Teatro & Pensata

Sucesso como autora de novelas na Globo, Duca Rachid estreia texto teatral: “Minha origem”

A escritora revelou detalhes do processo, próximo texto para a TV e defende o papel do artista: “Não podemos nos calar. A arte é fundamental, nos ajuda a refletir, a pensar, nos chama atenção para as coisas”.

Publicado em 14/11/2018 | Por Junior de Paula

*Por Leticia Sabbatini

O drama As Brasas, do escritor húngaro Sándor Márai (1900-1989), ganha sua primeira adaptação teatral em solo brasileiro sob o olhar e palavras atentos da experiente autora Duca Rachid, que faz sua estreia com a dramaturgia teatral. Com uma consolidada carreira na TV, Duca é reconhecida por importantes trabalhos, como “Cordel Encantado”, “Joia Rara” e “O Profeta”. A novidade, agora, é que está em temporada com a peça e trabalhando em mais uma novela que vai ao ar em março de 2019, mais um vez ao lado da parceira Thelma Guedes. Em meio a tudo isso, Duca conversou com a equipe do site HT sobre a atual conjuntura do país, o processo de adaptação da peça em cartaz, a vontade de continuar no teatro e seus próximos projetos.

Duca Rachid

Dois amigos de infância que não se veem há 41 anos reencontram-se em uma história visceral de amizade e amor, marcada pelo rancor e ressentimento. Essa é a trama principal de “As Brasas”, que, na montagem de Duca, os protagonistas, Henrik e Konrad, dividem a narrativa da história, abandonando o monólogo da obra original. “O maior desafio foi encontrar a voz de Konrad, que é o personagem que volta para o acerto de contas com Henrik. Encontrar esse equilíbrio do que ele poderia dizer foi o maior desafio com certeza”, admitiu a autora. Os atores Herson Capri e Genézio de Barros dão vida aos dois personagens principais e dividem o palco com Nana Carneiro da Cunha, que, além de interpretar Kristina, participa da trilha sonora executada ao vivo, tocando violoncelo. “Eles abraçaram o projeto, adoraram o texto e têm maturidade para entender os personagens”, afirmou Duca sobre a escolha do elenco.

Herson Capri, Genézio de Barros e Nana Carneiro da Cunha formam o núcleo principal da peça (Foto: Leo Aversa)

A escritora vem amadurecendo a ideia de construir essa adaptação há quase 10 anos, quando ela e o também escritor Júlio Fischer conheceram a obra e se encantaram. “Foi um período longo, porque teve toda uma negociação para conseguir os direitos autorais do livro”, admitiu. O espetáculo teve a sua estreia nacional em 28 de setembro, no Sesc Santana, em São Paulo, iniciando a temporada em 7 de novembro, no Teatro das Artes, Rio de Janeiro. As exibições continuam até o dia 30 de novembro e ocorrem todas as quartas, quintas e sextas. Para a orgulhosa dramaturga, a trama é indicada para todos: “Uma história sobre amizade, paixão, lealdade, códigos de honra, finitude e velhice. É uma história universal”.

Com 57 anos de idade, Duca Rachid estreou na carreira televisiva em 1993. De lá para cá, a jornalista e escritora fez parcerias com grandes nomes, como Thelma Guedes, Walcyr Carrasco e Manuela Dias em diversos e renomados trabalhos, como “Ligações Perigosas”, “Sítio do Picapau Amarelo”, “A Padroeira” e outros. Apesar de toda essa bagagem televisiva, é a primeira vez que a escritora consegue tempo em sua movimentada carreira para realizar a sua antiga vontade de se aventurar no mundo do teatro. “É completamente diferente, um outro tipo de imaginação. Quando a gente pensa em cinema e televisão, pensa em locações e cenários muito concretos. No teatro, você tem que pensar numa encenação, que é uma coisa mais abstrata”, afirmou. Apesar de estar em um novo território, Duca demonstra estar bastante realizada profissionalmente e admite que precisou fazer um esforço para estrear nos palcos: “Eu sempre quis trabalhar com teatro, ele é a origem de todo o meu trabalho. Só que eu venho emendando projetos de novela um com o outro e não tinha como me dedicar a isso. Então, precisei me ajustar e arrumar um tempo”, contou.

“As Brasas” estreou no dia 7 de novembro e promete muitas emoções aos espectadores (Foto: Caio Galluci)

Para além de sua experiência profissional, Duca comentou sobre a vivência pessoal de ser uma mulher em um ambiente majoritariamente masculino, com otimismo: “Eu acho que cada vez mais temos mulheres escrevendo para o teatro e para a televisão. O mundo é machista, mas o mercado da dramaturgia e literatura vem aos poucos se abrindo para nós com o passar do tempo”. A importância de pautar temas e questões sociais, como a inclusão feminina no mercado de trabalho, fica cada vez mais evidente. Segundo a pesquisa do Grupo de Estudos em Dramaturgia e Crítica Teatral, da Universidade de Brasília, de um total de textos teatrais publicados no Brasil desde 1958, apenas 21,1% é de autoria feminina. Para a entrevistada, um dos papeis da arte é abordar temáticas relevantes como essa: “Precisamos falar de coisas importantes, não podemos nos calar. A arte é fundamental, nos ajuda a refletir, a pensar, nos chama atenção para as coisas”.

Quando questionada sobre o atual contexto político e econômico do Brasil, ela afirma que são tempos de ameaça aos artistas: “Sempre foi muito difícil fazer arte no Brasil. Vivemos uma ameaça à liberdade de expressão e precisamos reagir fazendo cada vez mais arte. Isso é resistência. Precisamos fazer teatro nas ruas, nas periferias, levar o teatro para a base. Precisamos resistir e ser o que somos”, enfatizou. No momento, além de “As Brasas”, a escritora está envolvida com seu mais novo trabalho, a novela “Órfãos da Terra”. Em mais uma parceria com Thelma Guedes, a obra pretende trazer a temática dos refugiados para a casa dos telespectadores. Sobre novos projetos teatrais, afirmou que no futuro deseja escrever outras adaptações e continuar falando de temas relevantes nos palcos. Ao final da conversa com o site HT, Duca fez um apelo: “Estamos em um período no qual as paixões estão muito acirradas de um lado e do outro e “As Brasas” fala de como essas paixões movimentam a vida da gente, mas também podem nos aniquilar. É bem interessante pensar sobre isso, nesse momento”.

AS BRASAS
HORÁRIOS: quartas e quintas, às 20h, e sexta, às 21h
INGRESSOS: R$60 (inteira) e R$30 (meia-entrada)
DURAÇÃO: 70 min
CLASSIFICAÇÃO: 12 anos
TEMPORADA: até 30 de novembro
LOCAL: Teatro das Artes- Shopping da Gávea: Rua Marquês de São Vicente, 52.
TELEFONE: (21) 2540-6004

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