Já está com saudades? Listamos 10 motivos que fizeram ‘Vai na Fé’ se tornar marco na teledramaturgia brasileira


Último capítulo da trama de Rosane Svartman emocionou, contou com participação de Negra Li cantando o tema de abertura da novela, repercutiu na internet se tornando um dos assuntos mais comentados dos trending topics do X (antigo Twitter), e já deixando a audiência ‘órfã’ de tramas que despertavam tanta empatia e identificação. Nós, que acompanhamos e adoramos um bom folhetim, fizemos uma retrospectiva para tentar entender nesta engenharia da história quais foram os principais gols para que ‘Vai na Fé’ seja considerada a novela mais bem sucedida no horário dos últimos anos na TV aberta. Vem revisitar a trama com a gente!

*Por Brunna Condini

“Com muita coragem, a gente tá de péA gente segue em frenteDe cabeça erguida e sonhos pra viverNada segura a gente, ninguém segura a gente”
O trecho da música tema de ‘Vai na Fé‘, que chegou ao seu final nesta sexta-feira (11), reflete bem a garra do povo brasileiro. Aliás, foi lindo assistir Negra Li cantando a música no último capítulo. A trama já é considerada um dos maiores sucessos dos últimos anos na faixa das sete da TV aberta e vai deixar saudade no horário que a partir da segunda-feira (14) será ocupado por ‘Fuzuê‘. O fenômeno de performance de ‘Vai na Fé, arrebatou famílias diversas, com muita emoção, humor, temas relevantes e fazendo com que o espectador se sentisse representado. E só aumenta a expectativa com o próximo folhetim escrito por Gustavo Reiz, que está fazendo sua estreia na Globo, e conta com direção artística de Fabrício Mamberti.
 No ar desde 16 de janeiro, a novela teve uma média geral de 23,3 pontos. Um acréscimo de 2,6 pontos para o horário das 19h. O último capítulo se tornou um dos assuntos mais comentados dos trending topics do X (antigo Twitter). Através da hashtag #VaiNaFe, que chegou ao topo, o público celebrou e se despediu – já com saudade – dos personagens. Aqui, também saudosos, listamos 10 motivos que podem explicar o motivo pelo qual o folhetim já é considerado um grande sucesso na teledramaturgia. Vai na fé! Vem conferir!
Negra Li canta no último capítulo de 'Vai na Fé' (Foto: divulgação/Globo)

Negra Li canta no último capítulo de ‘Vai na Fé’ (Foto: divulgação/Globo)

1 – História bem escrita e elenco bem escalado
A novela de Rosane Svartman também contou com autoria de Mário Viana, Pedro Alvarenga, Renata Corrêa e Renata Sofia, além de ter pesquisa de Paula Teixeira. Com direção artística de Paulo Silvestrini e direção de gênero de José Luiz Villamarim, retratou o brasileiro contemporâneo, com suas questões, pluralidade e emoções. A empatia pelas histórias e personagens foi natural. Os diálogos sensíveis, bem escritos, criativos e certeiros deram seu recado na maior parte do tempo, envolvendo o público nas tramas. Ao colocar uma lupa em alguns universos, a história falou da humanidade, com personagens em muitas camadas e intérpretes à altura. As ‘mini barrigas’ (período sem grandes acontecimentos) em alguns capítulos não se tornaram uma questão diante do belo conjunto da obra.
Rosane Svartman e seu time em 'Vai na Fé': golaço (Foto: Divulgação/ Globo)

Rosane Svartman e seu time em ‘Vai na Fé’: golaço (Foto: Divulgação/ Globo)

2 – Protagonismo preto
A novela teve quase 70% do elenco composto por atores negros e isso virou até notícia internacional. Os atores, em sua maioria, não estão em papeis marginalizados ou estereotipados, mas também em lugares de poder, bem-sucedidos, em todos os lugares, como na vida. Como sempre deveria ser. E isso também se estendeu atrás das câmeras, na direção e no time de roteiro. Que seja inspiração para as próximas produções.
Os personagem de Sheron Menezzes e Samuel de Assis, Sol e Ben, se casam no capítulo final de 'Vai na Fé' (foto: Divulgação/ Globo)

Os personagem de Sheron Menezzes e Samuel de Assis, Sol e Ben, se casam no capítulo final de ‘Vai na Fé’ (foto: Divulgação/ Globo)

3 – Por diversidade

A liberdade de ser e amar foi tratada com respeito e delicadeza, como no romance de Clara (Regiane Alves) e Helena (Priscila Sztejnman). Com a mesma sensibilidade foi tratada a descoberta da bissexualidade de Yuri (Jean Paulo Campos), que se apaixonou por Vini (Guthierry Sotero), mas terminou a novela com a personagem de Mel Maia, a Guiga. Apesar da abordagem ter sido acertada em ambos os casos, acreditamos que sexualidade do personagem de Jean Paulo poderia ter sido melhor explorada. E apesar do casal Clarena ter a torcida do público, o beijo entre as duas virou polêmica, mixando um pouco o rolê. Uma pena que beijar uma mulher na TV ainda gere tanto burburinho e por pouco quase não aconteça. Pelo visto, a censura aos beijos homoafetivos continua, mas é preciso naturalizar cada vez mais o amor e a telenovela pode ajudar e muito nisso.

*Vitinho (Luis Lobianco) e Anthony Verão (Orlando Caldeira) também acabaram ficando juntos no último capítulo. Aqui também achamos que o desenvolvimento da dupla poderia ter rendido e ficamos com vontade de ter visto mais.
Luis Lobianco e Orlando Caldeira fazem Vitinho e Anthony Verão, que ficam juntos no final da trama (Foto: Divulgação/ Globo)

Luis Lobianco e Orlando Caldeira fazem Vitinho e Anthony Verão, que ficam juntos no final da trama (Foto: Divulgação/ Globo)

4 – Contra o etarismo
Colocando no protagonismo uma mulher preta que batalha por sua família diariamente (Sol, vivida por Sheron Menezzes), a novela deu voz a muitas outras mulheres potentes que inspiraram a atriz na construção da vendedora de quentinhas que se tornou uma cantora de sucesso aos 40 anos. Mostrando que nunca é tarde para realizar sonhos, para se reinventar e mudar o rumo da vida. Wilma Campos, personagem de Renata Sorrah, em uma outra realidade, mais privilegiada, também comoveu quando falou sobre etarismo, após ter sofrido boicotes na carreira de atriz ao envelhecer. Ela dá a volta por cima e ganha até um papel em uma novela. Outra personagem inspiradora. Renata brilhou muito na pele da atriz que sempre amou sua arte, redescobrindo-a.
Renata Sorrah fez a inesquecível Wilma Campos que falou textos inspiradores em 'Vai na Fé', contra o preconceito e etarismo (Foto: Divulgação/Globo)

Renata Sorrah fez a inesquecível Wilma Campos que falou textos inspiradores em ‘Vai na Fé’, contra o preconceito e etarismo (Foto: Divulgação/Globo)

5 – Religião sem esteriótipos e preconceitos

A importância de respeitar a fé e a liberdade religiosa também teve seu devido destaque. E apesar da família da protagonista ser evangélica, sua fé foi mostrada sem esteriotipos. Evidenciando que sua religião era também uma força propulsora para superar as dificuldades encontradas pelo caminho, e instrumento de compaixão com outros seres. A trama, dando um claro recado contra a intolerância religiosa, mostrou um pouco da realidade do Candomblé, quando Ben procurou acolhida nesta religião em determinado momento da sua história.

Ben, personagem de Samuel de Assis, se inicia no Candomblé (Reprodução/ Globo)

Ben, personagem de Samuel de Assis, se inicia no Candomblé (Reprodução/ Globo)

6 – Temas atuais e relevantes

A novela trouxe para o centro do debate temas como a masculinidade tóxica, machismo, assédio, violência doméstica e sexual, relações abusivas e consentimento. Além de racismo, diversidade religiosa, relações homoafetivas, gravidez indesejada, descobertas sexuais, fofocas, fake news e o medo do ‘cancelamento’. Tudo com o peso e a medida que o assunto pedia e sem um didatismo exagerado. 

7 – Além do naturalismo 
Com muitos pontos altos, o folhetim lançou mão de possibilidades do seu elenco que foram além da atuação naturalista comum ao gênero: além da trilha sonora plural (e boa) – indo de louvores a funks nostálgicos, passando por Caetano Veloso – os atores puderam se experimentar cantando. Destaque para Emilio Dantas em algumas cenas musicais, mas especificamente, na interpretação de ‘Mal nenhum’, de Cazuza (1958-1990), ao lado de Caio Manhete, que fez Rafael, seu filho na trama. De arrepiar, tanto pela semelhança da voz do ator com a do cantor, como pela direção da cena. Emilio se tornou conhecido há 10 anos quando fez Cazuza no teatro, sob a batuta de João Fonseca, em ‘Cazuza — Pro dia nascer feliz’.
Caio Manhente e Emilio Dantas cantam 'Mal nenhum' de Cazuza (Reprodução/ Globo)

Caio Manhente e Emilio Dantas cantam ‘Mal nenhum’ de Cazuza (Reprodução/ Globo)

8 – Clara Moneke, a Katelícia
Entrevistamos a atriz no começo da trama e ali já era póssível prever que Clara é uma força da natureza. Em sua estreia na TV como Kate, ela deu um show à parte. Mostrando segurança artística e um repertório cênico digno de veteranos, a atriz conquistou o público, divertiu e emocionou na pele da intensa Katelícia. Além da fundamental representatividade do protagonismo negro, a personagem com contradições e complexidades, mostrou amadurecimento ao longo da novela. E também era amiga, solidária e resisliente…uma jovem inspiração para outras ‘Kates’ por aí. Aos 24 anos, nascida em São Paulo e cria de Campo Grande, Zona Oeste do Rio, Clara é filha de um nigeriano com uma brasileira e conquistou o país. Queremos ver Clara na TV em breve, e segundo noticiado, veremos, já que renovou contrato com a emissora. Estrela!
Clara Moneke brilhou muito em sua primeira novela, 'Vai na Fé' (Foto: Reprodução/ Instagram)

Clara Moneke brilhou muito em sua primeira novela, ‘Vai na Fé’ (Foto: Reprodução/ Instagram)

9 – Cena histórica

Descortinando um pouco do universo da TV, uma cena reuniu Glória Perez, João Emanuel Carneiro e Walcyr Carrasco, que encontraram a Wilma de Renata Sorrah em um restaurante, que ficou emocionada. Criativo, ousado e uma bela homenagem aos que criam os personagens que amamos ou odiamos.

Cena histórica de 'Vai na Fé' reúne autores consagrados: João Emanuel Carneiro, Glória Perez e Walcyr Carrasco, em cena com Renata Sorrah (Foto: Divulgação/ Globo)

Cena histórica de ‘Vai na Fé’ reúne autores consagrados: João Emanuel Carneiro, Glória Perez e Walcyr Carrasco, em cena com Renata Sorrah (Foto: Divulgação/ Globo)

10 – Finitude sem tabus e cercada de cuidado
E por fim, mas não menos importante, a novela falou de finitude com dignidade e beleza, através de Dora, personagem de Claudia Ohana, que merece todo o destaque. Ela recebeu o diagnóstico de um câncer que descobriu não ter cura. Aqui a doença não foi usada como instrumento da redenção, algo tão comum na dramaturgia, mas sim, para mostrar a  importância de se  despedir de alguém que amamos com o mesmo cuidado e atenção que dispensamos quando alguém nasce, por exemplo. Rosane Svartman abordou lindamente a importância dos cuidados paliativos. Inclusive, na cena da morte de Dora, a autora usou trechos do livro  ‘A morte é um dia que vale a pena viver‘ da médica Ana Claudia Quintana Arantes, Geriatria e Gerontologia do Hospital das Clínicas da FMUSP, especializada em cuidado paliativo.
A trama de Claudia Ohana em 'Vai na fé' abordou a dignidade ao morrer e a importância dos cuidados paliativos (Reprodução/ Globo)

A trama de Claudia Ohana em ‘Vai na fé’ abordou a dignidade ao morrer e a importância dos cuidados paliativos (Reprodução/ Globo)