Claudia Mauro sobre sua personagem em ‘Um lugar ao sol’: ‘Uma coach de emagrecimento, mas com traços de gordofobia’


A atriz vai entrar na novela dentro de poucos dias no papel de Helena. “Ela já foi gorda, mas acredita mesmo que comer é um vício. Acha que não dá para ficar bem sendo gordo. Tem preconceito. Sofre com esses padrões pré-determinados”. A personagem é mãe de uma menina com Síndrome de Down. Claudia é desencanada quando o assunto é tentar polemizar algo ao seu redor. Tanto, que após um comentário de Humberto Martins lamentando o fato dela não tê-lo seguido de volta no Instagram ter virado notícia, Claudia desmente qualquer tipo de mal-estar entre eles. “Acho que as pessoas estão mais sensíveis com tudo que vivemos na pandemia”

*Por Brunna Condini

Celebrando 40 anos de profissão este ano, Claudia Mauro conta os dias para sua personagem entrar no ar em ‘Um lugar ao Sol‘, novela das 21h da Globo que estreou esta semana. A atriz dá vida à personagem que vai trazer discussões importantes: será Helena, uma coach de emagrecimento que tem uma filha com Síndrome de Down, interpretada por Samanta Quadrado.

“A Helena vai ser uma personagem polêmica, porque, apesar de ser coach, questiona que uma pessoa possa ser feliz gorda, tem traços de gordofobia”, diz, acrescentando: “Já em relação à filha, ela superprotege e questiona o fato dela querer ter independência. Não acredita que possa ter uma vida normal. Mas como todos os personagens da Lícia (Manzo) Helena é humana. Essa mãe existe: que protege demais, é preocupada, e acaba atrapalhando o desenvolvimento da filha. Minha personagem entrará em um embate com o ex-marido, Paco (Otávio Müller), porque ele acredita na inclusão, na independência da filha”.

Casada há 30 anos com Paulo César Grande, com quem tem os gêmeos Carolina e Pedro, de 10, ela revela se também rola ‘embate’ na criação dos filhos na vida real. “Discordamos um pouco (risos). Ele tem 63 anos, é outra geração. Escuto muito o que a criança fala, talvez por isso eu tenha uma tendência à uma educação mais permissiva. Ele coloca mais limites que eu. Mas educar não é fácil, a gente sabe quando está errando, acertando. E mesmo acertando, a gente ainda erra (risos). É uma arte. Por aqui, temos os embates, mas nos entendemos bem”.

"Vou aonde o trabalho está. Meus contratos são sempre por obra e cada experiência é diferente" (Foto: Marcio Mercante)

“Vou aonde o trabalho está. Meus contratos são sempre por obra e cada experiência é diferente” (Foto: Marcio Mercante)

De volta às novelas – a última produção em que participou foi ‘Jesus‘ (2018), na Record – Claudia celebra a nova trama global, com os pés no chão. “Fiz muitos trabalhos na Globo. São muitas lembranças, história. Mas não vejo isso como uma coisa de volta à emissora. Vou aonde o trabalho está. Meus contratos são sempre por obra e cada experiência é diferente. Claro que trabalhar em uma empresa com ao Globo é um enorme prazer e conforto. E essa novela, em especial, é uma vitória, porque foi feita por uma equipe cheia de vontade, durante uma pandemia”.

Entre amigos

Sempre muito ligada às amizades, Claudia é desencanada quando o assunto é tentar polemizar algo ao seu redor. Tanto, que após um comentário de Humberto Martins lamentando o fato dela não tê-lo seguido de volta no Instagram ter virado notícia, Claudia desmente qualquer tipo de mal-estar entre eles. “Acho que as pessoas estão mais sensíveis com tudo que vivemos na pandemia. Mas no caso do Humberto, ele é meu amigo desde os 14 anos, amigo da família. Até entendi ele ter ficado chateado e se expressado normalmente ali, já que tem muita liberdade para falar comigo”, diz.

“O Humberto é um cara muito bacana, tem essa coisa da consideração, lealdade com os amigos, e eu também tenho, mas confesso que não dou conta nem das mensagens de direct, de whatsapp, até printei pra ele, são muitas. Então, não fico reparando quem está me seguindo. Acho que ele escrever ali foi uma forma de dizer: “Poxa, continuo aqui te acompanhando, torcendo e você nem aí”. Foi uma coisa de amizade. Conversamos, rimos. Amigo também é para essas coisas, manifestar o que está sentindo. Entendi e está tudo numa ótima”.

Entre amigas

No folhetim de Lícia Manzo, a atriz chama à atenção para os danos da pressão estética sobre os corpos femininos, principalmente. “A Helena já foi gorda, mas acredita mesmo que comer é um vício. Acha que não dá para ficar bem sendo gordo. Tem preconceito. Sofre com esses padrões pré-determinados, isso será uma discussão. Pessoas gordas podem ter mais saúde que pessoas magras, uma coisa não está ligada à outra”.

"A Helena sofre com esses padrões pré-determinados, isso será uma discussão. Pessoas gordas podem ter mais saúde que pessoas magras, uma coisa não está diretamente ligada à outra" (Foto: Sabrina da Paz)

“A Helena sofre com esses padrões pré-determinados, isso será uma discussão. Pessoas gordas podem ter mais saúde que pessoas magras, uma coisa não está diretamente ligada à outra” (Foto: Sabrina da Paz)

Amiga da atriz Ana Baird, também sua colega de trama como Nicole, que ‘briga’ com a balança desde a infância, Claudia comenta que as conversas com ela enriqueceram a construção de Helena. “O mais difícil é não ter essa experiência, porque como atriz muitas vezes emprestamos algo que vivemos para o personagem. Nesse caso não tenho essa vivência, mas convivo com algumas amigas que sim, e passaram por essa pressão, gordofobia. Inclusive a Ana Baird. E a irmã dela, minha amiga Alice Borges, também conviveu com isso. Tenho elas como referência, conversamos muito, não só agora, ao longo da vida. Está sendo muito bom estar com a Ana neste trabalho e poder falar sobre isso”.

Amigas de uma vida, Claudia Mauro e Ana Baird estão juntas em 'Um Lugar ao Sol' (Reprodução Instagram)

Amigas de uma vida, Claudia Mauro e Ana Baird estão juntas em ‘Um Lugar ao Sol’ (Reprodução Instagram)

Entre décadas de parceria

Em 30 anos muita história pode viver um casal. Claudia valoriza cada etapa com Paulo César Grande e se orgulha do amor real, leal e amigo que construíram. Você já falou que ele é seu parceiro de vida e que hoje vocês têm alguns acertos em relação à lealdade, de um não mandar no desejo do outro, por exemplo, mesmo que ele se manifeste fora da relação. Por que acha que as pessoas se espantam tanto com isso? “As pessoas hoje mal chegam ao décimo ano casadas, então é difícil mesmo entender o que falo com 30 anos de casamento. Acho que o contrato de exclusividade vence depois de alguns anos. Não estou preocupada com isso hoje, mas já estive. As pessoas se chocam porque não estão preparadas, porque acreditam ainda em uma coisa que foi pré-determinada lá atrás, de que a felicidade está no casamento eterno, do mesmo jeito. Isso não existe. Não que a gente saia por aí ficando com todo mundo, mas pode acontecer a troca, o encantamento naturalmente e tudo certo”, esclarece.

Ela celebra o casamento e a parceria de 30 anos com o ator Paulo César Grande (Reprodução Instagram)

Ela celebra o casamento e a parceria de 30 anos com o ator Paulo César Grande (Reprodução Instagram)

E acrescenta: “Não temos isso de ‘pode ficar com todo mundo’. É algo que está em outro lugar, o de liberdade. Porque liberdade e amor andam juntos. De poder viver sua vida, trocar com as pessoas, ter experiências novas e não necessariamente de sexo. Esse contrato de exclusividade é muito relativo e não precisa disso depois de 20, 30 anos, porque a relação vai para outro lugar, quase ‘inalcançável’ quando se tem uma boa parceria”.