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Exclusivo! No ar em “A regra do jogo”, Allan Souza Lima fala sobre seu trabalho como diretor, produtor e roteirista e critica a distribuição de verba para arte no Brasil

Apaixonado por histórias, ele analisa a dificuldade em captar recursos para seus próprios projetos: “Vejo filmes e peças orçados em mais de 10 milhões. É dinheiro demais em uma coisa só e sempre levantado pelas produtoras de sempre no mercado”

Publicado em 05/12/2015 | Por Karina Kuperman

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Multitalentoso: Allan Souza Lima é ator, diretor, produtor e roterista (Foto: Gabriel Felix)

Allan Souza Lima pode ser visto todos os dias nas telinhas como Nenemzinho, o pedreiro cheio de charme da novela “A regra do jogo”. Pernambucano, mudou-se para o Rio de Janeiro em 2003, começou a carreira na televisão em 2009 e, de lá para cá, já atuou em novelas, seriados e filmes. Com tanta experiência, comparou as três plataformas e elegeu sua preferida. “Eu acho que cada formato tem seu mérito. Nesse momento, estou tendo a oportunidade de fazer um trabalho incrível com pessoas maravilhosas onde estou aprendendo muito. Em novela o jogo é muito mais imediato. Nos seriados e filmes, acredito que exista um campo de pesquisa muito maior por ser uma obra fechada. Mas eu confesso que me identifico mais com a sétima arte”, disse ele, que se interessou pelo ofício através da música. “Eu era vizinho do Chico Science quando criança e sempre tive gosto pela música. Uma vez, tive a oportunidade de conhecer, por um amigo, o TAP (Teatro de Amadores de Pernambuco) e comecei a fazer aulas na época. Tomei gosto pelo palco. Me mudei para o Rio de Janeiro e comecei a estudar na CAL (Casa de Artes das Laranjeiras), daí, nunca mais parei”, relembrou.

Hoje, além de ator talentoso, Allan gosta também de trás das câmeras. Diretor dedicado, já venceu diversos prêmios e é apaixonado por trabalho. “Comecei a tomar gosto pela direção tem uns três anos. Na verdade, sempre gostei do trabalho em processo, dos laboratórios e campo de pesquisa com os atores. Isso para mim é fundamental. O ator tem que estar vivo, acima de tudo. Sou bem metódico, busco uma assinatura no meu trabalho. Gosto de estudar bem a proposta e a linguagem do filme que eu vou dirigir. Digo que o momento mais importante é a pré-produção. É nela que a gente pode testar e criar. Porque quando a gente entra no set, no primeiro dia de filmagem, tudo tem que estar completamente alinhado e decupado para não haver problemas”, explicou.

Com tanto amor pelo que faz, conciliar as duas carreiras é uma alegria. “Acabei adiando um projeto para o próximo ano por causa da novela, pelo fato de ser difícil fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Quando o projeto é em menor escala, acho que dá pra conciliar, sim. A verdade é que eu não consigo ficar muito tempo parado. Acho que sou um pouco workaholic. Acabei rodando mais um filme há pouco com o Daniel Dantas, e ele entrará em circuito de Festival a partir de janeiro. E, nesse momento, já estou produzindo meu próximo filme, que devo rodar em meados de janeiro. Posso dizer que durante esse processo, com certeza, dá pra enlouquecer. Mas, ao final, com um bom planejamento, tudo dá certo”, entregou, bem-humorado. E, como é para um diretor, atuar sem se dirigir? “Tenho meus cuidados. Acredito que seja igual para qualquer ator-diretor se analisar em cena. Acho isso é ótimo. Você acaba tendo mais consciência do campo em geral. Mas também pode ser perigoso se analisar demais. Mas acredito que tenho meu controle”, garantiu.

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Ele se dedica à produção desde 2008, mas em 2012 abriu sua própria produtora com a sócia(Foto: Gabriel Felix)

Multitalentoso, ele ainda arranja tempo para sua própria produtora, a Ikebana Filmes. Sentindo a necessidade de se produzir para estar em cena, tomou gosto pela função e não pretende parar. “Minha primeira produção foi em 2008, quando coloquei de pé minha primeira peça de teatro. Ainda era bem inexperiente. Depois, em 2010, produzi mais um curta com amigos. Mas a brincadeira começou a ficar séria em 2012, quando eu e a minha sócia, a produtora executiva Fernanda Etzberger, resolvemos fundar a Ikebana Filmes. Ali eu já sentia a necessidade de começar a contar a minha própria história e vi também, por esse fato, que não queria mais ficar dependendo desse mercado. Sabemos como é difícil essa nossa profissão. Às vezes passamos por uma fase boa de trabalho, outras não. Isso é complicado. E foi a partir disso, que produzimos o primeiro curta que dirigi e escrevi, chamado “Ópio”, que ganhou 14 prêmios em festivais. A partir daí, não paramos mais. Sei que a estrada é longa e árdua. Trabalhar com produção é bem difícil, mas estamos começando a caminhar muito bem nesse mercado”, analisou.

Apesar de acumular funções e trabalho, Allan sabe que nada é fácil e destacou que, mesmo com as leis de incentivo, a realidade da arte no Brasil ainda é complicada. “Tem projetos que passam anos para ser captados e realizados. A questão toda é quando chega na captação, procurar verba e empresas que patrocinem seu projeto. Isso é um ponto. O outro é a questão dos projetos serem aprovados pelas mesmas produtoras de sempre no mercado, tantos nos editais quanto nos de empresas privadas. Assim fica bem mais difícil. Tanto no teatro quanto no audiovisual. Um exemplo disso: no teatro, vejo musicais orçados em mais de 6 milhões e filmes captados com mais de 10 milhões. É colocar dinheiro demais em um único projeto. Nisso, o governo deveria criar alguma lei de incentivo para melhor viabilizar essa distribuição de dinheiro tanto público quanto privado”, declarou.

O convite de estar na novela das 21hs surgiu após a excelente interpretação de Rai na série “Preamar”, na HBO, em 2012. “O produtor de elenco Guilherme Gobbi me convidou para um teste de uma participação de poucos capítulos na novela, mas a Amora Mautner e o João Emanuel Carneiro viram meu trabalho e me convidaram para o Nenemzinho”, lembrou. Hoje, o personagem está no núcleo de humor da família de Feliciano (Marcos Caruso) e namorando Janete, vivida por Suzana Pires. Para Allan, contracenar com a atriz que também é escritora é uma honra. “Rolou uma boa química. A Suzana é uma querida e trocamos muito em cena. O primeiro dia que contracenamos eu fui muito aberto na troca de ideias referentes aos personagens e ficamos muito à vontade de opinar sobre o trabalho do outro. Isso ajudou muito na parceria profissional. Além da generosidade dela, que ajuda demais tanto dentro como fora do trabalho. Quem sabe não fazemos uma parceria em breve?”, levantou.

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Allan tem vários projetos para 2016 e se define “workaholic” (Foto: Gabriel Felix)

Allan acredita que seu Nenemzinho ainda vai dar o que falar. “Ele tem uma história mal resolvida com a Mel (Fernanda Souza). Acho que ainda vai se resolver. Temos muita novela pela frente”, disse. Mesmo com os meses que vem, ele já pensa no futuro. Com o fim de “A regra do jogo”, já sabe: “Tenho duas peças de teatro e dois longas para o próximo ano. Todos em processo de captação. Em alguns deles estou somente como ator e em outros como diretor e roteirista”, adiantou. Não importa em que função, o trabalho de Allan é certeza de qualidade e sucesso. E nós acompanhamos de perto.

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