Marcéu Pierrotti vive abusador em série da Record e fala sobre violência pós-condenação de Robinho e Daniel Alves


Na Record, o ator vive um homem conflitado e agressivo em “Até onde ela vai?”, em cartaz no Univer Video, plataforma de streaming da emissora. Para Marcéu é fundamental que se debata a questão da agressão às mulheres e violências a elas e, segundo ele, “é importante nos colocarmos em favor da causa feminina para não sermos coniventes com abusadores. Homens caminham na rua e sem medo, senão por serem assaltados. Já as mulheres vivem num eterno medo. Os homens nunca terão ideia sobre o que é ter um corpo que tem medo constantemente”. O ator fala ainda sobre o tema da masculinidade por um recorte sensível na peça “3 meses e 3 dias” e sobre seu ofício analisa que “É preciso ver o que o mercado aponta para o futuro, já que se os novos atores virem nas redes sociais entenderem que não é necessário estudar”

*por Vítor Antunes

Marcéu Pierrotti vive um abusador na série “Até onde ela vai?“, em cartaz na plataforma Univer Video, da Record. E ele traz esse tema à tona: “A cada minuto há uma mulher sendo abusada e atacada. É um número grande. E os privilégios masculinos entendem que é possível pagar uma fiança e ficar livre. Isso é muito grave! Esse não é um crime fiançável. Estamos avançando ou retrocedendo?”, questiona. Hoje em dia há uma discussão sobre a solidez – ou possibilidade desta –  na construção do masculino. Enquanto essa entrevista exclusiva era escrita, Robinho, ex-jogador de futebol, foi preso, levado para a Penitenciária de Tremembé, acusado de crime de estupro e havia ainda os reflexos da possibilidade do pagamento de fiança no valor de 1 milhão de euros para que outro jogador, Daniel Alves, condenado por estupro na Espanha, ganhe a liberdade provisória.

Para o ator, este é um tema que precisa ser falado, especialmente sobre os homens que são aliados à defesa da causa da mulher. “Não se pode passar pano”. Ainda de acordo com Marcéu, “a série é baseada em fatos reais e escrita pela Raphaela Castro. E, tal como muitas realidades ainda, a mulher agredida opta por não denunciar o agressor. “Espero que, como artista, possa trazer luz a esse tema”.

É importante nos colocarmos em favor da causa feminina para não sermos coniventes com abusadores. Homens caminham na rua e sem medo, senão por serem assaltados. Já as mulheres vivem num eterno medo. Os homens nunca terão ideia sobre o que é ter um corpo que tem medo constantemente – Marcéu Pierrotti

Em paralelo à série da Univer Video, Marcéu poderá ser visto na peça “3 meses e 3 dias“, que estreia em abril, no Solar de Botafogo, onde permanecerá até maio. Na peça, o oposto da fortaleza da masculinidade, “para se sentir como sente, em aceitar o choro, a dor em contraponto ao imaginário do homem forte, duro e que não sente e o quanto manter esse lugar é cansativo”. A peça fala da fragilidade da vida do luto e parte de relatos pessoais meus e do Ricardo Burgos. Ele revisita um acidente que lhe ocorreu na infância e eu a perda do meu pai e ter de assumir um papel na hierarquia familiar”. Para Marcéu, o público pode se encaixar e identificar em várias camadas e perceber as lacunas afetivas dos personagens. A criação é dos atores e direção do próprio Marcéu. Trata-se de uma peça que fala muito sobre a verdade íntima de cada um dos atores.

Marcéu Pierotti traz à tona questionamentos sobre a construção da masculinidade em série e em peça (Foto: Vinícius Mochizuki)

O MUNDO MASCULINO TUDO ME DARIA?

Série da Univer Vídeo, “Até onde ela vai?” tem tido uma resposta positiva neste player. É ousada, frente ao que o Grupo Record costuma mostrar. Para Marcéu, que está na emissora desde 2019, foi um prato cheio. “Fiquei muito interessado por ser uma obra contemporânea, por ser um suspense paranormal e ter personagens complexos. Isso me interessou desde quando li o roteiro e entendi que ele era o antagonista, problemático, um abusador. Ele tem essa visão violenta contra a mulher e sofre as consequências disso. Quanto a mim, não queria interpretar um vilão clássico”.

Com o fato de o Univer Video ser uma plataforma mais segmentada, discutiu-se a possibilidade de a série ser doutrinária, o que Marcéu refuta. “A Seriella, produtora do projeto, já tocou a produção com o objetivo de não fazê-la nichada, mas com que pessoas que são e que não são da igreja possam assistir. E o projeto tem grande capilaridade, se projeta bastante e evidencia um caminho para uma melhora de questões para a causa das mulheres”. Na série, Bárbara (Louise Clós), uma mulher que vivencia a paranormalidade e que por esta razão acaba perdendo o rumo da vida. Ela é casada com Sidney, personagem de Marcéu, cujo “amor se transforma em violência. Foi um trabalho exaustivo, diário, profundo de gravações. Havia ocasiões em que saía do set me sentindo abalado emocionalmente”.

Marcéu Pierotti e Louise Clós atores vivem um amor tóxico em trama da Seriella/Univer Video (Foto: Reprodução/Record)

A PORÇÃO MELHOR QUE TRAGO EM MIM

Como Marcéu vê os conflitos masculinos geracionais? Há grande diferença entre os homens da geração que atualmente tem 40 anos para aqueles com cerca de 20? “Sim. Há uma evolução, mas percebo que depende de pessoa para pessoa. A minha dos 30-40 anos pegou muitas coisas da geração passada, ainda que tenha sido muito acelerada pelo digital e as transformações dos últimos 20 anos e quebrando o estigma de ter de ser provedor, do patriarcal controlador. Os rapazes dos 20 anos hoje, por exemplo, já têm uma compreensão melhor da própria sexualidade”.

Ainda que o tema da paternidade esteja presente tanto na série como no teatro, Marcéu ainda pondera sobre ser pai: “É coisa que vai e vem. Não tenho esse sonho enraizado, mas vejo como possível. Penso que para ter filho é preciso ter qualidade de vida e a profissão de ator é instável. Mas tenho isso como a um tema presente, porque gostei de trabalhar e estar com as crianças”.

Formado em teatro, e com duas graduações, o ator analisa o mercado como muito versátil hoje. “Os streamings são maravilhosos, estão surgindo caminhos de trabalho para mais pessoas, mais atores, mais narrativas formas diversas sendo contadas e para uma grande diversidade, os streamings formando seus heads e estruturando, o governo voltando a investir no cinema e compreendendo a importância do produto audiovisual, mas também como economia”.

Sobre o seu ofício, o ator diz que “esse é meu propósito e isso me move. Quero fazer  jus ao meu trabalho que precisa fazer sentido, mover e transformar as pessoas. Ainda que não julgue quem vá por outros caminhos e chega à profissão sem haver estudado ou conseguiu através das redes sociais, questiono o interesse dos produtores. Compreendo que estejam correndo atrás de audiência, mas e quanto à qualidade artística? E quanto àqueles que têm muitos seguidores? O que podem oferecer? Vão transformá-los em público consumidor de cinema de série? É preciso ver o que o mercado aponta para o futuro. Isso pode se reverter numa falha na formação de novos artistas”.

Marcéu Pierrotti em cena. Peça fala sobre a sensibilidade masculina (Foto: Whangeuod)