Teatro & Pensata

Projeto ‘De Volta ao Porto’, que trata de História com humor e postura crítica, chega a Portugal em 2020

‘Será importante para os portugueses lembrarem sempre de seu papel na história do Brasil’, acredita Alexei Waichenberg, um dos idealizadores da mostra, que contará com cinco espetáculos inéditos

Publicado em 18/07/2019 | Por Heloisa Tolipan

Alexei na cidade do Porto, onde mora atualmente, com uma Nau quinhentista ao fundo

*Com Jeff Lessa

Um dos projetos mais bonitos e intrigantes já desenvolvidos para o teatro de rua no Rio de Janeiro vai voltar à cena no começo do ano que vem. Trata-se do ‘Porto de Memórias’, que fez imenso sucesso quando foi apresentado em 2014 e 2015 na cidade – mais precisamente na Zona Portuária e em outros locais marcantes para a história do país. Ao todo, seis episódios foram criados em encenações gratuitas com narrativas que equilibram bom humor e um teor altamente crítico. Para se ter uma ideia da grandiosidade da ação, cariocas e visitantes podiam ver, ao longo de um mês, ‘Dom Pedro’, no Paço Imperial; ‘João Candido’, o famoso Almirante Negro, no Largo de São Francisco da Prainha; e o infame mercado de africanos escravizados em pleno funcionamento, na rotina diária da compra e venda de seres humanos, no Cais do Valongo. A grande novidade é que nossos companheiros lusitanos poderão compartilhar conosco esse mix de história com crítica social à brasileira. Inspirado em “Porto de Memórias”, o projeto “De Volta ao Porto 2020” chega a Portugal no ano que vem pelas mãos do produtor, roteirista e dramaturgo Alexei Waichenberg, autor e diretor dos espetáculos, e da idealizadora do projeto, a empreendedora cultural Sonia Mattos.

Alexei Waichenberg quer mostrar aos portugueses, através do teatro de rua, a influência do período monárquico nas transformações sociais aqui e em Portugal (Foto de Sérgio Ayres)

Para os patrícios, cinco peças serão inéditas. “Vai ser importante para os portugueses reverem o papel na História do Brasil”, afirma o dramaturgo. “Vamos reunir cerca de 200 atores e 80 técnicos em artes cênicas, além de jovens da região. Companhias profissionais, personalidades do teatro e da dança do país terão participações especiais no projeto, que visa a promover a inclusão de jovens em situação de risco do Norte de Portugal” (desde julho de 2018 Waichenberg vive na cidade do Porto).

Uma característica interessante do projeto lusitano é que os espetáculos vão tratar especificamente de fatos históricos vivenciados pelos portugueses. O único texto não inédito, escrito pelo escritor e poeta Geraldo Carneiro e dirigido pela coreógrafa Regina Miranda, será ‘O Mercado Negro’, remontagem da peça encenada no Rio há cinco anos. “Vamos pleitear o patrocínio da Câmara Municipal do Porto, que está investindo muito em projetos não portugueses” – comemora Waichenberg. “Essa atitude faz parte de uma política de valorização da Diáspora Portuguesa que vem sendo empreendida pela Câmara num momento em que Portugal ganha mais destaque na vida econômica europeia, com foco especial na economia criativa do Norte”.

Marcéu Pierrotti, Alexei e Maria Gil do projeto Alma Cigana. Da farsa e dos pregos a um realejo de alegria e dor (Foto: Sofia Beça)

Os objetivos do projeto ‘De Volta ao Porto’ são, basicamente, dois. O primeiro é mostrar às plateias portuguesas a influência do processo de colonização do período monárquico nas transformações sociais experimentadas dos dois lados do Atlântico. A iniciativa também busca viabilizar o diálogo da História e da arte com o cotidiano dos moradores da região. “O projeto é muito interessante. Teremos a Imperatriz Leopoldina voltando para Portugal; ela velhinha se lembrando dos benefícios que a missão artística austríaca levou para o Brasil; Dom Pedro I doando seu coração para a Igreja, demonstrando gratidão; e outras situações surpreendentes”, adianta Waichenberg.

“Em 2014, a gente queria ressignificar a história para saber o que havia por baixo daquelas camadas de histórias” conta Waichenberg. “Não podíamos deixar a cultura da região morrer, ela precisava ser conhecida. Originalmente, cada peça teve duas apresentações. Também desenvolvemos projetos sociais, promovendo a formação de atores e cenógrafos. O projeto foi extremamente bem recebido” e contava com as contribuições luxuosas de Geraldinho Carneiro e Regina Miranda. (Vale lembrar que, em 2014, com a realização da Copa do Mundo no Brasil, havia um imenso afluxo de turistas na cidade, o que influenciou na escolha das datas das apresentações de cada espetáculo.)

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No ano seguinte, ‘Porto de Memórias’ foi reeditado com a montagem de quatro peças inéditas, desta vez com textos de Alexei Waichenberg, três delas com direção do autor e uma com direção de Regina Miranda. No Rio, dois novos espetáculos serão apresentados em janeiro e em fevereiro de 2020. Para começar, a história do engenheiro André Rebouças, filho de uma escrava nascida livre com um alfaiate português, será contada em ‘Rebouças: No Túnel do Tempo’. Negro, monarquista e abolicionista, ele conseguiu, com um de seus irmãos também formado em engenharia, sanar o problema do abastecimento de água na capital do Império, além de participar ativamente do movimento abolicionista.

Encenado no Cais do Valongo, uma de suas construções mais famosas (Rebouças projetou o porto do Rio e o local ficou conhecido, na época, como Cais da Imperatriz, por ter sido escolhido para o desembarque de Dona Tereza Cristina, futura mulher de Dom Pedro II, em 1843), o espetáculo constrói a biografia do engenheiro de sua juventude à morte através de reminiscências e diálogos imaginários com personagens que povoaram sua vida. A peça aborda questões como a diáspora africana, as lutas abolicionistas e o legado deixado pelos irmãos engenheiros. Com a Proclamação da República, em 1889, o monarquista André exilou-se na Europa junto com a Família Imperial, vindo a morrer nove anos depois em Funchal, capital da Ilha da Madeira, na África.

Maria Gil, Marcéu Pierrotti e Filipe Gaspar (mãe e filhos no espetáculo. Ela, samara, Miro e Wladimir (Foto: Sofia Beça)

O corsário francês René Duguay-Trouin, que, em 12 de setembro de 1711, tomou a população do Rio como refém e saqueou a capital, será o segundo personagem resgatado por “Porto de Memórias”, no espetáculo “Saindo à Francesa”. Após seu sucesso tropical, o pirata perde duas embarcações e uma parte do tesouro roubado ao retornar à França. Apesar das trapalhadas, a epopeia foi considerada um sucesso e rendeu glórias e honrarias a Duguay-Trouin. O espetáculo joga luz sobre aspectos pouco conhecidos da história da cidade, como uma suposta aliança entre franceses e cariocas para “comissionar” o butim amealhado pelo corsário. Sua atuação na proteção de cristãos-novos condenados à fogueira pela Inquisição também é debatida na peça, evidenciando que a aliança entre o poder e o crime não nasceu ontem. “Saindo à francesa”, montada no local onde foi construída a Fortaleza da Conceição, após a vitória da invasão gaulesa, tem inegável apelo histórico e satírico.

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