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Arlindo Lopes comenta a relevância da profissão do ator: “Precisamos tocar em feridas!”

Para ele, a repercussão com o atual personagem, o Getúlio, de Malhação, foi surpreendente: "Eu fui muito destratado na rua por conta desse personagem. Foi estranho, porque eu achei que isso não existia mais"

Publicado em 09/01/2019 | Por Leticia Sabbatini

Você que não perde um episódio de Malhação- Vidas Brasileiras com certeza já se viu irritado com o Getúlio, personagem do elenco adulto, interpretado por Arlindo Lopes. Na trama, ele é um trambiqueiro que envolve o sobrinho menor de idade em várias confusões, mas se vê, ao longo do tempo, adocicado por Mel, personagem interpretada pela atriz mirim Maria Rita. O que talvez você não saiba é que, para além desse lado cômico, o ator busca tratar de questões importantes por trás dos seus projetos e papéis. Em conversa com o site HT, ele nos explicou melhor essa vontade, além de falar dos seus muitos projetos atuais e futuros.

Aos 39 anos, Arlindo teve em 2018 muito cheio profissionalmente (Foto: Studio Faya)

Todos já ouvimos aquelas histórias sobre a infância contadas por um familiar mais velho e com Arlindo não foi diferente. Quando questionado sobre o início na atuação, ele relembrou as palavras de sua mãe: “Ela diz que desde os 5 anos eu falava que queria ser ator. Não que eu me lembre de nada disso, mas é minha mãe, né? Eu tenho que acreditar”. Para logo em seguida nos explicar como foi esse começo de fato: “Eu iniciei fazendo teatro amador na escola, por volta dos 13 anos. Toda essa fase escolar foi muito complicada para mim, por questões que, infelizmente, são muito comuns na realidade dos adolescentes e das crianças aqui no Brasil, que é o bullying. E no palco era diferente, porque eu deixava de ser tímido, tinha amigos e conseguia me expressar. Descobri, então, que era daquilo que eu gostava”. Seguindo esse desejo, ele se profissionalizou e, com papeis no teatro, cinema e TV, se tornou o ator bem-sucedido que conhecemos hoje.

Por saber como a realidade de uma pessoa pode ser cruel desde sempre e entender a importância da arte como transformadora dessa realidade, Arlindo gosta de tocar em feridas com os seus trabalhos. “É claro que é legal fazer um personagem que você curte, mas mais legal ainda é quando por trás disso temos uma questão que precisa ser discutida, ao invés de um vazio preenchido só pelo ego do ator. É necessário que tenhamos sempre essa motivação”, explicou. Assim, além de dar vida ao Getúlio na atual temporada de Malhação, o ator estreou, em 2018, os longas “Alguém como eu”, ao lado de Paolla Oliveira, “Berenice Procura”, que passa pela vivência LGBTQ+, “A voz do silêncio”, dando vida a um jovem soropositivo e “O beijo no asfalto”, onde faz uma pequena e importante participação ao lado de Lázaro Ramos.

Na atual temporada de malhação, ele dá vida ao Getúlio (Foto: Reprodução)

De todos esses projetos no cinema, o ator comentou o quão incrível é que eles conversem todos pela questão da atualidade e relevância, mas não escondeu a preferência pelo longa “A voz do silêncio”. Para Arlindo, interpretar um soropositivo mudou a forma como ele enxerga a vida e a profissão, reforçando a vontade já citada de trazer a reflexão para temas ainda polêmicos. “Foi um personagem escrito para mim e juntar isso à temática dele, faz com que seja o trabalho em que eu mais me envolvi. Contracenar com a Marieta Severo, que faz a minha mãe, e estudar o processo de contaminação e resistência desses jovens, que não tem apoio da família é surreal. Estar perto dessa realidade foi um dos momentos mais importantes da minha carreira”, admitiu.

O longa foi tão marcante para Arlindo que fez com que ele comprasse os direitos autorais da obra “O Coração Normal”, que também aborda a mesma problemática. “Era uma peça que esteve em temporada algumas vezes na Broadway e acabou virando um filme com o Mark Ruffalo e a Julia Roberts, retratando o surgimento do HIV nos anos 80, mas traz só uma pincelada sobre o assunto. Eu achei que deveria aprofundar a discussão, sabe?”, contou o ator, que nos palcos dará vida ao mesmo personagem do carismático Mark Ruffalo no cinema. E prosseguiu: “É ainda mais crucial falarmos sobre isso nesse momento que temos um governo ameaçando acabar com os programas de apoio à informação. Falando do tema desse filme, por exemplo, muitos jovens se contaminam por ignorância. Ainda mais essa geração dos 15 aos 25, que não viveram os anos 80. Mais do que nunca é necessário falar sobre esse assunto e ‘A Voz do Silêncio’ trouxe essa realidade para a minha vida”. Além do espetáculo que ainda não saiu do papel, Arlindo assumiu que outro bom fruto surgiu depois do longa: “Pretendo fazer um monologo sobre o José Leonilson, um artista plástico que morreu aos 36 anos, de HIV. Eu estudei muito a obra dele para auxiliar meu trabalho em ‘A Voz do Silêncio’. Depois disso, acabei indo para os grupos de apoio para conhecer os jovens iguais ao meu personagem”. E reforçou novamente: “Eu fiquei muito tocado e eu acredito que nós, artistas, precisamos abordar essas feridas”.

Um outro marcante projeto que o ator marcou presença em 2018 foi “O Beijo No Asfalto”, dirigido por Murilo Benício. No longa, Arlindo faz uma pequena e importante participação. “Eu sou o morto que faz a vida do personagem do Lázaro mudar completamente”, comentou, em tom de brincadeira. Ambientada na década de 50, a história gira em torno do pós-morte do personagem de Arlindo que, depois de ser atropelado, pede um beijo ao personagem de Lázaro Ramos. “O filme traz uma boa discussão sobre Fake News nos anos de 1950 porque trazem várias versões de um fato”, explicou. Para ele, o trabalho é completamente presente na realidade brasileira: “Depois de uma eleição pautada em Fake News, é um tema muito atual. É importante checarmos a veracidade de todas as informações que nos chegam porque é muito fácil mentir ou deturpar um fato e esse filme veio para nos mostrar isso”.

Assim, esbanjando sinceridade e completamente consciente do papel que possui enquanto ator, Arlindo vem dando vida ao Getúlio, em Malhação. Em seus quase 20 anos de carreira, ele admitiu que ficou surpreso, ainda no início da novela, quando o seu personagem estava mais para um vilão do que para um mocinho, com a repercussão do trabalho. “Eu fui muito destratado na rua por conta desse personagem. Foi estranho, porque eu achei que isso não existia mais. Como assim estão me confundindo com o meu personagem? Uma senhora me chamou de ridículo, a outra me chamou de lixo”, informou. Com a lenta e gradual transformação de Getúlio, o publicou também modificou as reações, segundo o ator: “Ele foi se transformando na trama, muito por conta do que o público ia respondendo. Então, o que começou com essa parceria com a Ana Beatriz Nogueira precisou se manter mesmo quando ela saiu para fazer O Sétimo Guardião e o meu personagem foi adocicando, até que me aproximei mais da personagem da Maria Rita. Nisso, eu já comecei a receber outro tipo de energia na rua, sabe? As pessoas me parando para falar ‘que fofo vocês dois juntos!’”. Para além da transformação, Getúlio vive desde o dia 14 de dezembro o protagonismo da história. O foco, que vai até o dia 28 do mesmo mês, colocou o ator em um clima totalmente natalino. “Fizeram eu me vestir de Papai Noel, acredita? Olha só o que eu não faço por essa profissão! Com esse calor, foi uma sauna, mas foi muito gratificante também”, contou.

 

Muito orgulhoso do seu trabalho, o ator se dedica a assuntos polêmicos (Foto: Studio Faya)

Em meio aos tantos projetos, Arlindo admite o cansaço, mas prefere que a palavra utilizada seja outra. “Está faltando um pouco de tempo de descanso e lazer, mas eu não reclamo, porque eu acho que trabalho, nessa carreira tão instável, é incrível. Nossa profissão é formada por ondas, né? Em 2018 eu fiz várias coisas, mas já teve momentos que não tive projeto nenhum, ou tive e não consegui colocar na prática. Eu odeio quando isso acontece, porque eu amo trabalhar, para mim é ótimo. É cansaço, mas é realização também”, admitiu. Em 2019, o ator preferiu manter o mistério sobre o que vem por aí, mas admitiu que quer se reaproximar do teatro e continuar fazendo o que faz com ainda mais amor e dedicação.

 

 

 

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