Cinema & TV

Inovadora, a série Ilha de Ferro instiga a reflexão sobre a não-privatização, feminismo e nepotismo

“Não precisamos focar na política para abordar uma questão na série. Não precisamos levantar bandeiras ou ser panfletários. Achei muito interessante como as divergentes opiniões foram colocada na boca das pessoas, ao ponto de mostrar divergências de pensamento dentro de uma mesma família. São seres humanos de carne e osso que discordam, trazendo esta discussão para o cotidiano. Estamos falando, através da figura do Osmar Prado, sobre a importância de defender as nossas riquezas naturais e a nossa terra. Ele personifica esta luta”, adiantou a atriz Maria Casadevall

Publicado em 16/11/2018 | Por Ana Clara Xavier

Repleta de questionamentos políticos, a série Ilha de Ferro reflete os dramas e as adversidade da sociedade brasileira, colocando a lupa sobre o ambiente hostil de uma plataforma de petróleo. Inspirado nos trabalhadores que diariamente arriscam a sua vida em busca deste material fóssil, os 12 episódios –disponíveis na Globoplay – dosam os dramas psicológicos com as relações humanas. Sendo ‘o petróleo é nosso’ a frase mais recorrente no primeiro capítulo, a trama traz luz a questões latentes como nepotismo, feminismo, machismo e defesa da preservação das estatais como a Petrobras. “Ilha de Ferro representa um sintoma da vida de cada pessoa. Foi um processo que começou há alguns anos com dois roteiristas escrevendo dia a noite esta história. O meu colega Max Mallmann , infelizmente, faleceu antes de ver a estreia. De qualquer forma, é uma vitória de vida e da arte”, adiantou a roteirista Adriana Lunardi. Com a segunda temporada em processo de filmagem e a terceira já confirmada, Ilha de Ferro é uma exclusividade do aplicativo da Globo e terá o seu primeiro episódio exibido na Tela Quente, na segunda-feira que vem. O site HT bateu um papo com a equipe sobre todas as questões que circundam esta dramaturgia. Vem conferir!

Um novo passo da indústria brasileira

A série marca um novo caminho do audiovisual por inaugurar, no cenário brasileiro, uma produção ainda mais tecnológica sob destaque para o Globoplay que, a partir de agora, vai começar a produzir conteúdos exclusivos para o aplicativo. Funcionando como uma espécie de Netflix nacional, a plataforma on-demand também contará com séries e filmes comprados no exterior, além dos tradicionais produtos globais na íntegra. Encabeçando esta estreia nacional, Cauã Reymond, Klebber Toledo, Sophie Charlotte, Osmar Prado e Maria Casadevall são alguns dos atores que representam o time responsável por esta mudança tão importante da indústria.  “A equipe se uniu muito e acreditou neste projeto. Tive carta branca para conseguir o elenco que eu almejava e fui atrás de cada pessoa que está na trama. Foi um processo muito intenso, no qual nós precisamos nos dividir entre terra, ar, água e, até mesmo, fogo”, adiantou o diretor Afonso Poyart.

Elenco de Ilha de Ferro posando para foto em uma plataforma de petróleo feita a partir de efeitos especiais (Foto: Divulgação)

O conceito ‘O petróleo é nosso’ volta a ser discutido

O drama familiar é um dos principais pontos que compõe o enredo da série e a política se manifesta através destes núcleos. A trama traz um posicionamento bem forte com relação defesa das estatais brasileiras, não é por acaso que a frase comum no discurso de Getúlio Vargas, ‘o petróleo é nosso’, é uma das mais citadas logo no primeiro episódio. “Não precisamos focar na política para abordar uma questão na série. Não precisamos levantar bandeiras ou ser panfletários. Achei muito interessante como as divergentes opiniões foram colocada na boca das pessoas, ao ponto de mostrar divergências de pensamento dentro de uma mesma família. São seres humanos de carne e osso que discordam, trazendo esta discussão para o cotidiano. Estamos falando, através da figura do Osmar Prado, sobre a importância de defender as nossas riquezas naturais e a nossa terra. Ele personifica esta luta”, adiantou a atriz Maria Casadevall. De acordo com a equipe, a série está defendendo os petroleiros, além de mostrar outro lado dos profissionais que trabalham na Petrobras. Em um momento de crise da empresa, as lentes das câmeras de Ilha de Ferro mostraram trabalhadores honestos que levam uma vida extremamente perigosa fora de casa.

Maria Casadevall e Cauã Reymond integram a equipe que está embarcado na plataforma de petróleo. Na trama, Maria interpreta a chefe do local (Foto: Divulgação)

Na trama, o ator Osmar Prado interpreta um sindicalista que lutou toda a sua vida contra a privatização de empresas do Estado e a personagem de Maria é a neta deste homem que também compartilha os mesmos ideais.  “O João Bravo é um derrotado, porque ele viu o nosso petróleo ir embora. No entanto, ele passa para a neta, de forma muito simbólica, a esperança de reverter este processo. É um personagem que tem muito de mim. Assim como ele sou fracassado, mas não gostaria de estar um segundo na pele de quem me venceu”, afirmou o artista Osmar Prado. A narrativa também traz uma divergência ao discurso de Osmar e Maria que se apresenta na figura do político Horácio, interpretado por Herbert Richers Jr, que também é pai e filho de ambos os personagens citados anteriomente. O papel defende a privatização sob argumento de que existe uma possibilidade muito menor de haver corrupção dentro de uma empresa privada.

O sindicalista João Bravo, que é a favor da estatização, é interpretado por Osmar Prado (Foto: Divulgação)

Protagonismo feminino em ambientes machistas

Outro tema muito recorrente é o papel da mulher na sociedade, frente a ambientes considerados masculinos como é o caso de uma plataforma de petróleo. A presença escassa de mulheres engenheiras em cena já é um retrato deste mundo majoritariamente machista.  Trazendo um contraponto a esta realidade, os roteiristas colocaram cargas fortes nas personalidades femininas a exemplo de Júlia, personagem de Maria Casadevall. Na trama, a figura se torna chefe da plataforma o que acaba causando a revolta de algumas figuras masculinas.  “Não colocamos um texto feminista na boca das mulheres que aparecem em cena. A partir do momento que a minha personagem resolveu cursar Engenharia de Petróleo, ocupando espaços que são predominantemente masculinos, ela já está falando sobre feminismo”, afirmou Maria e Cauã Reymond logo completou: “Esta mudança já aconteceu. As personagens femininas veem se mostrando muito fortes. Elas têm que brilhar mesmo. Aprendi muito com a Maria e a Sophie, além de ir reconhecendo este espaço junto com o Dante. Tive um amadurecimento muito grande da série com relação ao machismo”.

Julia Bravo é interpretada por Maria Casadevall. A personagem irá trazer um lado mais feminino para o ambiente considerado masculino de uma plataforma de petróleo (Foto: Divulgação)

Produção grandiosa com o start em plataformas de petróleo

Ilha de Ferro é uma grande aposta da Globo para o futuro da emissora. Exatamente por isto houve um investimento grandioso para trazer resultados positivos, trazendo o melhor cenário e efeitos especiais possíveis. Com mais de 100 dias de gravação, a série conta com diversos cenários interessantes, sendo que a maioria se passa, inicialmente, no mar. “Através de uma parceria com a Petrobras, ficamos cinco dias gravando em uma plataforma de petróleo que estava ancorada em Angra dos Reis. Tudo o que o público verá em cena é uma mistura de várias técnicas, desde a filmagem nesta plataforma, em uma refinaria e na casa de máquina de um navio até elementos de computação e a cidade cenográfica gigante que os Estúdios Globo construiu. Acabou sendo um grande quebra-cabeça da produção”, explicou o diretor Afonso Poyart .

Cauã Reymond comentou a grandiosidade dos estúdios de gravação de Ilha de Ferro. “Fiquei impressionado. Era enorme mesmo”, afirmou. Na foto, ele aparece ao lado de Maria Casadevall (Foto: Divulgação)

Para viver estes personagens em alto mar, o trabalho foi muito mais complexo do que se poderia pensar. Para que as gravações na plataforma e refinarias fosse possível, os atores e a equipe precisaram encarar um curso de segurança e prevenção de acidentes, geralmente feitos por engenheiros que vivem nestes ambientes. Foi obrigatório ter este certificado para fazer as filmagens. “O nível de periculosidade de uma plataforma é de número seis, tão alto quanto de uma usina nuclear. As pessoas realmente podem morrer a qualquer momento. Não era, inclusive, lugar para uma equipe de filmagem”, brincou o diretor Afonso Poyart. Uma das cenas do primeiro episódio, inclusive, mostra a Maria Casadevall em uma das aulas que teve ao longo deste processo. Esta preparação inusitada durou cerca de uma semana na qual os atores conseguiram se reunir e ganhar uma intimidade.

Foto exclusiva do último episódio da primeira temporada. Na cena, o personagem de Cauã Reymond, Dante, e a de Maria Casadevall, Júlia, se unem para defender a plataforma de petróleo que está sofrendo ameaça com a invasão do papel de Klebber Toledo. Eles pedem a ajuda da Marinha que os resgata (Foto: Divulgação)

O curso foi um momento importantíssimo para a concepção dos próprios personagens, afinal, os atores conseguiram ter contato direto com engenheiros que enfrentam esta rotina. Através do papel de Cauã Reymond, inclusive, a série retrata o drama familiar de quem passa metade de sua vida em terra e a outra embarcada. “Quando comecei a pesquisar a vida destas pessoas, a primeira coisa que quis saber era a relação que eles possuíam com o núcleo familiar deles. Queria saber se as mulheres se mantinham fiéis, por exemplo. (risos) Consegui conversar com alguns petroleiros durante o curso. Realmente, esta dicotomia entre estes dois mundos era muito presente nos bate-papos na hora do almoço. Fiquei muito tocado por tudo o que ouvi, o que só intensificou a minha vontade de atuar. Foi uma das coisas que mais me encantou neste personagem”, afirmou o galã. Na série, o Dante não gosta de retornar a sua casa e prefere a vida no mar, principalmente, devido a sua relação conflituosa com a personagem de Sophie Charlotte.

Sophie Charlotte ao lado de Klebber Toledo em cena. Os dois tem um caso amoroso, embora ela seja mulher e ele irmão do personagem de Cauã Reymond (Foto: Divulgação)

Um novo jeito de criar

Ilha de Ferro está sendo considerada uma mudança no gênero de seriados no Brasil. Além de misturar suspense, ação e dramas psicológicos, o produto ainda conseguiu estruturar o perfil dos brasileiros aliado a efeitos especiais. É um combo de diversas novidades juntos, uma ousadia que, de acordo com o elenco, nenhum conteúdo audiovisual de série fez até o momento. “Acho que a nossa série abre um novo precedente para o gênero no Brasil”, garantiu o ator Klebber Toledo, que interpreta o irmão de Cauã Reymond. Quem aí vai aproveitar o seriado para maratonar?

Pesquisas relacionadas