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Kizi Vaz, de Ilha de Ferro, teve a vida transformada pelo teatro: “O Nós do Morro foi um divisor de águas na minha vida”

A atriz é do elenco de Ilha de Ferro, nova produção do GloboPlay, e nos contou sobre as alegrias e dificuldades da carreira e sobre sua ONG em Caxias: "As pessoas não olham para esses lugares, os políticos não olham para esse lugares e se não tiverem projetos como o Curta Arte Caxias, o Nós do Morro, o que vai ser dessas crianças?”, acrescentou Kizi em uma conversa emocionante com o site HT

Publicado em 24/12/2018 | Por Bárbara Tenório

Há pessoas que trilham os caminhos e há caminhos que trilham a vida das pessoas, em todos eles há oportunidades que mudam tudo. Foi assim com a atriz Kizi Vaz, quando a Companhia de Teatro Nós do Morro transformou o destino dela. No ar como Suélen, uma divertida cozinheira da plataforma de petróleo PLT-137, na nova série da Rede Globo produzida para o Globo Play, Ilha de Ferro. Em 2012, depois de se apresentar no espetáculo Bandeira de Retalhos na Companhia ela recebeu um convite para participar do elenco de apoio da novela Salve Jorge escrita por Glória Perez. “Eu só tenho a agradecer, porque foi através da Companhia que muita coisa começou a acontecer na minha vida. O Lauro Macedo foi ver a peça e me chamou para fazer o cadastro na Globo. Eu fiz e na sequência me chamaram para fazer o teste da novela. Eu não esperava. Então o Nós do Morro foi um divisor de águas na minha vida”, relembrou a atriz em uma conversa com o site HT e, acrescentou que nunca pretendeu ser famosa, segundo ela, fazia teatro porque amava e até pensava em ser professora de artes cênicas.

A artista cresceu em Jardim Primavera um bairro simples de Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense, e foi em uma montagem de peça da escola que ela se descobriu atriz. A partir daí a mãe foi à procura de cursos de teatro para a filha. “Quando eu era mais nova eu fui convidada para desfilar, mas eu sempre tive muito quadril, corpo de mulher brasileira mesmo, então não deu muito certo. Daí comecei a fazer um curso de teatro em Nova Iguaçu. Depois fiz um curso na Casa da Gávea, daí minha mãe viu uma entrevista do Guti Fraga, presidente do Nós do Morro e fui para lá fazer teatro”, relembra. O ano era 2006 e Kizi ainda morava a quase duas horas de ônibus distante do Vidigal, onde fica a sede da escola. Na época, ela trabalhava o dia todo em uma loja e chegava no fim da tarde para estudar teatro na tradicional companhia criada em 1986. Foi um ano assim até que os custos das passagens de ônibus começaram a pesar no bolso e ela se mudou para um apartamento com duas amigas no Vidigal.

Kizi Vaz saiu de Duque de Caxias para estudar teatro no Vidigal (Crédito: Vitor Vieira Fotografia)

Desde quando estreou na televisão há seis anos atrás Kizi participou de mais dois folhetins da Globo, Babilônia em 2014 e Rock Story em 2016. Ela também atuou nas séries Desenrola aí e Mais vezes Favela com direção de Gustavo Melo exibidas pelo Multishow. Para ela, ter uma formação teatral fez toda diferença para que se sentisse segura nas suas primeiras interpretações na TV, apesar de ter que se familiarizar com outras técnicas nos sets de filmagem. “Gravar é totalmente diferente do teatro, têm técnicas de câmera que eu não tinha experiência no começo. Foi em Salve Jorge que eu aprendi muito sobre isso e continuo aprendendo ainda”, completou.

Sobre esse constante contato com experiências novas na profissão, Kizi que faz parte do elenco de Ilha de Ferro contou um pouco a respeito do diferente ritmo de gravações que ainda não tinha vivenciado: “Está sendo uma experiência nova, porque eu nunca tinha feito série e é um outro ritmo. Eu só tinha trabalhado com teatro, cinema e TV. A novela tem uma demanda bem maior de cenas por dia e a série são poucas cenas. A novela demanda mais tempo, ficamos praticamente o dia todo gravando”. Na profissão Kizi acredita ser interessante conseguir transitar por todas as linguagens de produção audiovisual.

A atriz se formou na Companhia de teatro Nós do Morro e entrou para a Globo em 2012 (Crédito: Vitor Vieira Fotografia)

A série escrita por Max Mallmann e Adriana Lunardi com Cauã Reymond e Maria Casadevall como protagonistas, fala sobre petroleiros que passam a metade da vida em alto mar e a outra metade em terra firme. Para Kizi é importante contar histórias novas que ainda não foram contadas. “Não tiveram produções brasileiras sobre isso e eu acho interessantíssima a forma como essas pessoas vivem, 15 dias no mar e 15 dias na terra. De fora não temos noção, mas isso realmente mexe com a cabeça dessas pessoas”, destacou a atriz que para a preparação da personagem passou um tempo na plataforma de Angra dos Reis. “Lá eu pude conversar com alguns petroleiros e eles me contaram sobre outros trabalhadores que não conseguiram continuar trabalhando por questões psicológicas, por sentirem saudades da família”, disse.

A atriz ressaltou sobre a relevância de se mostrar nos episódios as mulheres que vivem nesse lugar predominantemente masculino. “Têm poucas mulheres na série, mas é importante colocar a mulher nesse lugar e realçar a história dessas personagens como a da Maria Casadevall e a da Vitória Ferraz, que interpretam mulheres fortes e precisam ser muito fortes mesmo para conseguir trabalhar em um lugar dominado por homens”, completou Kizi. E poder dar vida a histórias tão diferentes da própria realidade é o que a atriz mais gosta na profissão, ela acrescentou: “Poder embarcar na trajetória dos personagens e aprender coisas que eu jamais acharia que aprenderia. Ilha de Ferro é isso, como eu poderia imaginar que estaria numa plataforma de petróleo um dia?”.

Sonhar e poder alcançar, todavia, se lembrar de onde veio é o que prevaleceu na conversa com Kizi Vaz. Ela é mentora e criadora do Curta Arte Caxias, um projeto voltado para crianças e adolescentes praticarem atividades físicas e culturais além da sala de aula, com oficinas de teatro, palhaçaria, esporte, dança e reciclagem. Apesar da dificuldade para realizar este tipo de ação social, segundo a atriz, a vontade de querer transformar a vida dessas pessoas a motivou e no último domingo ocorreu a segunda edição do projeto. “Eu tive que sair de Jardim Primavera para correr atrás dos meus sonhos. Eu olhava e via que ali estava pequeno para mim, que eu precisava de mais e para isso precisava sair de lá. E agora eu pensei que eu não poderia deixar essas crianças viverem a mesma coisa que eu vivi e passarem pela mesma dificuldade para enxergar oportunidades fora dali. Então a ideia surgiu de olhar para o lugar da onde eu vim e perceber que ninguém oferece nada para essas crianças”, disse.

Kizi criou o projeto social Curta Arte Caxias (Crédito: Vitor Vieira Fotografia)

E é por acreditar ser a cultura e a arte instrumentos de transformação social que a atriz criou a ONG em Duque de Caxias. “É mais fácil quando a criança mora onde tenha um teatro que é de graça, ou pelo menos uma biblioteca com entrada gratuita, mas tem lugares que não tem nada para oferecer para essas crianças. O Nós do Morro abriu um leque para a vida de algumas pessoas, como a atriz Roberta Rodrigues, o Thiago Martins e o Johnatan Azevedo que estão aí por conta de uma ONG”, afirmou. Entretanto, Kizi ressalta que a intenção não é transformar os assistenciados em atores, mas a partir do teatro permitir que eles possam enxergar o mundo além da realidade em que vivem. “As pessoas não olham para esses lugares, os políticos não olham para esse lugares e se não tiverem projetos como o Curta Arte Caxias, o Nós do Morro, o que vai ser dessas crianças?”, acrescentou Kizi em uma conversa emocionante com o site HT.

Para o próximo ano a atriz vai continuar gravando a segunda temporada de Ilha de Ferro e pretende voltar aos palcos, além de estrear o longa A Suspeita. “Vou passar a virada do ano agradecendo”, finalizou Kizi. E muitas crianças também têm muito o que te agradecer, Kizi.

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