Flavio Tolezani, de ‘Dom’, fala de crimes na classe média, volta ao teatro e detona super exposição nas redes sociais


No ar em “Dom”, projeto audiovisual da Amazon, Flavio Tolezani traz à cena um debate importante sobre a questão do crime na classe média e a política de drogas, um dos temas centrais da série que estrela junto a Gabriel Leone no streaming. “Dom” encaminha-se para a terceira temporada. Ator também revisita sua carreira ao falar sobre “A Favorita”, sua primeira novela, e divulga seus mais novos trabalhos: As peças “Gagarin Way” e “Consentimento”. Sobre o contexto moderno no qual se encontram os artistas, vendo-se reféns das redes sociais, Tolezani é assertivo: “Número de seguidores, o quanto que a pessoa tem engajamento, o que é que tem a ver isso com o trabalho do ator? Eu não sei muito lidar com isso”.

*por Vítor Antunes

Um dos maiores sucessos cantados por Fernanda Abreu, Rio 40 graus, descreve a capital carioca como sendo uma “cidade de cidades misturadas, camufladas, de governos misturados, camuflados, paralelos, sorrateiros, ocultando comandos”. O excesso de adjetivos não parece inadequado, especialmente quando se conhece a complex[cidade] carioca. Um dos maiores sucessos no streaming, a série “Dom”, do Amazon Prime, também se põe a traduzir uma realidade que, embora seja parte do cartão postal, transcende a ele. No projeto audiovisual, Flávio Tolezani interpreta Victor Dantaspersonagem inspirado em Victor Lomba (1944-2018), pai de Pedro Dom (1981-2005), bandido famoso entre o fim dos anos 1990 e início dos anos 2000 por invadir, sem muito sacrifício, apartamentos da Zona Sul carioca, para praticar roubos. Conhecido como “bandido gato“, em razão da sua boa aparência, Pedro quase sempre tinha a entrada liberada pelos porteiros dos prédios, pois possuía o estereótipo do “rapaz acima de qualquer suspeita”. Seu pai, por sua vez, era envolvido com os grupos paramilitares seminais da capital fluminense. Esse suco de Rio de Janeiro é um dos mais bem sucedidos projetos do Prime Video, e encaminha-se para a terceira e última temporada.

Além deste projeto audiovisual da gigante americana, Tolezani estará de volta aos palcos com duas encenações. Uma delas é Consentimento – dirigida por Hugo Possolo e Camila Turim. Outra é a montagem “Gagarin Way“, dirigida por Marco Antônio Rodrigues. Esta última trata sobre funcionários em busca de melhores condições de trabalho que decidem sequestrar um executivo. Ao revisitar sua carreira, ator fala sobre a fundamental importância que “A Favorita“, sua primeira novela, teve na consolidação de sua imagem na TV e o prazer de estrear numa trama disruptiva, moderna. “Era uma mistura de prazer, de satisfação em estar lá, com o nervosismo que também era proporcional ao tamanho desse trabalho”. Ferozmente crítico ao uso das redes sociais como vitrine aos seus colegas de profissão, Flávio é definitivo em sua fala: “Está errado. Não é uma coisa boa. Acho que não é algo só dos atores, mas de todas as pessoas. Estão todos dependentes disso. Quando falamos dos atores, da minha profissão, acho um problema muito maior, porque é uma coisa que por si só já é destrutiva”

Flavio Tolezani: ator protagoniza a série “Dom” e volta aos palcos com duas peças (Foto: Vinícius Mochizuki)

COMANDO DE COMANDO, SUBMUNDO CLASSE MÉDIA 

Ainda baseado na canção de Fernanda Abreu, de onde tiramos o trecho acima, “Dom” dialoga com a questão do crime na classe média e numa família teoricamente acima de qualquer suspeita por ser economicamente privilegiada, além de revelar todos os matizes do crime organizado na capital carioca. Sobre a série, Flávio diz que “uma das discussões mais fortes no projeto é, justamente, mostrar que esse bandido gato, como o Pedro Dom era tratado, não se enquadrava no estereótipo que a população compreende como sendo o de um criminoso. Por ser loiro, encaixado num padrão, de classe média alta, era bem recebido nos prédios onde ia praticar os roubos. Ele não levantava suspeita”.

Em “Dom”, Flávio dá vida a Victor Lomba, pai de Pedro Dom. Este, por sua vez, também é uma figura controversa na vida real. A ele é atribuída a participação em grupos de extermínio e paramilitares como a Scuderie LeCoq, famosa nos anos 1970. Condutor da trama, Victor, o personagem, transita entre o herói e o anti-heroi. E Tolezani fala sobre esse dualismo: “Eu não acho que o Victor seja um herói de jeito nenhum. Ele é extremamente controverso e, justamente por isso, uma figura humana. Essa construção dentro da série, desde o roteiro, mostra-se muito muito rica. Talvez seja algo que contribua em seu sucesso. São pessoas reais. O próprio Victor tem consciência desses erros, e justamente por isso tem atitudes radicais para reverter e consertá-los. A controvérsia é grande e ela é necessária para que a série aconteça”. Sobre compor esta personalidade multifacetada, Flávio diz não ser algo fácil. “Preciso sair de um lugar comum e confortável pra mim. Afinal, o personagem tem uma personalidade completamente destemida”. E prossegue: “Muito [da profundidade do trabalho] se deve à orientação e à direção do Breno Silveira (1964-2022) e ao trabalho coletivo de todos os atores.

Os absurdos que estão dentro da história são reais quanto à intensidade dos acontecimentos. Pedro e Victor eram capazes de fazer muitas coisas. Eles eram muito fora da curva – Flávio Tolezani

Breno Silveira, o diretor, morreu tão logo a série estava em processo de finalização. Ele produzia um filme no interior de Pernambuco, quando sofreu de um mal súbito. Tolezani diz que o falecimento de Breno é algo “difícil de se medir, de se entender o tamanho. É um artista que se vai, e que, no meu ponto de vista, estava no auge. Ele era alguém ascendente. Estávamos num contato muito próximo, diário, com trabalho em andamento. É algo muito duro, difícil. Ele era extremamente apaixonado, obcecado mesmo. Uma pessoa muito especial. Trata-se de uma perda que choramos até hoje. Preciso registrar a delicadeza de dizer que eu tive com ele uma troca muito intensa e vou carregar isso pro resto da minha vida e em todos os meus trabalhos depois de “Dom”, o que aprendi com o Breno”.

Flavio Tolezani e Gabriel Leone. Os protagonistas de “Dom”, da Amazon (Foto: Divulgação/Amazon)

O PURGATÓRIO, A BELEZA E O CAOS

Tanto em “Dom” como em “Verdades Secretas“, os personagens do ator lidam com a questão das drogas, cada um à sua maneira. Na trama de Walcyr Carrasco, o personagem de Flávio perde-se no vício do crack. Como Tolezani enxerga a política de combate às drogas e o mergulho destes personagens nesta seara? “Trata-se de uma doença, uma doença social, uma doença química. E em ambos os casos há a destruição praticamente total do núcleo familiar, de todas as pessoas que estão ao redor, não só do dependente como de todos que estão com ele. Mergulhar nesse universo, para mim, como ator, é algo que me agrada muito. São situações muito dramáticas,  radicais e que demandam um aprofundamento no trabalho de composição. Não trata-se apenas de uma história sendo contada, mas algo que vai atingir as pessoas e trazer reflexão. Ainda hoje recebo contato de pessoas que foram dependentes químicas. Muita gente passa por isso e tem dificuldade de abrir, tem vergonha, se fecha”.

Acho que o grande erro da política de combate às drogas no nosso país, e em grande parte do mundo, é não lidar com o adicto como dependente químico, como um doente, mas como um criminoso. Partindo dessa premissa, é difícil que o tratamento seja bem sucedido – Flávio Tolezani

Em “Verdades Secretas”, Flávio Tolezani foi Roy, um homem que perde a luta contra as drogas (Foto: João Cotta)

Uma crítica recente da classe artística vem sendo a necessidade de se estar com  muitos seguidores para assim valer um convite a um trabalho na TV ou cinema. Não são poucos os profissionais recrutados especialmente por esta razão. Além disto, muito artistas optam por exibir sua vida desmedidamente nas plataformas digitais. Excesso de conexão e exposição. Para Tolezani, essa “dependência já diz tudo. Está errada, não é uma coisa boa. E além dos atores, as pessoas estão todas dependentes disso. Quando falamos dos atores, da minha profissão, acho um problema muito maior, porque trata-se de uma coisa que por si só é destrutiva”.

Expor sua vida pessoal é algo que não tem nada a ver com o trabalho de ator, mas com ser uma celebridade e o pior é isso ser determinante para que os atores sejam contratados para determinados trabalhos. Número de seguidores, o quanto que a pessoa tem engajamento, o que é que tem a ver isso com o trabalho do ator? Eu não sei muito lidar com isso. Acho errado e, ao mesmo tempo, não sei lidar minimamente pra que isso funcione de uma forma confortável. Acho, repito, que qualquer dependência é um problema – Flávio Tolezani

Flávio Tolezani é crítico ao uso excessivo das redes sociais (Foto: Vinícius Mochizuki)

O primeiro grande papel do ator foi em “A Favorita“, igualmente um incontestável sucesso na história das telenovelas. Fez muita diferença estrear numa novela das 8 e no núcleo principal logo de cara? “Fez. Nem consigo dizer hoje como seria se fosse outro trabalho. Foi algo que me  deixou bastante nervoso por estar ao lado de pessoas que eu admirava tanto, numa novela que estava com uma audiência lá em cima e era a coisa mais falada do País. Uma responsabilidade enorme. Muito bom estrear assim. Era essa mistura de prazer, de satisfação em estar lá, somada ao nervosismo que também era proporcional ao tamanho desse trabalho”, finaliza.

Flavio Tolezani estreou em “A Favorita”, como Marcelo Fontini, um os pivôs da trama (Foto: Divulgação/TV Globo)