Daniel Pereira fala no teatro sobre câncer da mãe. Tal como ela, 30% das mulheres são abandonadas sob tratamento


Transformar, ressignificar, tornar a sentir e fazer do sofrimento, esperança. Esta é uma das premissas de “Ao Soar do Sino”, peça de Daniel Pereira, que no Rio. O ator traz à tona neste monólogo não apenas a sua relação com a sua mãe, que conviveu por oito anos com um câncer, mas também das dores em decorrência disso. Ela foi abandonada pelo marido durante a doença tal qual a cantora Preta Gil. O ator catarinense também fala sobre o fato de ser filho adotivo e que deseja ser pai solo através de uma adoção monoparental – o que é algo raro. Com a peça ele também pretende trazer debate sobre a conscientização sobre o câncer de mama, que é uma das doenças mais letais às mulheres no Brasil e que, segundo ele, não tem recebido políticas públicas devidas, especialmente sobre o autoexame da mama: “Não estou vendo a força do Outubro Rosa”

*por Vítor Antunes

No mês em que se debate a importância da conscientização sobre o câncer de mama, o ator Daniel Pereira revisita sua própria trajetória e traz ao palco a sua relação e a história de sua mãe, que, acometida por um câncer de mama, morreu em 2020. Tal como não é incomum a outras mulheres – pois que o mesmo aconteceu à Preta Gil recentemente, o pai de Daniel abandonou a esposa quando soube de sua doença. “Eles estavam casados há mais de 30 anos. Infelizmente, ele a deixou desamparada nesta situação”. Ainda que tenha vivido dramas pessoais intensos nesse período em que teve que abrir mão da carreira e tenha perdido, além da sua mãe dois parentes para a Covid no mesmo período, Daniel ressignificou a sua dor em arte e assim fez nascer a peça “Ao Soar do Sino“, monólogo que está em cartaz no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, e permanecerá em cartaz em todas as quarta-feiras de outubro até o dia 25. Ela tem a direção de Bruno Oliveira, a autoria do texto é de João Luiz Vieira, e assistência de direção e direção de movimento lideradas pela atriz Viétia Zangrandi – atualmente no ar em “Elas por Elas“.

A história de amor e de esperança de um filho e sua mãe na luta contra o câncer de mama não é o único projeto de dramaturgia atualmente no ar a retratar questões relacionadas à doença. Duas novelas exibidas atualmente, “Mulheres Apaixonadas” (Globo) e “História de Amor” (VIva), têm personagens relevantes convivendo com a mesma questão e trazendo à tona discussões sobre a neoplasia mamária. Já faz alguns pares de anos que não há mais campanhas na TV e nos meios de comunicação em geral sobre a conscientização sobre o câncer. Mesmo antigas e consolidadas, como “O Câncer de Mama no Alvo da Moda“, criada em 1994 por Ralph Lauren não tem sido comumente discutidas. “Eu sinto que se tornou só uma doença qualquer, mas é uma das que mais mata no planeta”, diz Daniel.

Orgulhosamente um filho adotivo, o ator vê na adoção um ato de amor. Tanto que pretende ter um filho desta maneira. Inicialmente, chegou a cogitar a possibilidade de adotar junto com a mãe – sendo ambos responsáveis pela criação da criança -, mas hoje ele pensa diferente e quer fazer uma adoção monoparental, ser pai solo. Demanda que ainda que esteja em crescimento, ainda representa uma parcela pequena entre os adotantes, especialmente entre os homens. “Falo sempre que sou adotado com muito orgulho, com muita força e amor. Porque foi realmente o que me salvou. Além disso, tem toda essa questão burocrática que é sempre muito complexa, especialmente com pessoas que querem fazer adoção monoparental ou de casais homoafetivos. Eu passei três anos com a minha mãe nesse processo de saber se eu ia ser filho dela definitivo ou não”, desabafa.

Daniel Pereira usa o teatro como terapia e compartilha sua vivência acerca do câncera da mãe (Foto: Marilha Galla)

À DONA VIVINHA, COM AMOR 

Em 2020 enquanto o mundo ainda tentava conviver com uma doença desconhecida e letal, estabelecendo protocolos ainda vacilantes para a Covid, Daniel Pereira convivia com outra doença, já velha conhecida e de velhas batalhas. Há oito anos sua mãe convivia com o câncer e ele acompanhava de perto cada uma das fases de enfrentamento dela junto à neoplasia. Naquele ano, porém, ela não resistiu. Ele, que havia voltado para sua terra natal, Santa Catarina, para cuidar da matriarca se viu sem um dos seus principais pilares de vida e precisou encontrar dentro de si elementos para – parafraseando Cartola (1908-1980) – só voltar a si quando se encontrar. Foi assim que acabou, de maneira natural, surgindo a ideia de “Ao Soar do Sino“, monólogo que está em cartaz no teatro Gláucio Gill, em Copacabana (Rio) e no qual a sua história com sua mãe é revisitada. Uma história que é, sobretudo, de amor. E que foi capaz de transformar a dor em arte: “Hoje vejo que estou tendo dias melhores depois que consegui colocar para fora toda essa história. Mas, ainda assim, em cada sessão, tenho reações e sentimentos que estão trancafiados dentro de mim e pelos quais eu acabo tendo outro olhar. Situações que eu achava que já estavam curadas, mas não estavam. O teatro realmente está sendo essa porta de grande importância para eu colocar para fora toda essa dor, e o quanto ela toca cada pessoa que vai assistir e diz o quanto essa peça muda e ressignifica a vida delas”.

Esse processo terapêutico-artístico, obviamente não é novo. Eric Clapton compôs “Tears in heaven” para o seu filho, Conor (1986-1991), que morreu ao cair acidentalmente do 53º andar de um prédio. Glória Perez, por sua vez, escreveu “O Clone“, como forma de trazer de volta a sua filha, Daniella Perez (1970-1992), assassinada brutalmente há 31 anos. Este ponto de partida, e de releitura, foi o motivador para a elabotração da peça “Matheus Nachtergaele também fez uma peça falando da mãe dele, Dani Barros também fez isso. Eu tive grandes referências de artistas que lançaram mão do mesmo expediente, e eu, junto a eles passei por esse laboratório de pesquisa e entendimento, mas eu vi que era necessário fazer a peça também para a minha cura, que é o principal (…). A peça, além de estar me curando aos poucos, creio que em cada sessão, e que eu posso fazer 10, 15, 20 anos ela vai me trazer uma sensação de cura diferente porque é um turbilhão de coisas”. 

A peça, ao ver de Daniel, também é “uma forma de homenageá-la. Minha mãe não teve direito a velório por conta da pandemia. Seu enterro durou 30 minutos. É complicado, mas eu estou transformando toda essa dor, toda essa coisa que aconteceu na minha vida em arte. Estou tendo relatos incríveis do público e estou muito feliz com isso”. 

Daniel Pereira em “Ao Soar do Sino” (Foto: Bruno Guedes)

Daniel prossegue dizendo que houve um espectador que decidiu ter uma relação mais afetiva com a própria mãe depois de assistir à montagem. “Obviamente eu tinha diferenças com a minha mãe”, diz, e continua: “Eu sou de virgem, ela era de touro, a gente se pegava demais, mas eu tinha a consciência de que ela é uma pessoa importante e de que a gente não pode deixar de dizer as coisas que são fundamentais”.

O afeto entre o ator e sua mãe começou através da escolha. Ambos apaixonaram-se à primira vista, já que ele é filho adotivo. “Esta é uma questão muito forte na minha vida. Eu fui adotado desde a maternidade e eu tive uma conexão muito forte com ela. Quando a minha mãe me viu na incubadora, já bateu o coração dela e ela já sabia que a gente ia ser alma gêmea. Eu nunca deixei de dizer que eu sou adotivo, tanto que minha mãe questionava o porque de eu reforçar sempre isso. Nunca tive tabu, nunca sofri bullying e nem nada referente à adoção. Sei da importância do assunto e comecei a ajudar algumas pessoas que eu via que tinham interesse em adotar. Há quem queira entender esse processo e que vêm ao meu encontro”.

O artista relembra os entraves que orbitam pela adoção: “Passei três anos até que minha mãe tivesse a minha guarda definitiva. Passamos pelo conselho tutelar, pela assistência da familia, por vários processos de juízes. Então, teve um processo muito complicado para ela até que ela realmente assinasse a maternidade. Mas sempre acabamos ficando parecidos. Eu sou mais parecido com ela do que os próprios irmãos”. Por esta razão, o ator pretende, também, adotar um filho. Em princípio, o faria com a sua mãe, mas, hoje pensa na adoção monoparental. “Quando eu for adotar, quero que o meu coração bata assim com o da criança e que o dela bata comigo dessa forma. Penso na adoção monoparental por não querer que a criança fique dividida por conta de seus pais”.

A escolha por ser um pai solo é algo insólito. Dados do Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento (SNA), mantido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), revelam que até julho do ano passado, 706 homens solteiros estavam habilitados à adoção no Brasil. Um número pequeno frente a mais de 3.300 mulheres. “Cuidar de uma criança, ter essa responsabilidade sozinho é muito complicado”, diz Daniel. Essa é uma coisa que penso para o futuro. Vejo tantas pessoas da minha idade que ficam nesse jogo de ping pong com as crianças e elas são afetadas por conta disso. Prefiro adotar sozinho e saber que eu não tenho essa coisa de ficar dividindo, que vai ser um amor e um cuidado meio que para sempre. Minha mãe cuidou de mim quando eu mais precisei e, quando o jogo se inverteu, eu cuidei dela. Então a gente sabia que teríamos essa troca em algum momento”. 

A criança adotada já vem com traumas, já vem com dores que são muito grandes. Eu lembro que a minha mãe estudava comigo até a quarta série. Quando ela me deixava no colégio, numa época em que eu ainda não sabia ser adotivo, eu entrava em crise de choro achando que seria abandonado – Daniel Pereira

Daniel Pereira e sua mãe. Batalha contra o câncer e adoção norteiam monólogo no Rio (Foto: Reprodução/Instagram)

CÂNCER DE MAMA NO ALVO

O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no Brasil e no mundo e é resultado de uma disfunção oriunda de um crescimento celular desordenado. No caso da neoplasia mamária, as células mais afetadas são as dos ductos mamários ou o das glândulas mamárias. “É muito importante quando a gente fala desse tema da prevenção do câncer de mama. (…) Os números estão aumentando e as mulheres estão cada vez mais negligenciando essa prevenção. E eu ainda não estou vendo a força do Outubro Rosa”, contesta Daniel.

Em 1989, Cássia Kiss foi a protagonista da campanha de conscientização sobre o câncer de mama e polemizou ao ensinar a fazer o autoexame na TV (Foto: Reprodução/Ministério da Saúde)

Algo raro, o câncer de mama também pode acometer os homens. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), os casos masculinos representam 1% do total. Em 2020, foram registrados 207 óbitos de homens por câncer de mama no Brasil. Número muito distante do equivalente feminino no País, que chega à marca de 17,5 mil mulheres. Porém, o que não é incomum é o abandono de mulheres por seus parceiros quando elas vivem esta condição. Segundo pesquisa veiculada na Revista Isto É,  mulheres doentes por câncer ou esclerose múltipla obtiveram uma taxa de separação/abandono do parceiro na casa dos 20,8% contra 3% dos homens doentes. Elas têm 6 vezes mais chances de serem abandonadas em situação de vulnerabilidade que eles. Algo que tomou vulto nos últimos meses foi justamente o ocorrido com a cantora Preta Gil, que foi traída e abandonada por seu agora ex-marido Rodrigo Godoy, enquanto tratava de um câncer no intestino. “O que eu ouvi de mulheres relatando abandono dos maridos enquanto faziam quimioterapia é grotesco, é muito grande”, diz Daniel. 

A família do artista experienciou isto. Ele conta: “Enquanto minha mãe estava sob tratamento, descobri que o meu pai a estava traindo, já que ela tinha muitas e grandes limitações em razão do dreno e da quimioterapia. Eles estavam casados há mais de 30 anos. Infelizmente, ele a abandonou”. Ainda por causa da pandemia, a estretágia de tratamento do câncer da mãe do rapaz precisou ser revista e o ator acredita que isso possa ter tido reflexos: “Ela passou a fazer quimioterapia uma vez por mês, aumentando os intervalos e isso deixou o câncer mais forte. Até que a minha mãe faleceu em 27 de junho de 2020″.

O médico nos disse que o câncer da minha mãe tinha forte influência psicológica, de tanta coisa que ela passou na vida e que pode ter desencadeado-lhe a doença – Daniel Pereira

Daniel Pereira. Ator fala da importância da adoção e objetiva, também, adotar um filho (Foto: Marilha Galla)

ARTE 

Na montagem de “Ao Soar do Sino“, Daniel lança mão das suas ferramentas artísticas. Além da atuação, também dança. E esta habilidade chegou a ele por uma trajetória que também margeia a superação: “Eu tinha escoliose, sou alto e tenho 1,83m,  então eu fui uma criança que cresceu muito rápido. Por conta da condição, o médico me sugeriu nadar ou dançar e eu fiz os dois. “A dança foi a coisa que me despertou porque me trazia mais para perto do palco, desse universo mais artístico. Sempre achei que a dança ia me ajudar na minha atuação”. A dança, contudo, revelou-se ainda mais que uma ferramenta. O artista é pentacampeão do maior festival de dança do mundo, realizado em Joinville (SC) e competiu em vários lugares do país. Esteve em Phoenix (Arizona-EUA), no Hip Hop International. Estudou teatro na cidade de Blumenau, também em Santa Catarina e aos 19 anos veio para o Rio de Janeiro. Ele voltou para Joinville, sua cidade natal, quando sua mãe foi diagnosticada com o câncer. Permaneceu no Sul até 2021, quando voltou à capital fluminense.

Daniel Pereira faz monatgem em que referencia as batalhas de sua mãe contra o câncer de mama (Foto: Bruno Guedes)

Em seu retorno, foi “chamado a fazer uma participação em “Passaporte para a Liberdade” da Globo, série do Jayme Monjardim. Durante a pandemia, fiz umas leituras dramáticas online, como ‘Inconfessáveis’, na qual fui dirigido pelo Marcelo Várzea, e que fez muito sucesso no período, chegando a ter 700 pessoas na plataforma. Depois, eu fiz uma leitura de “Medéia 2020” com a Débora Olivieri e outra com o Rodrigo Fagundes em “A Terra Prometida”. Logo em seguida, fiz uma peça “Como se Lembrar de um Cadáver“, na Cia dos Atores com direção do Ricardo Santos, que a gente fez duas temporadas de dois meses”. Além dessas montagens ele fez uma participação em um filme que se chama “Ainda Estou Aqui” de Walter Salles,  com a Fernanda Torres e a Fernanda Montenegro. Gravei a primeira fase, uma participação e em seguida um flashback dessa época. É o meu primeiro longa no cinema nacional”.

Eu recebi a notícia de que eu tinha que vir pro Rio de Janeiro no aniversário da minha mãe, gravei a cena [do filme] no Dia das Mães e voltei decidido em morar no Rio no dia da morte da minha mãe. Então, tiveram conexões muito referentes a ela. Por vezes acho que são sinais dela para que eu não desistisse da profissão –  Daniel Pereira

Enquanto falava, nesta entrevista, Daniel ainda era surpreendido pelas lágrimas. De emoção e gratidão. James Joyce (1882-1941) foi adaptado numa frase que dizia que “tudo nessa vida é incerto, menos o amor de mãe”. A frase, tão profunda e simbólica, serviu para lançar a novela “Amor de Mãe” (2019). Mas, ao pontuar cada uma de suas falas, não nos veio uma outra frase. Mas um poema inteiro de César Ladeira, musicado por Jorge Mautner. Por acaso, uma das últimas gravações inéditas de Gal Costa no disco “A Pele do Futuro” (2018). A cantora, junto à Maria Bethânia, cantava: “Quando eu fico muito triste, eu pego a fotografia da minha mãe e aperto bem forte no meu peito. Minhas mãos param de tremer, segurando a fotografia. E meu coração bate mais forte. Não é mais dor que eu sinto. Possuído da alegria que invade a mim e a todo esse recinto, é algo que não tem explicação”. E, num trio, agora imaginado, entre elas e o ator, talvez seja possível ouvi-los cantar: “Minha mãe me deu a vida. E sempre me dará a vida