Teatro & Pensata

O site HT teve acesso com exclusividade aos bastidores do circo mais famoso do mundo, o Cirque du Soleil

O espetáculo Amaluna estreia dia 28 no Rio de Janeiro e coloca em evidência as mulheres

Publicado em 20/12/2017 | Por Ana Clara Xavier

Depois de quatro anos longe do Brasil, a cia voltou aos palcos de São Paulo e Rio (Foto: Divulgação)

O Cirque Du Soleil chegou ao Brasil em outubro deste ano com o espetáculo Amaluna. Nos três meses que esteve em São Paulo, a companhia conseguiu casa lotada em quase todos os dias, com 99% dos ingressos vendidos. A estrutura, armada no Parque Villa Lobos, demorou três dias para entrar nos oitenta e cinco contêineres disponíveis e chegar ao Rio de Janeiro, onde os artistas começarão a se apresentar no dia 28. Além de transportar o palco, o Cirque leva diversas tendas como, por exemplo, cozinha, área médica, espaços para reunião, escritórios, áreas de lazer e outros espaços que visam o conforto dos profissionais.  Todo o espaço do Cirque demora oito dias para ser montado, dando um curto período de tempo para os profissionais descansarem, até lá. Enquanto eles não se apresentam aqui, o site HT conseguiu entrar, com exclusividade, nos bastidores do circo mais famoso do mundo e pode conversar com alguns profissionais sobre a experiência de participar do Cirque Du Soleil.

Amaluma fala sobre um amor proibido (Foto: Divulgação)

O nome Amaluna representa uma fusão entre as palavras ‘ama’, que se refere a ‘mãe’, e ‘luna’, que significa ‘lua’. A ideia é, logo de cara, exaltar um dos maiores símbolos de feminilidade e mistério, já que o principal tema do show é o gênero feminino. O espetáculo conta a história de uma ilha repleta de mulheres e, devido a uma tempestade, um barco lotado de homens desembarca no local. A partir de então, os rapazes começam a tentar entender como funciona o estilo de vida daquelas pessoas. “Nós chegamos em uma ilha cheia de mulheres lindas e autossuficientes. Somos recebidos com muito carinho e vamos aprendendo mais sobre elas. É uma forma muito sutil de levar a arte feminina. Estamos colocando o gênero no foco, que é onde elas merecem estar, sem passar uma ideia de superioridade. O show é majoritariamente feito por meninas e é incrível do início ao fim”, afirmou o brasileiro e ex-ginasta olímpico, Gabriel Christo, que participa do espetáculo como um dos marinheiros. Ele é apenas mais um dos cento e vinte funcionários e artista que fazem parte do elenco ou trabalham com gestão artística, atendimento ao cliente, técnicos de show e outros. Toda esta galera forma uma equipe composta por vinte e duas nacionalidades, como Austrália, Bélgica, Brasil, Canadá, China, França, Japão, México, Mongólia, Holanda, Nova Zelândia e outros.

A maior parte destes profissionais, contabilizando 60%, são do gênero feminino o que reafirma a importância e o destaque que Amaluna dá as mulheres. A ideia da diretora Diane Paulus e do diretor de criação Fernand Rainville não era construir um espetáculo que fosse unicamente para o gênero, na verdade, a ideia era construir um espetáculo que as colocasse como o centro. “O mundo inteiro está se mobilizando para trazer atenção para o papel da mulher na sociedade, por isso é muito pertinente que o Cirque tenha se mobilizado para criar este espetáculo, em 2012. Por ser uma empresa como esta e o circo mais importante do mundo, escolher este tema é reflexo da mudança social. Não é ele que está imprimindo a mudança, é a arte que está mostrando as necessidades da sociedade. No circo tradicional, a mulher tem um papel de beleza e sensualidade, é um ícone inatingível. É aquela que está do lado do mágico, do domador de leão ou no trapézio. É importante quebrar este paradigma”, opinou a brasileira e palhaça do espetáculo, Gabriella Argento. Para trazer este aspecto de apreciação da mulher, Diane Pauluse e Fernand Rainville buscaram inspiração na mitologia grega e nórdica.

O espetáculo estreou em Montreal em 2012 (Foto: Divulgação)

Depois que esta ideia foi concebida, foi a vez do diretor artístico, James Santos, transformar o roteiro em um espetáculo, criando uma ponte entre os artistas e o espetáculo em si. Tendo que ficar atento com o objetivo da criação em si, que era colocar a feminilidade no centro de tudo. “Temos uma forte representação das mulheres, com diferentes corpos, idades e etnias. Com isso, nos atos, é possível ver diferentes partes da energia feminina. O show mostra o quão frágil as relações podem ser, mas também exibe como o gênero está disposto a se abrir neste lado mais vulnerável do relacionamento. A fertilidade, a fortaleza e o amor foram as formas de exaltar o feminino que nós encontramos para fazer o espetáculo”, explicou James Santos.

Rachael Wood toca guitarra e é líder da banda (Foto; DIvulgação)

As mulheres se destacam em todos os momentos da cena, inclusive, através da melodia. O som do espetáculo fica a cargo de uma banda formada unicamente por elas que são lideradas pela inglesa Rachael Wood. “A produção do Cirque Du Soleil estava procurando por uma banda de rock inteiramente formada por mulheres. Buscaram em todos os lugares do mundo até escolherem o meu grupo”, contou Rachael, que trabalha há seis anos neste show como guitarrista e há seis meses como líder. Ela é responsável por tocar as músicas assinadas pelos compositores e arranjadores Guy Dubuc e Marc Lessard e feitas especialmente para a ocasião. Durante a composição das canções, inclusive, os artistas tocam chocalho e triângulo que são vestígios de uma influência brasileira sobre o espetáculo. Um conjunto musical de rock composto unicamente por mulheres é novidade para o circo mais famoso mundialmente. “Acho que é muito importante ter uma banda com mulheres tão fortes. Na Inglaterra, as oportunidades para o gênero feminino são muito boas, mas sei que não é assim em outros lugares do mundo. De qualquer forma, é significativo estar em um grupo de rock que não precise de um homem. É uma boa mudança”, afirmou Rachael Wood.

O balde com água é uma das atrações inéditas (Foto: Divulgação)

Em um espetáculo tão famoso mundialmente e conceituado, parece que todos os passos são milimetricamente pensados. E são mesmo. No entanto, a líder da banda contou que existe pequenos espaços para cacos. “Todas as noites nós conseguimos fazer diferentes solos de guitarra, desde que siga um mesmo estilo e tenha a mesma linguagem”, confessou Rachael. Enquanto todos estão seguindo a música, ela acompanha o ritmo do que está acontecendo no palco. Observa cada coreografia para gerenciar quando começará a próxima sessão musical e, para isso, é preciso improvisar muito. “Quando vejo que as pessoas estão prestes a fazer o truque, me comunico com a banda e chamo os integrantes para começar a próxima parte do show. De um dia para o outro nunca vai ser igual. Alguns momentos mais coreografados são parecidos, mas na maior parte estamos seguindo os acrobatas”, explicou. As coisas sempre podem dar errado, mas a líder da banda garantiu que a equipe possui técnica o suficiente para lidar com o que acontecer de errado.

A maioria dos artistas que fazem parte do elenco do Cirque Du Soleil já foram atletas olímpicos, como o próprio brasileiro Gabriel Christo. A razão do porquê isto acontece é bastante óbvia. As acrobacias são bastante complicadas de serem feitas e é preciso um passado relevante como ginasta. Mas as semelhanças terminam por ai. “Como atleta é preciso encontrar a perfeição. A posição precisa ser perfeita, porque a nota é o seu objetivo na competição. Enquanto isso, o erro é permitido dentro do Cirque, o público gosta quando erramos algo e tentamos fazer de novo. Não importa se o movimento não esteja milimetricamente perfeito, podemos brincar com a plateia”, explicou a ex-ginasta dos Estados Unidos e integrante do elenco de Amaluna, Melanie Sinclair.

Durante o passeio pelos bastidores do Cirque, o site HT esbarrou com algumas cenas inesperadas como artistas treinando enquanto brincavam com bebês que ainda estavam na fase de engatinhar. O que pode soar estranho para outras pessoas, no circo é bastante comum. Devido a vida instável e corrida, diversos profissionais acabam se relacionando e tendo filhos enquanto passeiam pelo mundo. A artista Melanie Sinclair se encaixa nesta ideia. Apesar do marido não fazer parte do grupo artístico, o rapaz viaja com ela e o filho de vinte sete meses pelo mundo. No seu tempo livre entre uma apresentação e outra, a americana precisa criar o seu bebê. “É desafiante, maravilhoso, cansativo e bonito. É uma combinação de fatores. Muitas pessoas, em casa, possuem babás ou amigos que podem ajudar quando é preciso. Em turnê, eu faço tudo, não tenho a oportunidade de ter este tempo. Ao mesmo tempo, sempre senti saudades de casa e agora que tenho meu marido e filho aqui, não sinto mais”, comemorou. Todos os artistas com os quais conversamos sentem falta das coisas tradicionais como ter uma casa ou vizinhos, poder levar o filho na escola e outros. Esta é uma carreira curta. Não poderei viver para sempre no circo e minha família não poderá vir comigo por tanto tempo. Por isso estou agarrando esta oportunidade, apesar de estar exausta. Quero ficar o máximo que eu puder, enquanto puder para depois me estabilizar em um lugar. Além disso, no fundo, gente sempre pode voltar para casa”, completou Melanie.

Melanie faz parte desta cena onde interpreta uma amazonas (Foto: Divulgação)

Para fazer com que o espetáculo seja perfeito, os artistas contam com uma equipe numerosa e um backstage gigantesco. Neste grupo estão inclusos os figurinistas que contribuem para que as peças em cena se mantenham em perfeito estado. São mais de mil roupas no palco  e sete profissionais, que passam o dia costurando e lavando as peças, de forma que estas possam ser utilizadas no dia seguinte. Ao final de cada apresentação, são necessárias duas horas para lavar todas as vestimentas. “Todos tem pelo menos duas roupas. Se algo é danificado durante o espetáculo, precisamos saber quanto tempo o artista tem até voltar para a cena. Se são apenas dois minutos, costuramos com o figurino ainda na pessoa. Caso contrário, o artista troca de roupa. Nós não fazemos parte da peça, mas caso não existíssemos o show não seria possível”, garantiu o chefe de figurino, Larry Edwards, que é o responsável por assegurar que cada peça esteja em perfeito uso. Todas as roupas são feitas em Montreal, no Canadá. Dependendo do país que o espetáculo será exibido, Larry Edwards precisa solicitar figurinos modificados para que os atletas não passem frio, o que não foi o caso do Brasil.

O responsável pela idealização do figurino foi Mérédith Caron. Segundo Larry Edwards, ao criar as peças elas pensou nos diferentes tipos de mulheres que iriam entrar naquelas roupas e, para isso, usou diferentes tecidos e cores. O chefe de figurinos acompanhou a formação de cada modelo, em 2012. “No início do show, foi preciso muita negociação. O diretor precisou coincidir a vontade dos artistas com o design das peças. O figurino das amazonas, por exemplo, passou por treze mudanças até que todos ficassem felizes com o resultado final. O diretor e o designer precisam estar felizes, mas a roupa também precisa facilitar o movimento em cena. É levado mais em consideração os argumentos de segurança proferidos pelos artistas do que a estética do figurino”, informou Larry.

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