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Atriz Luiza Braga fala sobre personagem viciada e soropositiva em ‘Uma noite não é nada’: “Autodestrutiva”

Ela precisou perder nove quilos para dar vida à problemática estudante Márcia, que se envolve com um professor vivido por Paulo Betti: "Foi um presente sem tamanho ter a oportunidade de estrear no cinema ao lado dele"

Publicado em 12/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

*Por Karina Kuperman

A vida de um professor entediado em meados da década de 80 e uma aluna soropositiva e dependente química se cruzam no longa “Uma noite não é nada”, que estreia no próximo dia 22. A atriz Luiza Braga interpreta essa estudante que está sempre “no limite da vida” – como ela mesma define. “O filme conta uma história que eu não diria exatamente que é de amor. Mas é o envolvimento de uma menina viciada em cocaína, que se descobre soropositiva, com seu professor de física que vive uma crise de meia idade, já próximo da aposentadoria, com filhos adultos e um vazio profissional e pessoal”, adianta, sobre o personagem de Paulo Betti. “No começo, esse relacionamento traz um respiro da vida dela, uma esperança, porque apesar de ele também ter problemas… são bem menores do que os dela. Mas como a personagem é autodestrutiva, ela transforma isso. Eles entram em um jogo que não é exatamente um romance, mas sedução, nesse lugar bem destrutivo”.

Luiza Braga e Paulo Betti são Márcia e Agostinho em “Uma noite não é nada” (Foto: Aline Arruda/Divulgação)

Para tantas sequências pesadas, Luiza afirma: precisa haver confiança no parceiro de cena. “Conheci o Paulo no processo de testes, foram quatro no total, porque era uma personagem complicada, com muitas nunces. No último, fiquei eu e mais uma atriz com o Paulo. Conheci ele nesse momento e foi um presente sem tamanho ter podido estrear ao lado dele no cinema. Paulo é generoso, me deu segurança para lidar com essa personagem de cenas difíceis, drogas, sexo, nudez, abuso”, elogia. “Em uma cena de briga, minha personagem dá um tapa na cara dele, aí eu, novata, cheguei emocionada, fui com tudo. Quando cortou, ele me chamou e falou: ‘Calma, segura, ainda vamos gravar dez cenas. Não é para ir na primeira com tudo’. Isso é ajuda de quem tem muita experiência e é muito generoso”, diz.

Luiza Braga (Foto: Aline Arruda/Divulgação)

“Defino a Márcia como um copo prestes a transbordar. Ela tem um lance autodestrutivo, de se violentar muito, esse tipo de comportamento do usuário de drogas, de uma pessoa que vive sempre no limite”, analisa a atriz que, para viver essa personagem, teve contato com dependentes químicos e chegou a perder nove quilos. “Tive vivências em abrigos que trabalham com mulheres dependentes e conversei com psiquiatras”, lista. “O tipo de cocaína que ela usa é injetável e misturada com água ou soro. Fiz workshop para aprender a forma de segurar a seringa, tudo. É muito difícil pensar em uma personagem assim. De dificuldade técnica, a maior foi a questão do consumo, para que lugar vai o corpo físico, como fica nos momentos de abstinência. O que desenvolvi na vivência dos abrigos, em contato com mulheres, é o fundo do olho, que fica sem vida. Essa personagem é solitária e construir esse fundo de olho vazio foi o mais trabalhoso”, explica.

A atriz precisou conviver com quem passa por essa situação (Foto: Aline Arruda/Divulgação)

Fisicamente, muito mudou. Além dos nove quilos a menos, a Luiza do dia do primeiro teste é completamente diferente da que deu vida à Márcia. “Sou loura e tive que pintar o cabelo, cortei franja, aprendi a tocar bateria… e abrir mão da vaidade. Por mais que, na história, exista o jogo da sedução, sexual, entre ela e o professor, a Márcia não é uma personagem bonita. As maquiadoras fazem uma pele manchada, gasta, é um lugar onde não existe beleza e autocuidado”, diz.

Luiza deixou a vaidade de lado para viver a jovem (Foto: Aline Arruda/Divulgação)

Não foi só a questão da vaidade que mudou: “Até viver a personagem, eu era muito distante dessa realidade, não conhecia essa forma de existir, tive que ver pessoas que vivem no limite o tempo todo. O filme me trouxe noção de urgência, de que a vida é hoje mesmo, um sopro. A juventude tem planos, sonhos, e esse filme me aterrou, colocou meu pé no chão de saber que a vida pode não ser tão colorida assim. Isso no sentido pessoal. Como atriz, a personagem expandiu meus horizontes e colocou meu corpo a prova. Essa capacidade de transformação física e emocional, lidar com energias e lugares pesados sem ficar doente”, analisa ela, que vê, no filme, uma questão social importante.

(Foto: Aline Arruda/Divulgação)

“Quando falo do filme muita gente pensa na droga, na questão da soropositiva, mas o importante é perceber que são problemas contemporâneos. Embora o filme se passe em 1986, esse vazio é atual e esses personagens vivem isso, uma ausência de si”, enfatiza. “A ideia é olhar para esses personagens tão diferentes, mas se ver… e, claro, acreditar nos nossos sonhos e desejos para não chegar aos 60 anos como o personagem do Paulo, para quem a vida não faz sentido”.

 

 

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