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Em “Garota Exemplar”, o diretor David Fincher atualiza o tema do mocinho que pode ser assassino pelo viés da mídia-espetáculo

Veículo ideal para o talento de Ben Affleck, o longa em exibição no Festival do Rio segue a linha dos thrillers de reviravoltas de Alfred Hitchcock

Publicado em 29/09/2014 | Por Alexandre Schnabl

Causou boa impressão o longa “Garota Exemplar” (Gone Girl, de David Fincher, New Regency Pictures, 20th Century Fox e outros, 2014), exibido na noite deste domingo (28/9) no Cinépolis Lagoon, como parte da programação do Festival do Rio. O filme, veículo para escoar o talento de um Ben Affleck agora quarentão e mais encorpado, foi lembrado pelo público como uma produção que segue a tradição dos thrillers de bambas como Alfred Hitchcock e Brian de Palma, cheios de reviravoltas. Com certeza, o novo trabalho do diretor (Clube da Luta, O curioso caso de Benjamin Button, Seven: os sete crimes capitais) mantém o clima de tensão visceral e sucessão de surpresas que caracteriza sua obra, e a comparação com o lendário Mestre do Suspense é inevitável, pois é visível a inspiração em obras como “Suspeita” (Suspicious, 1941), e “Um corpo que cai” (Vertigo, 1958).

O roteiro, escrito pela própria autora do livro original, a norteamericana Gillian Flynn, faz valer seus anos como crítica televisiva à frente da Entertainment Weekly. Seu terceiro livro, homônimo do filme, é de 2012 e, pela sucessão de fatos, fica claro que a escritora fez o dever de casa certinho, estudando minuciosamente aqueles plôts onde o público chega a duvidar da inocência do mocinho e, depois, até mesmo da ingenuidade da possível vítima. Affleck interpreta um marido que, um dia, chega em casa e se depara com um provável sequestro de sua esposa e vai sendo, aos poucos, enredado em uma teia que o aponta o algoz de seu assassinato, embora não exista nem corpo, nem arma do crime.

O astro está ótimo e mais uma vez prova porque é figurinha badalada nos círculos hollywoodianos, seja como ator, seja como diretor ou produtor. E agora, mais velho, tende a solidificar mais ainda a carreira à frente das telas, já que não precisa mais se sujeitar a papeis de galã, voando para mais longe.

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Fotos: Divulgação

Mas é Rosamund Pike (Orgulho & Preconceito, Substitutos, Fúria de Titãs 2), como a mulher desaparecida quem ganha a oportunidade de sua vida interpretando um arquétipo que costumava ser caro à Hitchcock: o da loura cadáver, a mulher fria e calculista, com quem é bom não brincar. Ainda que lhe falte certo brilho nos olhos – se estivessem bem mais novas, a personagem cairia como uma luva nos colos de Sharon Stone ou mesmo de Kim Novak –, ela compõe com dignidade a personalidade da dúbia Amy Dunne e não vale a pena aprofundar mais a história por aqui.

O importante, além de enfatizar que o cineasta realiza com precisão a tarefa de deixar a plateia confusa, é afirmar que a história traz para os tempos atuais da Sociedade do Espetáculo a angústia de se sentir perseguido por um crime que talvez não se tenha cometido. Na Era de Ouro do cinema, poucos diretores souberam retratar tão bem, com os recursos que existiam na época, a ferocidade da espetacularização midiática que transforma dramas pessoais em atrações de quermesse, prontas para ser degustadas por ferozes consumidores dos meios de comunicação. Talvez o mais contundente desses exemplos clássicos seja “Crepúsculo dos Deuses” (Sunset Boulevard, de Billy Wilder, Paramount, 1950, com Gloria Swanson e William Holden) e seu retrato cruel das aves de rapina do jornalismo, na longa sequência final. Ou, trinta anos mais tarde, “Ausência de malícia” (Absence of Malice, de Sydney Pollack, Columbia Pictures, 1981, com Paul Newman e Sally Field).

Agora, David Fincher – realizador que possui domínio pleno do quanto a imprensa pode ser voraz, sobretudo no âmbito da proliferação da informação através das mídias digitais, vide seu longa “A rede social (The Social Network, 2010) – , parece dar um passo além, atualizando o tema do mocinho que pode ou não ser vilão para a realidade da mídia contemporânea, resumida em parte no papel da âncora de programa sensacionalista da TV vivida pela sempre competente Missi Pyle.

Serviço:

Festival do Rio 2014

“Garota Exemplar”, de David Fincher

Sessões:

30 de setembro às 2130h: São Luiz 3, Largo do Machado

30 de setembro ás 1845h: Roxy 3, Copacabana

A partir do dia 2/10 o filme entra em circuito comercial

Trailer oficial (Divulgação)

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