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Depois de 26 anos, o Anima Mundi faz ‘vaquinha’ para viabilizar a edição de 2019

Em conversa com o site HT, a diretora executiva do Anima Mundi - Festival Internacional de Animação no Brasil, conta as dificuldades para fomentar a 27ª edição do evento. Faltam 10 dias para terminar o crowfunding em parceria com o Benfeitoria

Publicado em 19/06/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Rafael Moura

“Ao longo dos últimos 26 anos, o Anima Mundi apresentou mais de 10 mil filmes de animação que, de outra forma, não chegariam aos cinemas”. Foi com essa frase que a diretora executiva do evento, Fernanda Cintra, iniciou a conversa com o site HT. O festival pede socorro para fomentar a edição de 2019 que está com uma campanha de crowdfunding em parceria com o Benfeitoria. Faltam apenas 10 dias para encerrar 0 financiamento coletivo que arrecadou apenas 50% da meta inicial de R$ 400 mil para a realização de sua 27ª edição, prevista para acontecer entre os dias 17 e 21 de julho, no Rio de Janeiro, e 24 e 28 de julho, em São Paulo.

“Muitos festivais no mundo são financiados por políticas públicas de governo. É preciso encontrar novos caminhos de sustentabilidade, mas também é necessário que o poder público invista em seus festivais para fortalecer e potencializar cada vez mais nossa indústria criativa. Fomos homenageados no maior festival do mundo na França, o Festival de Annecy, no ano passado, destaque em grandes premiações este ano. A animação brasileira vive um grande momento e não podemos deixar essa oportunidade passar”, explica a diretora executiva do Anima Mundi, Fernanda Cintra.

O Brasil já foi o décimo maior mercado de cinema do mundo. O país tem um grande público no gênero de animação. “Como a maior parte dos festivais audiovisuais brasileiros, o Anima Mundi tem, desde 2017, enfrentado uma queda no número de patrocinadores e tem buscado se estruturar diante dessa nova realidade, com cortes e otimização de custos e processos”, ressalta Fernanda, acrescentando: “É preciso entender que festivais brasileiros de audiovisual são parte fundamental do desenvolvimento da indústria de cinema no Brasil. Ganharam representatividade internacional, impulsionaram o setor de formação na área, descobriram talentos e trouxeram ao Brasil conteúdos importantíssimos para estimular o mercado”.

Como o modelo de campanha é ‘Tudo ou Nada’, o Anima Mundi precisa atingir sua meta inicial de arrecadação para utilizar o dinheiro doado. Até agora foram alcançados R$ 203.000,00, um valor muito abaixo do objetivo um, que é realização da mostra de filmes no Rio de Janeiro e em São Paulo; a segunda com R$ 600 mil terá a mostra de filmes e do Papo Animado no Rio de Janeiro e em São Paulo; e se chegar aos R$ 800 mil irá realizar a mostra de filmes e do Papo Animado no Rio de Janeiro e em São Paulo e Anima Fórum em São Paulo. Para participar da iniciativa, o público pode acessar o link da onde possui as três metas. O festival tem buscado também apoio junto a produtoras, estúdios de animação e animadores. As doações vão de R$ 20,00 a R$ 50 mil.

Fernanda nos conta que o evento já “revelou talentos como Carlos Saldanha e o Alê Abreu, ‘O Menino e o Mundo’, que concorreram ao Oscar. O Anima Mundi permitiu a estruturação do mercado de animação, que não se resume à cinematográfica, estendendo-se à TV e ao mercado publicitário. Dentro de sua programação criou o Anima Forum, grande encontro de mercado focado no desenvolvimento do setor de animação. “Foi lá que as grandes associações nasceram e continuam a nascer, como o fórum das animadoras que foi fundado no ano passado e vem ganhando expansão e representatividade na área”, enfatiza.

O festival foi criado em 1993 por Aída Queiroz, Cesar Coelho, Lea Zagury e Marcos Magalhães, responsáveis pela curadoria do Festival. Desde a criação, exibiu mais de 10 mil filmes de animação do mundo inteiro a preços populares, entre longas e curtas-metragens, além de promover oficinas abertas e gratuitas, debates, exposições, entre outras atividades. O Anima Mundi surgiu como resistência. Enquanto o país vivia o trauma e a escassez econômica, num cenário cultural árido no país, devido ao fim dos incentivos à produção audiovisual, apresentando-se como o primeiro Festival Internacional de Animação do Brasil. Um primeiro esboço no papel em branco.

“Nós exibimos apenas em duas salas, de 60 e 90 lugares, e com uma oficina de Estúdio Aberto para o público. E apesar de uma primeira edição, pequena, trouxemos grandes nomes da animação mundial, como o lendário animador holandês Paul Driessen, que participou do clássico dos Beatles, ‘Yellow Submarine’ (1963), e o americano David Silverman, diretor da então recém-lançada série ‘Os Simpsons'”, conta a diretora executiva. Nos últimos 26 anos, o Festival cresceu, atingiu, conquistou e emocionou milhares de brasileiros. Recebeu vários ganhadores do Oscar, formou novos animadores que hoje são destaque na indústria da animação nacional e internacional. Foi palco para muitos artistas iniciantes e profissionais, que tiveram a oportunidade de apresentar, pela primeira vez, seus projetos diante de uma plateia — fossem eles feitos no interior do Piauí, em uma cidade do Uzbequistão ou em uma metrópole europeia.

O Festival virou a referência no setor, catalisou e ajudou a consolidar um mercado próspero de animação, que gera dinâmica financeira, educação, empregos diretos e indiretos dentro da indústria criativa. “Acho que enquanto sociedade, precisamos entender a importância de termos uma política de investimento em cultura séria e consistente. E que as empresas se dêem conta do potencial econômico que a cultura tem em um país, principalmente no Brasil, que conta com grandes profissionais e com projetos fundamentais para o desenvolvimento de nossa sociedade”, destaca Cintra.

Acontecendo de forma itinerante em mais de 40 cidades, levou a linguagem como ferramenta pedagógica a centenas de escolas públicas, com o Anima Escola, formando mais de 15 mil alunos para trabalhar a animação em sala de aula junto a 2.500 professores. E o Anima Forum, voltado para o fomento, profissionalização e internacionalização do mercado de animação. A última edição do Festival, em 2018, exibiu mais de 500 filmes, empregou mais de 700 pessoas, movimentou R$ 26,8 milhões e gerou R$ 2,6 milhões em impostos, tendo público estimado de 50 mil pessoas.

Desde 2012, o Anima Mundi é qualificado pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA (Academy of Motion Pictures Arts and Sciences) e o curta-metragem vencedor do Grande Prêmio Anima Mundi é elegível a participar das seleções para a disputa do Oscar. Neste ano, ‘Animal Behaviour’, de David Fine, ganhador do Grande Prêmio de 2018, concorreu ao Oscar de melhor curta-metragem de animação. No ano passado, o francês ‘Negative Space’, de Max Porter (EUA) e Ru Kuwahata (Japão), foi premiado, indicado pelo Anima Mundi e entrou na disputa do Oscar 2018. Outros dois curtas indicados pelo Anima Mundi foram candidatos à disputa do Oscar: em 2013, ‘Head Over Heels’, do Reino Unido (Melhor Filme Anima Mundi 2012), e em 2014: ‘Feral’, coprodução Portugal e EUA (Melhor Filme Anima Mundi 2013).

Foi no festival, entre as salas de exibição e os corredores do evento, que pessoas de diversas idades tiveram a primeira experiência de animar um personagem com massinha, ver um zootrópio em ação e entender o passo a passo da animação. “É preciso investir e entender que o retorno vai muito além de somente isenção de impostos. Uma empresa que investe em cultura e em um festival com a longevidade do Anima Mundi tem um retorno de longo prazo, pois fica na mente do público que aquela empresa permite que aquele festival – que leva 50 mil pessoas aos cinemas – aconteça. É um ganho imensurável”, finaliza.

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