
*Por Brunna Condini
Nada será como antes pós-coronavírus. Será? Não sabemos. Mas nós todos, de alguma forma, começamos a repensar como vivemos, trabalhamos, nos comunicamos e nos relacionamos. Pensando nisso, convidamos Eriberto Leão para falar do seu novo projeto, “O Astronauta”, que estreou nesta quinta-feira, no Instagram. A ação é múltipla e acompanha os novos tempos: envolve peça teatral apresentada via streaming e presencial, websérie, minissérie em realidade virtual e entrevistas. Tudo transmitido simultaneamente no Instagram, Youtube e Facebook, para contar a história de um astronauta que é enviado ao espaço para uma missão intergaláctica. Essa viagem o leva a uma jornada interior com reflexões sobre a existência humana e a sua própria existência. O projeto é inspirado na cultura pop da ficção científica, nos filmes “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, “Solaris” e “Her” e no repertório musical de David Bowie, em especial a música “Space Oddity”.

Eriberto Leão apresenta: “O Astronauta”
Você estreou esse “pacote” de projeto, mas as ações vão ser em etapas ou simultâneas? “Tudo vai ser feito gradativamente, como pílulas. Primeiro os teasers, depois diários pré-viagem, realidade virtual e finalizaremos com a viagem espacial que é a peça. Vamos nos metamorfoseando. É impossível planejar cartesianamente nesse momento”, diz o ator. E dá mais detalhes: “A websérie tem oito capítulos, e começam a ser exibidos até dia 8 de outubro. Nela, os espectadores acompanham a preparação do personagem para a viagem, os medos e os sonhos. Já a minissérie de três capítulos em realidade virtual estreia 29 de setembro, e oferece uma experiência imersiva de uma viagem pelo espaço com seus planetas e nebulosas. Na sequência, possivelmente em novembro, será a vez da peça teatral em transmissão ao vivo, e nela acompanhamos a viagem propriamente dita. Agora, a peça física, com público, provavelmente só no início do ano que vem”.
O projeto, idealizado pelo diretor José Luiz Jr e desenvolvido em parceria com Eriberto, tinha estreia programada como espetáculo teatral para o início deste ano, quando tudo parou. “Agora, queremos abrir as portas da percepção do espectador. Fazer a junção entre a viagem espacial e a viagem para dentro de si mesmo. A alquimia diz que o universo é mental. É essa a jornada espacial”, detalha sobre o trabalho, que por conta da pandemia, criou ramificações criativas que o fazem ainda mais atual.
O cenário que vivemos mundialmente segue transformando as relações e as linguagens na arte e na vida. De olho nisso, o ator pretende alcançar ainda mais espectadores. O projeto é inspirado na cultura pop da ficção científica. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência? “Não vejo uma coincidência que é significativa como mera coincidência. Vejo como sincronicidade”, aponta. “Estamos criando intuitivamente uma nova estética. Não temos outra alternativa”.
Eriberto, com o astronauta, fala diretamente com o público, dividindo suas questões e angústias. A ideia, é oferecer uma espécie de reality show em streaming, em que todas as pessoas na Terra (os espectadores) podem acompanhar a viagem do astronauta 24 horas por dia. Mas quando a jornada vai avançando, essa comunicação vai desaparecendo, e o astronauta vive a experiência do isolamento completo.
Além da tecnologia facilitar meios para a arte continuar sobrevivendo em meio à pandemia, muitos acreditam que o teatro transmitido via streaming pode ter chegado para ficar, como bem disse o diretor Aderbal Freire-Filho, e no futuro pode nascer uma 9ª arte vinda disso. O que acha? “Eu vejo como uma nova estética. O teatro já vem se mesclando com a tecnologia há tempos. Câmeras e vídeos não são novidade para as artes cênicas. O novo é o meio e a nova relação entre tecnologia e as artes. O meio pelo qual o receptor, que é o público, recebe a mensagem. E se “o meio é a mensagem”, qual a mensagem desse novo meio? Isso realmente me interessa”, filosofa.
Isolamento em família
Além da estreia da peça presencial ter sido adiada, o ator viu a novela “Além da Ilusão” a nova das 18h da Rede Globo, de Alessandra Poggi com direção de Pedro Vasconcelos também ficar para 2021. Mas Eriberto não se queixa. Tem ficado durante o período de quarentena com a mulher, a também atriz e ativista da causa animal, Andrea Leal, e os filhos João, 9 anos, e Gael, 2, na Região Serrana do Rio de Janeiro, e tem trabalhado de lá.
O que tem sido mais difícil em ficar isolado? “Somos uma “espécie que sabe”, (parafraseando o belo livro de Viviane Mosé) e sabemos que somos seres sociais. Nossa sociedade foi construída a partir das relações sociais, da linguagem e da comunicação. Estamos isolados, mas nos comunicando. O difícil, para mim, tem sido o excesso de informação junto com o isolamento, notícias e acontecimentos mundo afora. É muito diferente de um monge que decide se isolar voluntariamente em uma cela de mosteiro, sem informações chegando de todos os lados”

Eriberto com os filhos Gael e João na região serrana do Rio, onde passam a quarentena (Reprodução Instagram)
Se fortalecendo na proatividade, na família e na arte, ele afirma que tem gostado de experimentar essa vida fora da metrópole e a convivência mais intensa em família. “Eu e a Andrea reforçamos ainda mais nosso casamento. E a relação entre nós e os meninos se estreitou absurdamente”, revela.
Você tem quase 50 anos, como avalia o trajeto até aqui? “Sou bem-aventurado. Tenho muita gratidão pela minha história e pelas histórias que ajudei a contar, no teatro, cinema e televisão. Tenho 48 anos, o 1o ato nem terminou ainda. Tem muita história pela frente. Que venha o 2o ato. Aprendi que amar e mudar as coisas, me interessa mais”.

Andrea Leal e Eriberto Leão: o casal está junto há mais de 10 anos (Divulgação/Globo)
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