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“HOMEM-FORMIGA” COM PAUL RUDD NO PAPEL-TÍTULO ESTREIA HOJE ENCERRANDO A FASE 2 DO UNIVERSO MARVEL

Com o lançamento da 12ª produção do Estúdio Marvel, a distribuidora Disney espera arrecadar mais de US$ 60 milhões só nesta primeira semana, apostando no roteiro ágil e nos efeitos de macrofotografia

Publicado em 16/07/2015 | Por Heloisa Tolipan

* Por Flávio Di Cola

A boneca Emília do Sítio do Pica-Pau Amarelo e o Dr. Hank Pym, cientista da agência de espionagem S.H.I.E.L.D. do Universo Marvel, possuem um segredo em comum para salvar a democracia e manter a paz mundial: a chave do encolhimento de seres e coisas, premissa de duas narrativas ficcionais divertidas, mas que também lidaram, e ainda lidam, com questões palpitantes de suas respectivas épocas.

Em 1942, no auge da Segunda Guerra, Monteiro Lobato publicou “A chave do tamanho” em que a desbocada boneca de trapo, vendo Dona Benta triste e abatida com o espetáculo de destruição vivido pela humanidade, decide viajar até a Caixa das Chaves que controla o tamanho do mundo e encolher tudo, assim interrompendo a carnificina. Mas, mesmo depois de se reunir na Casa Branca com o presidente Roosevelt completamente nu e reduzido à altura de 1 cm, a boneca não consegue acabar com o conflito e volta para o sítio depois de a humanidade voltar às suas dimensões normais.

Vários gênios da literatura encolheram ou agigantaram vertiginosamente o tamanho dos seus personagens de suas fábulas para divertir e envolver leitores de todas as idades:

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Em 1963, no auge da Guerra Fria, o Dr. Pym, trabalhando no nível subatômico, descobre a chave para a tecnologia do encolhimento e a habilidade de controlar as formigas, esperando – com esses recursos – combater o totalitarismo. Já nesta primeira adaptação para o cinema das aventuras do “Homem-Formiga” (Ant-Man, 2015, dirigido por Peyton Reed), o Dr. Pym (Michael Douglas) depois de sacrificar a mulher e o amor da filha Hope (Evangeline Lilly) numa missão para salvar o planeta, é enganado por Darren Cross (Corey Stoll) – um discípulo tão brilhante quanto inescrupuloso – que tenta vender essa tecnologia para uma corporação interessada em criar um exército de super guerreiros miniaturizados. Até que aparece o jovem engenheiro Scott Lang (Paul Rudd) que passando por uma fase de fracassos pessoais une-se, por acaso, ao já idoso Dr. Pym a fim de resgatar a fórmula do encolhimento, transformando-se no Homem-Formiga e no líder de uma multidão de insetos corajosos e obedientes.

Trailer oficial de “Homem-Formiga” 

A versão cinematográfica do Homem-Formiga, um dos fundadores dos Vingadores – grupo de super-heróis da Marvel criado em resposta à Liga da Justiça da concorrente DC Comics -, estava em estudos desde 1980, mas foi só em 2013 que a Marvel decidiu filmar o projeto no qual despejou cerca de US$ 130 milhões. Nesse meio tempo, a Marvel arrependeu-se de ter vendido os direitos de exploração de alguns dos seus personagens mais queridos para outros estúdios de Hollywood, como o “Homem-Aranha” para a Sony-Columbia, os “X-Men” para a Fox e o “Hulk” para a Universal e vê-los arrecadar rios de dinheiro.

Bastidores do filme “Homem-Formiga”

Em 2008, a Marvel decidiu produzir ela mesma as adaptações para a tela grande das proezas do seu clube de heróis, produzindo em apenas oito anos uma das mais impressionantes sequências de blockbusters da história do cinema, agora transformados em vigorosas franchises: “Homem de Ferro” (The Iron Man, 2008), “O incrível Hulk” (The incredible Hulk, 2008), “Homem de Ferro 2” (Iron Man 2, 2010), “Thor” (Idem, 2011), “Capitão América-O Primeiro Vingador” (Captain America: The First Avenger, 2011), “Os Vingadores” (The Avengers, 2012), “Homem de Ferro 3” (Iron Man 3, 2013), “Thor-O mundo sombrio” (Thor: The Dark World, 2013), “Capitão América 2-O Soldado Invernal” (Captain America: The Winter Soldier, 2014), “Guardiões da Galáxia” (Guardians of the Galaxy, 2014) e “Vingadores: Era de Ultrom” (Avengers: Age of Ultrom, 2015). Bem, com essa legião de heróis não deve ter sido muito difícil para a Marvel arrebanhar nas bilheterias a bagatela de quase US$ 9 bilhões, segundo o site Box Office Mojo, cifra que a coloca como detentora da franquia mais rendosa de todos os tempos, ultrapassada apenas pela do menino-feiticeiro Harry Potter. E é bom avisar que a após “Homem-Formiga”, a Marvel já tem mais dez projetos engatilhados para o seu Universo Cinemático até 2019.

Em Hollywood, “Dr. Cyclops” (1940) e “Viagem Fantástica” (1966) precederam “Homem-Formiga” da Marvel na exploração cinematográfica de um mundo miniaturizado. O clássico filmado durante o terror da Segunda Guerra ganhou o Oscar de Efeitos Especiais. Compare com os de hoje:

Mesmo tendo nas mãos uma fórmula infalível de sucesso, o Estúdio Marvel resolveu renovar em relação aos títulos anteriores e conduziu o projeto de “Homem-Formiga” com outra pegada: dar mais leveza e simplicidade ao roteiro, conferir aos personagens características mais humanas e empáticas, restringir a ação dentro de cenários mais realistas e contemporâneos, injetar doses maiores de um humor mais ligeiro e esperto e – finalmente – aproximar a visualidade de todo o filme à tendência atual do live action, ou seja, restaurar as possibilidades e a beleza do “real”.

Elenco de "Homem-Formiga"

Elenco de “Homem-Formiga”

Neste particular, as oportunidades oferecidas pelo “Homem-Formiga” são simplesmente espetaculares, já que grande parte do filme se beneficia do encanto ao mesmo realista e fantástico da macrofotografia, ramo da óptica que explora os objetos pequeníssimos, reproduzindo-os até o ponto do ínfimo e revelando para nós detalhes tão surpreendentes como assustadores que são invisíveis a olho nu. Quem não se espanta quando vê a macrofotografia de um ácaro ou do olho de uma aranha? E o filme “Homem-Formiga” caprichou nessa captação do ponto de vista de quem encolheu até o tamanho de 1cm de altura, oferecendo sequências espetaculares de ação, perigo e humor do interior desse micromundo em que transita o herói miniaturizado com suas falanges de formigas, mas sem abrir mão do arsenal de truques visuais de ponta providenciados pela Industrial Light & Magic, empresa de efeitos especiais fundada pelo diretor George Lucas, mas hoje incorporada à constelação Disney, assim como o próprio Estúdio Marvel.

O “Homem-Formiga” é o produto de décadas de experiências com o átomo. Mas nem sempre elas dão certo: o cinema produziu um elenco de monstros terríveis frutos da imprudência da ciência. Confira:

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Em “Homem-Formiga”, a identidade emocional mais próxima com os personagens (difícil de aflorar no caso de super-heróis quase inumanos) é sustentada pelo elenco carismático liderado pelo ator Paul Hudd – também creditado como co-roteirista do filme – que, com o seu jeitinho de good guy, popularizou-se no cinema norte-americano através de inúmeras comédias ligeiras. Mas quem dá um toque delicioso de categoria e auto-ironia ao cast é mesmo o veteraníssimo Michael Douglas na pele do Dr. Pym. Douglas admitiu ter aceitado esse papel um tanto inesperado para o conjunto da sua filmografia, porque queria se divertir um pouco mais com a profissão de ator – a mesma razão pela qual arriscou encarnar nas telas a vida amorosa do extravagante pianista hiper gay Liberace no filme “Behind the candelabra” (2013, de Steven Soderbergh), chocando o seu público mais conservador.

homem-formiga

O Estúdio Marvel e a Disney apostam tanto no sucesso de “Homem-Formiga” que, após a apresentação de todos os créditos finais, o público é informado de que “Ant-Man will be back”, como se já não bastasse a insinuação de que Hope – a filha do Dr. Pym – vai se tornar uma “Mulher-Formiga” num próximo episódio, além do contrato de longuíssimo prazo que Paul Rudd já assinou com a Marvel. Além disso, Michael Douglas saiu tão empolgado das filmagens que prometeu convencer a sua mulher, Catherine Zeta-Jones a atuar ao seu lado no papel da esposa do Dr. Pym que sacrifica sua própria vida depois de penetrar miniaturizada no interior de um míssil soviético em trajetória de colisão com Nova York a fim de desativá-lo, num eventual prequel sobre as origens do micro-herói da Marvel.

Todo esse conjunto de qualidades inerentes à invencível máquina de entretenimento de Hollywood faz de “Homem-Formiga” um inventivo produto de pura diversão, mas que poderá eventualmente agradar aos mais enjoados paladares e desarmar o pior dos humores.

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