Daniel Rocha mostra talento multifacetado como ator e produtor, fala de instabilidade na profissão e fé cristã


Ele esteve em ‘Terra e Paixão’ após hiato na TV e celebra lançamentos que evidenciam suas escolhas plurais como artista, entre elas, a série ‘Luz’, primeira produção infantojuvenil brasileira da Netflix. Como ator e produtor associado, também está no premiado ‘The Smoke Master’ sobre a legalização da maconha e filma o longa ‘Recife Assombrado 2’. Produzindo o sonhado espetáculo, ‘Um Bonde Chamado Desejo’, do dramaturgo norte-americano Tennessee Williams, Daniel entendeu que o ator contemporâneo precisa se autoproduzir, diz que sente falta de fazer mais TV e defende o gênero novela. “Tive momentos de estar em casa caçando trabalho e não pintar nem um teste, mas, graças a Deus, o cinema me abraçou e trabalhei. Só que também adoro fazer novela, é o gênero mais popular. Vivemos em um país muito desigual, nem todo mundo tem grana para pagar internet, para assinar um streaming, então as novelas ainda têm um grande espaço na vida do público”. E também revela experiência sobrenatural no set de filmagens

*Por Brunna Condini

Daniel Rocha passou sete anos longe da TV,  jejum quebrado recentemente com a participação que fez em ‘Terra e Paixão‘ em dobradinha hilária com Tatá Werneck. Multifacetado, o ator vem se experimentando no streaming e no cinema em diferentes lugares e em trabalhos que evidenciam sua versatilidade, como na série ‘Luz’, primeira produção infantojuvenil brasileira da Netflix, e no longa ‘The Smoke Master‘, que ganhou o Prêmio do Público na Mostra Internacional de Cinema de 2022, estreando recentemente na Netflix, ficando entre os top 10 da plataforma. Ainda assim, Daniel diz que sentiu falta da televisão. “Antes deste tempo longe, estava contratado há muitos anos pela Globo, fazendo praticamente uma novela por ano. Até que o Walter Salles e o Sergio Machado criaram ‘Irmãos Freitas’ (Amazon), uma série sobre o Popó (Acelino Popó de Freitas), o boxeador. Era uma oportunidade única, fui escolhido entre 800 atores. Conversei com a Globo e fui fazer. Depois fiz mais séries, cinema e minha agenda foi se preenchendo de trabalhos multigêneros, o que foi um exercício muito bom”, lembra.

“Aí você vai me perguntar: Daniel isso cobriu sete anos da sua vida? Não. Tive momentos de estar em casa caçando trabalho e não pintar nem um teste, mas, graças a Deus, o cinema me abraçou e trabalhei. Só que também adoro fazer novela, é o gênero mais popular. Vivemos em um país muito desigual, nem todo mundo tem grana para pagar internet, para assinar um streaming, então as novelas ainda têm um grande espaço na vida do público”, acrescenta ele, que também começou a filmar o longa ‘Recife Assombrado 2‘, em que atua e é co-produtor.

Daniel Rocha mostra talento multifacetado como ator e produtor, observa instabilidade na profissão e revela planos (Reprodução/Instagram)

Daniel Rocha mostra talento multifacetado como ator e produtor, observa instabilidade na profissão e revela planos (Reprodução/Instagram)

Daniel é um rosto conhecido do público faz tempo. O paulista estreou na Globo em ‘Avenida Brasil‘ (2012), mas faz teatro desde os 15 anos. “Aos 17 fui aceito no CPT (Centro de Pesquisa Teatral) e o Antunes Filho (1929-2019) foi um grande mestre, me formou”. Aos 33 anos e com uma estrada considerável, o ator reflete sobre a instabilidade para viver do ofício no país. “Tenho aprendido a lidar com isso todos os dias. Ainda fico muito triste quando quero fazer um personagem, levo uma negativa e sabia que eu podia contribuir para o papel. Fico triste porque amo trabalhar, não cai aqui sem querer, foi uma escolha para o resto da vida. E é uma das poucas profissões em que você vai ficando melhor com a experiência. Antunes dizia: “Um ator só evolui na profissão, quando evolui como ser humano”. Isso me emociona”.

Depois dos 30 anos, entendi que o ator contemporâneo tem que se autoproduzir. Quais são os personagens que eu quero fazer e o mercado provavelmente não vai me dar? Comecei a enxergar a vida de uma maneira criadora. Tanto que estou produzindo uma peça que sempre quis fazer, ‘Um Bonde Chamado Desejo’. Estou há 17 anos esperando envelhecer para fazer esse personagem (Stanley Kowalski, eternizado no cinema por Marlon Brando). Também estou desenvolvendo histórias agora – Daniel Rocha

Daniel Rocha está na série 'Luz', primeira produção infantojuvenil brasileira da Netflix (Divulgação)

Daniel Rocha está na série ‘Luz’, primeira produção infantojuvenil brasileira da Netflix (Divulgação)

Sobrenatural e fé

Segundo filme pernambucano mais visto em 2019, ‘Recife Assombrado‘ tem sua continuação filmada no momento e previsão de estreia em 2025. Daniel vive mais uma vez o protagonista, Hermano. “O longa é baseado nos contos de ‘Assombrações do Recife Velho’ do Gilberto Freyre, é é sobre as assombrações, mitos e folclores daquela região. O primeiro filme foi tão bem em Pernambuco que só perdeu para ‘Bacurau’. Faremos o terceiro filme, é uma trilogia”, anuncia. “É uma produção regional, então é muito importante para a população. Tem um apreço local, do estado, pela realização. Além do gênero ser pouco comum, o que desperta o interesse. Por lá todo mundo tem uma história de assombração, é bom ver isso virar história de cinema”. E revela uma experiência sobrenatural que presenciou:

Daniel rocha estará também em 'Recife Assombrado 2' (Divulgação)

Daniel rocha estará também em ‘Recife Assombrado 2’ (Divulgação)

“Neste longa aconteceu uma coisa bem bizarra. Estávamos filmando há uma semana no cemitério. E um dia, eu estava deitado em uma cova, era tipo três da manhã. Gravava com um ator pernambucano, o Washigton Machado, que é espiritualista, sensitivo. Ele estava esperando eu fazer o meu take e foi dar um rolê, olhar as placas, imaginar a história das pessoas. De repente, ele viu uma sombra passar devagar entre os corredores e imaginou que era um coveiro, um segurança. Foi até o final do corredor atrás da pessoa, só tinha uma saída, foi olhando fileira por fileira, e no fim das contas, não havia ninguém. Bom, depois de anos, o diretor (Adriano Portela) foi fazer um trabalho espiritual e tinha uma energia presente com ele, porque fomos filmar neste lugar sem pedir ‘autorização'”.

Daniel fala  também no que tem fé:

Sou cristão. Vejo a religião de forma leve, sem preconceitos, julgamentos. Mas não creio em vida após a morte. Acredito em Jesus Cristo, converso com ele, que me responde, faço minhas orações. Fui criado na igreja evangélica, gosto de ir, me sinto bem. É muito louco quando falo sobre isso no meu meio, porque rola preconceito. E eu até entendo, estou de acordo no caso de falarem do fanatismo, dos ‘fãs clubes’. Não suporto isso. Acredito no que Jesus Cristo pregava, o amor ao próximo. Jesus não era fanático, foi um cara incrível – Daniel Rocha

"Depois dos 30 anos entendi que o ator contemporâneo tem que se autoproduzir. Quais são os personagens que eu quero fazer e o mercado provavelmente não vai me dar?" (Divulgação)

“Depois dos 30 anos entendi que o ator contemporâneo tem que se autoproduzir. Quais são os personagens que eu quero fazer e o mercado provavelmente não vai me dar?” (Divulgação)

Aos mestres com carinho

Daniel é protagonista da série “Luz”, primeira produção infantojuvenil brasileira da Netflix, que estreou no inicio do mês. Ele vive Marcos, um professor de Biologia que se dá muito bem com seus alunos e é quem ajuda a menina aventureira Luz a embarcar em uma jornada em busca de suas raízes. “É uma série para a família toda. Recebo mensagens de mães do mundo todo que estão assistindo com seus filhos”. E pontua: “Sou filho de pais que também  foram professores (Marcia e Cledson), então entendo essa realidade de perto. De serem desvalorizados, de terem salários atrasados. E quando comecei a fazer esse personagem para a série, senti que seria um dos mais importantes da minha carreira. Ele é além do professor, o tutor dessas crianças, então exerce um papel fundamental para orientá-los. Os professores marcam muito a vida da gente. Tive um de violino na infância, o Rafael, que era demais, conversava comigo de igual pra igual, tinha muita sensibilidade”.

Daniel Rocha em 'Luz' série da Netflix (Divulgação)

Daniel Rocha em ‘Luz’ série da Netflix (Divulgação)

Legalize

Pensando na pluralidade de personagens, ele também está no elenco do premiado ‘The Smoke Master’, um filme indie, o primeiro de ode ao kung-fu: “É sobre a legalização da maconha e sou produtor associado. Foi a grande surpresa da minha carreira e um filme muito barato de fazer. Me chamaram porque eu tinha feito o Popó, sabia lutar e iam misturar a maconha com kung-fu, além de 40% do longa ser falado em mandarim, literalmente uma viagem…não tem como não ser (risos). É divertido. Acreditamos no filme, ele começou a viajar para os festivais e foi muito bem recebido, tem um lugar que agrada as pessoas”.

Os tabus sobre a maconha estão caindo por terra, ela também pode ser usada com uso medicinal, então acho que lançamos esse filme na hora certa. Sou a favor da legalização. Existem pesquisas que apontam que nas cidades dos Estados Unidos, nos países que legalizaram, o índice de criminalidade caiu; fora o que se ganha em impostos – Daniel Rocha