Não é segredo que o protagonismo de Arlete Salles em “Família é Tudo” é uma mera formalidade. Antes de estrear a trama, muito se falava sobre o grande passo que a Globo dava ao trazer uma atriz madura como protagonista de novela, algo que não acontecia pelo menos desde “Passione”, quando Fernanda Montenegro, aos 81 anos, foi o destaque da trama, ao lado de Tony Ramos. Presente na abertura dos créditos, privilégio que costuma ser atribuído justamente aos atores principais das novelas, Arlete Salles é uma protagonista virtual de “Família é Tudo“. Há semanas a novela orbita nos conflitos dos jovens e não dos da personagem da atriz – que deveria, ante à função que desempenha, conduzir a dramaturgia, e não o contrário. E o caso de Arlete é ainda mais delicado por assemelhar-se a um desmazelo com a sua personagem mesmo. Entre os capítulos 100 e 113, aos quais tivemos acesso, Frida/Catarina está(ão) ausentes de todos.
Contudo, segundo fontes do elenco, Arlete já voltou a gravar. Na última sexta-feira (28), inclusive, gravou por todos dia e até em horários mais tardios, o que sinalizaria um retorno da(s) personagem (ns), à trama. Em vários outros casos nas novelas, a mudança de diretriz se deu ou por um erro de escalação, ou por falta de carisma da personagem junto ao público, preconceito do público, ou ainda por uma escolha dramatúrgica intencional: O autor preferiu direcionar para outro intérprete a condução da narrativa.
Relembre outras cinco novelas nas quais o protagonista se “coadjuvou” na trama que estrelava e as várias razões que motivou a isso. Coincidentemente, alguma das novelas citadas, assim como “Família é Tudo“, são tramas das 19h.
Vira Lata
Exibida em 1996, “Vira Lata” vinha no embalo de “Quatro por Quatro”, novela de Carlos Lombardi que respondeu por uma das maiores audiências da década de 1990. Porém, esta trama não viveu a mesma sorte que a antecessora do autor no horário. Fortemente “masculina”, sexual e , segundo alguns, apelativa, a novela desagradou a audiência, os atores, e a relação do elenco com o autor. Insatisfeita, a primeira a pedir o boné foi Glória Menezes, que era a protagonista madura da trama. Stella, sua personagem, era, realmente, bem diferente daquelas que Glória costumava interpretar. Ela abandonou os filhos e o marido no Brasil para “curtir a vida” com o amante. Inicialmente Glória pediu um afastamento de um mês para fazer uma peça, depois, mais um mês por estafa, e acabou saindo da novela. Em seu lugar, entrou Susana Vieira, para equivaler sua função dramática. E a coisa não para por aí. Andréa Beltrão, a protagonista jovem, também se desentendeu com o autor, afastou-se e teve uma gravidez de risco. Coube a Lombardi destacar outras duas atrizes: Carolina Dieckmann – que virou a protagonista feminina de fato – e Virgínia Nowicki.
Começar de Novo
Em “Começar de Novo” (2004), os protagonistas eram Natália do Valle, Marcos Paulo (1951-2012) e Giselle Itié. Contudo, Giselle, em sua primeira protagonista, foi duramente criticada por seu personagem, Júlia, que acabou deixando a trama central e foi substituída por Carolina Ferraz, que passou a disputador o amor de Miguel (Marcos Paulo). Porém, como um todo, “Começar de Novo“, foi problemática, teve uma audiência baixa, atores que foram desligados da trama e até mesmo o autor, Antonio Calmon, teve uma estafa e precisou deixar a trama por um tempo.
Além do Horizonte
“Além do Horizonte” (2013), foi uma tentativa da Globo em investir no segmento do realismo fantástico nas novelas e colocando Marcos Bernstein e Carlos Gregório na estreia como roteiristas solo. A ideia não vingou, e “Além do Horizonte“, virou uma colcha de retalhos. Como toda obra aberta, precisou ser consertada enquanto estava no ar. Um dos ajustes foi fazê-la uma “novela careta”, tradicional, enquanto era exibida. Alexandre Nero, o vilão, morreu para poder estrear em “Império”, como protagonista. Outro conserto foi tirar o destaque de Vinícius Tardio, um dos protagonistas da trama, que não vinha sendo bem avaliado nem pelo público nem pela crítica. Acabou que o destaque maior foi dado a Igor Angelkorte, também estreante, e o personagem de Vinícius ficou irrelevante. A experiência com a novela foi tão traumática que Vinícius mudou de nome depois dela e passou a assinar Vinícius Redd, em 2017, e voltou, naquele ano, às novelas da Globo.
Êta Mundo Bom
Em 2016, Walcyr Carrasco escreveu “Êta Mundo Bom“, novela que alardeava ser a primeira a trazer Débora Nascimento como protagonista, em par com Sérgio Guizé. Contudo, o público acabou torcendo por Maria, personagem de Bianca Bin. Dando vazão aos ouvidos do telespectador,Walcyr Carrasco fez de Maria a protagonista feminina da trama, ainda que ela não tenha terminado com Candinho (Sérgio Guizé), que ficou com Filomena, personagem de Débora. Na vida real, Bianca e Guizé estão em um romance que dura até os dias de hoje.
Olho por Olho
“Olho por Olho“, da extinta TV Manchete, de todas foi a única a contar com o preconceito como motivador para a troca de personagens de destaque. O Brasil não estava preparado em 1988, para ter uma mocinha prostituta e travesti. Cláudia Celeste (1952-2018) chegou a ser anunciada como protagonista, iniciou a trama como tal, mas por pedido dos telespectadores e da própria casa, José Louzeiro (1932-2017) elevou Beth Goulart à função e coadjuvou Cláudia Celeste, que não mais viria a fazer uma novela inteira. Uma das alegações do público, que mandava cartas à Censura Federal, era ser algo atentório à moral, ter “uma travesti numa novela”.
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