. No entanto, sempre trocávamos uma ideia antes de gravar e contávamos para a outra”, confessou Isabela.

Como era a primeira vez das atrizes no cinema era preciso a colaboração dos pais de ambas para que as cenas acontecessem. Uma das gravações gerou muita polêmica por mostrar os seios de Isabela Torres, mas segundo o roteirista a mãe concordou de cara com a sequência. “Mandei o roteiro para a mãe da Isabela e ela compreendeu o objetivo da cena. Ela me disse que jamais pediria para que a cena fosse cortada, mas o problema era se a Isabela iria querer fazer por ser muito tímida. Achei isto genial porque ela teve uma visão maravilhosa e nem mesmo é do ramo cinematográfico”, agradeceu o diretor. Isabela não demorou muito tempo para aceitar a nudez por terem garantido a ela que não haveria nenhuma simbologia erótica. “Quando recebi a notícia fiquei com o pé atrás, mas a produção me garantiu que não queria que fosse algo vulgar. Ensaiamos várias vezes para esta cena e na hora da filmagem o set estava vazio. Foi muito tranquilo”, relembrou. Durante todo o longa, Isabela atua como uma garota segura de si e confiante, o que ajudou com sua timidez.

Marco Ricca é o responsável por fazer o polêmico papel do pai das meninas (Foto: Edison Vara)

De acordo com Fábio, a cena era necessária por mostrar o ritual de autoconhecimento das personagens. “Neste processo de amadurecimento, temos uma menina sem corpo ao lado de uma irmã linda e outra engraçadinha. Além disso, ela descobre que tem uma meia irmã com o mesmo nome e mais desenvolvida. Naquela cena, para mim, foi a mesma se deparar com algo que ela não tem. Tínhamos a preocupação com a direção de arte de não ser erótica a cena”, considerou. Mas nem todo mundo concordou com esta ideia. Durante uma exibição para estrangeiros, um canadense demonstrou muita aversão a nudez. “Um produtor canadense falou que amou o filme mas pediu para tirar a parte do banho. Disse que ele e seus colegas ficaram muito incomodados, porque as filhas tinham praticamente a mesma idade das meninas e falaram que elas não se mostrariam daquela forma nem mesmo para os pais. No entanto, neste caso, a personagem não está se mostrando, apenas tomando banho na casa dela com a porta entreaberta onde mora com a mãe”, criticou a produtora Diana.

Coroando o amadurecimento destas meninas, o final mostra um total poder de ambas que parecem conduzir a trama familiar da forma que preferem. Por isso o filme termina com a revelação de ambas para os núcleos familiares sem mostrar a reação do pai, abrindo para especulações. “Queria que o final fosse aberto para que cada um imaginasse o que aconteceu. Para alguns o pai pode apanhar, outros as mulheres podem virar amigas e entre outros. O que interessava para mim era a expressão das duas Irenes frente aquele desfecho onde estão controlando tudo”, explicou Fábio. No entanto, foi feito também uma cena alternativa onde o pai e a mãe se encontravam e discutiam sobre o que estava acontecendo.

Fábio Meira é o roteirista e diretor do filme (Foto: Edison Vara)

Além deste descobrimento pessoal, a traição do pai é bastante discutida. No entanto, o personagem de Marco Ricca não é perverso ou ignorante, ele sempre está atento as questões de ambas as famílias, o que foi uma forma de não estereotipar um adúltero. “Era muito importante para mim que o pai não fosse facilmente julgado pelo espectador, que ele não fosse um cafajeste e que que não parecesse que ele estava sacaneando as duas famílias. Queria que ele fosse um cara sensível e terno com as filhas e mulheres”, explicou o roteirista. A narrativa do longa, na verdade, surgiu de um momento familiar do diretor quando era mais novo. Durante uma brincadeira, houve a suposição de que seu avô tivesse outros filhos. No entanto, nunca houve uma procura por estes parentes. Desta forma, Fábio resolveu criar em uma realidade paralela atemporal mostrando o que teria acontecido se seus tios se relacionassem com estas outras pessoas.

A vida imita a arte ou ao contrário, não se sabe ao certo, mas o fato é que por onde o filme passou, todos deram depoimentos de casos parecidos na própria família ou de conhecidos. “Já exibimos o filme em muitos lugares e todos falam que conhecem uma família assim. É impressionante o número de infidelidades, somos promíscuos. Isto acontece muito”, contou Marco Ricca.

Elenco conversou com o site HT durante a coletiva que ocorreu ontem (Foto: Edison Vara)

A fotografia do longa parece ser de um vilarejo antigo, no entanto, o diretor afirma que não pretende demarcar um lugar ou ano para abrir a interpretações. Fábio pretende, inclusive, que as pessoas não consigam identificar de qual país o filme foi feito e gravado. “A minha intenção era que um europeu que fosse assistir este filme soubesse que é latino-americano, sem se importar com o país. Não queria demarcar um tempo, também. Utilizei, para isso, algumas trilhas sonoras latinas. Com isso quero mostrar a importância dos latinos de filmarem juntos, o Brasil é completamente separado dos vizinhos e não acho que a língua pode nos impedir de dialogar”, defendeu.

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