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Elenco da nova série da Globo, Filhos da Pátria, usa a trama para criticar o momento político atual: “A corrupção existe no país desde o princípio, mas nunca foi tão descarado”, lamenta Alexandre Nero

Matheus Nachtergaele, , Alexandre Nero, Flávio Bauraqui e Jéssica Ellen fazem diferentes personagens na trama, mas possuem ideias muito parecidas com relação a situação do Brasil

Publicado em 15/08/2017 | Por Ana Clara Xavier

“Toda nossa esperança é somente lembrança do passado / A alta cúpula vive contagiada pelo micróbio da corrupção / O povo nunca tem razão, estando bom ou ruim o clima / Somente quem está por cima é a tal dívida externa / E o malandro que faz aquele empréstimo / E leva os vinte por cento dela para tirar”, afirma o trecho da música Quando O Morcego Doar Sangue. A letra de Bezerra da Silva é o tema chave da nova série da TV Globo, Filhos da Pátria, que busca no passado uma reflexão sobre a sociedade atual. A ideia da trama do roteirista Bruno Mazzeo é investigar como surgiu o jeitinho brasileiro, que molda a corrupção que estamos sofrendo atualmente, viajando quase 200 anos no passado para o dia seguinte a declaração de independência. Coincidência ou não, os primeiros episódios foram lançados na Globo Play para assinantes no dia seguinte ao arquivamento do processo contra o presidente Michel Temer pela Câmara dos Deputados. Na ocasião, 342 deputados deveriam decidir aprovar ou recusar a denúncia contra Temer que havia sido feita pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, com base na delação premiada de Joesley Batista. “Foi muito grave o que aconteceu. As mesmas pessoas que depuseram uma candidata eleita não investigaram crimes muito maiores do atual presidente com relação aos que fizeram Dilma sair de seu cargo. Enche ainda mais de sentido todos os objetivos que o trabalho já tinha. A equipe da série fica honrada de mostrar isso para os brasileiros”, lamenta o ator Matheus Nachtergaele que faz parte do elenco assim como Fernanda Torres, Alexandre Nero, Johnny Massaro, Flávio Bauraqui, Jéssica Ellen e outros.

Confira o que vai rolar na trama 

Na coletiva de imprensa que rolou na última quinta-feira, os atores falaram sobre a importância de falar sobre a forma de agir dos brasileiros que resulta no cenário corrupto atual. “A série vai ser lançada na melhor época possível porque antes a corrupção estava quente, agora está em ebulição. É importante mostrar como o brasil é desonesto. Nós não temos mais para onde correr porque todos os políticos são corruptos. Acho que eles estão, inclusive, roubando os papéis dos comediantes porque é tão absurdo o que estão fazendo que não dá mais para exagerar. Não faço ideia em quem votar nas próximas eleições, por exemplo”, brinca o ator Flávio Bauraqui. Alexandre Nero concorda com a falta de opção que Flávio levantou e afirma não perspectivas favoráveis ao futuro da nação para os próximos anos. “Tenho uma absoluta desesperança no Brasil, principalmente, depois do arquivamento do processo do Temer. Acredito que só tende a piorar, cada vez mais. As pessoas tiram os bens da gente e nós só conseguimos rir disso, ninguém fez nada para reverter. A corrupção existe no país desde o princípio, mas nunca foi tão descarado. As eleições de 2018 não irão mudar nada nesse cenário, mesmo assim precisamos estudar muito os candidatos sem acreditar em artista ou na imprensa”, aconselha.

O voto é apenas uma das ferramentas que os artistas aconselham usar na luta contra a corrupção. O elenco afirma que cada um dentro de sua realidade pode fazer algo para ajudar, “Como ator, busco me dedicar ao cinema investigativo e menos copiador do produto americano e escolher a dedo os projetos dos quais posso fazer parte. No entanto, isso não significa que eu não queira entreter as pessoas. O Pacheco é divertido. Mas acredito ser necessário levar programas que questionem e lutem contra o sistema corrupto atual. Por isso estou viajando pelo Brasil com o teatro, indo para cidades menores porque me interessa levar a arte para todas as pessoas. Cada um tem o seu próprio instrumento para lutar contra a corrupção”, garante o ator Matheus Nachtergaele.

A série busca investigar no passado o que está acontecendo no momento atual (Foto: Divulgação)

O tema corrupção está em voga e a série busca mostrar diferentes atitudes incorretas que podem ser tão ruins quanto o que se discute hoje em dia, investigando a origem da situação política atual. Na trama, um escravo conseguiu sua alforria, por exemplo, mentindo aos seus senhores que havia adquirido um problema na perna que o impossibilitava de cumprir com suas funções.  “Sempre tentamos nos livrar da culpa e colocar a corrupção no outro, mas o nosso país é corrompido e temos que perceber, no dia-a-dia, qual as coisas que nos fazem ceder aos caminhos mais fáceis”, critica a atriz Jéssica Ellen. Sonegar impostos, ultrapassar o sinal de trânsito e utilizar uma rede de luz pirata são formas de infringir a lei.O jeitinho brasileiro representa uma série de pequenas corrupções. A classe mais humilde sempre foi explorada e eles também tentam, de alguma forma, explorar o sistema para benefício próprio. Não acho que os pobres e os negros sejam os bandidos, porque os verdadeiros ladrões são os políticos de terno e gravata. Eles matam muito mais gente”, considera Alexandre Nero.

Geraldo é um servidor público que resolve entrar para o mundo da corrupção ao ser seduzido por um colega de trabalho (Foto: AgNews)

Em meio às investigações sobre o jeitinho brasileiro, a série fala sobre a dependência das pessoas pelo dinheiro. Para o ator Matheus Nachtergaele, o buraco é muito mais embaixo e o principal responsável pelo problema do sistema é a sua própria organização. “O capitalismo é uma prisão horrível porque não podemos parar de trabalhar e decidir não pagar mais os impostos. A população que está sofrendo com a saúde pública, por exemplo, paga os impostos mesmo ganhando pouco. É deprimente ver a quantidade de dinheiro desviada dos cofres públicos e observar o estado dos hospitais. Cadê o amor pelas pessoas? Por isso acredito que a base da sociedade deve ser valorizada. Professores precisam ganhar bem e médicos não podem se dedicar apenas a fazer plásticas em mulheres ricas”, acredita o artista. Seria necessário, segundo ele, reformular o modelo atual colocando um maior poder aquisitivo em profissões que formam o país. “Política não deveria ser algo tão bem remunerado e não poderia estar ligada aos negócios. Tinha que ser uma vocação assim como é para padres, artistas e médicos. Nós deveríamos ter o direito de despedi-los porque somos os patrões dessa galera. Um político deveria passar pela moça do café e perguntar se está tudo bem, se precisa de alguma coisa, porque aquela mulher é quem paga o salário dele. Nós fazemos reverência ao encontrar deputados ou governadores na rua, mas eles é que deveriam nos reverenciar”, garante Matheus.

O comediante Matheus Nachtergaele fará um político corrupto (Foto: AgNews)

Apesar do elenco lamentar muito o que está acontecendo no cenário político, consideram o ato de falar sobre o presente muito positivo. A série, por exemplo, abre o debate para as escolhas dos cidadãos quanto a sua forma de agir em sociedade. Isto aliado as delações ajuda o povo a agir politicamente. “Nós agora estamos sabendo o nome das pessoas e a quantidade de dinheiro que elas acumularam com o desvio dos nossos bens. Isto é muito positivo. Mas como lutar para um país que não cuida de si mesmo? Ao pagar os impostos, por exemplo, esperamos boas escolas para as nossas crianças, saúde de qualidade, transportes públicos que funcionam e um bom saneamento básico. No entanto, isto não é feito”, critica Matheus Nachtergaele.

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