Teatro & Pensata

“Nós já vendemos pipoca para pagar os custos das produções teatrais do grupo”, conta Digão Ribeiro

Estreando como diretor de teatro, aos 23 anos, ele é cria da Cidade de Deus e faz o début no espetáculo ‘Em Busca da Fama’, com elenco da Zona Oeste e Baixada Fluminense. O ator da série ‘Sob Pressão’ ainda revela sua passagem por Londres para gravar a série 'Perdidão', inspirada em sitcons dos anos 1990

Publicado em 24/08/2019 | Por Heloisa Tolipan

A peça ‘Em busca da fama’ estreia no Teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande, com direção do ator Digão Ribeiro

*Por Rafael Moura

Aos 23 anos, o ator Digão Ribeiro faz estreia dupla, neste sábado (dia 24), no espetáculo ‘Em Busca da Fama‘, no Teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande. A peça tem direção do rapaz, que é cria da Cidade de Deus. “Estar como diretor é uma loucura, porque a gente inverte totalmente os papeis. Quando você está atuando a sua criação tem um limite. Já quando você tem um grupo de 30 pessoas seguindo as suas ideias é uma responsabilidade imensa. É algo poderoso poder falar sobre o que acredito. Dá um misto de medo e ansiedade. É como se eu fosse pular de paraquedas”, explica Digão, em entrevista exclusiva ao site Heloisa Tolipan. Ele lembra que, durante a produção do seu primeiro espetáculo, ‘Clarinha, a Abelhinha‘, a companhia contou com uma força coletiva. “Os oito jovens usaram lançaram mão da criatividade e quase nenhuma experiência se descobrindo como autores, diretores, cenógrafos e figurinistas. Para pagar os custos, eles venderam uma rifa e pipoca na porta do teatro. Um levava o microondas, outro, as bebidas e mais outro, as pipocas. E, assim, antes de entrar em cena, os jovens produtores eram pipoqueiros nas peças e eventos das companhias amigas”, lembra Digão.

A peça, que é uma adaptação de Hairspray, se passa em 1962, em Baltimore, e conta a trajetória dos adolescentes da cidade que sonhavam em aparecer no ‘The Corny Collins Show‘, um famoso programa de dança da televisão. Neste cenário, uma jovem impressiona os juízes do programa e acaba ganhando um espaço na atração. O seu sucesso ameaça a hegemonia da principal dançarina da atração e a disputa entre elas torna-se mais acirrada quando as duas jovens se interessam pelo mesmo rapaz. Ao mesmo tempo, o contexto histórico-espacial toma parte do protagonismo, na medida em que é promovida a integração racial por oposição à separação que se verificava na época. O diretor revelou que muitos desses dilemas podem ser transportados para o Brasil de 2019. “A ideia dessa obra surgiu de um sonho meu de adaptar o filme ‘Hairspray’ para o teatro nacional falando sobre as nossas questões, afinal muitas delas, eu carrego comigo. Os tempos se misturam, pois trazemos relatos contemporâneos. Eu, como artista, tenho a obrigação de lançar mão de tudo o que posso para dar voz às pessoas. Também é uma forma de comemorar os três anos da Escola de Artes, que foi uma das maiores conquistas deste grupo de atores”, conta o diretor.

O elenco da peça 'Em busca da fama', uma adaptação do filme 'Hairspray' com direção de Digão Ribeiro

O elenco da peça ‘Em busca da fama’, uma adaptação do filme ‘Hairspray’ com direção de Digão Ribeiro

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Com um elenco de 30 pessoas, a adaptação foi feita por um grupo de atores moradores da Zona Oeste, e da Baixada Fluminense (Nova Iguaçu). Mas, poucos sabem o que este grupo já passou para chegar neste momento de glória. “Há 10 anos, um grupo de jovens atores que se conheceu em um curso livre de teatro usou a força da amizade como combustível para o sonho de fazer essa arte acontecer. Todo esse esforço, aliado ao bom trabalho no palco, deu visibilidade e formação ao grupo. “Com o tempo, os integrantes foram se especializando formalmente e com a experiencia prática, a companhia de teatro amadora de adolescentes formou professores graduados.

Comemorando três anos de sucesso da ‘Escola de Artes Grupo Pipa‘, que nasceu em 2016, na Zona Oeste, construída, literalmente, pelas mãos de seus idealizadores, o espaço recebe dezenas de alunos, principalmente das regiões próximas, que sonham em ser grandes artistas. No palco, Digão vive a personagem Maybelle, uma negra que cuida de um grupo de dançarinos que sofrem com a segregação e racismo. (Neste momento o ator revela que estava no salão botando unhas postiças e provando a peruca loura, parte do processo de caraterização). “Eu, como um negão de quase dois metros de altura, e cara de malvado sou sempre chamado para os mesmos papeis. O nosso maior trabalho agora é destruir e quebrar essas narrativas e estereótipos”, dispara.

Em junho, o ator foi até Londres para gravar a série de comédia ‘Perdidão’, um projeto independente idealizado por ele. “No meu ensino médio fiz cursos de roteiro para novas mídias, sempre gostei muito de escrever, e quando comecei a fazer teatro, me apaixonei. Depois de um tempo, desenvolvi um projeto chamado ‘Perdidão‘. Nele, falamos sobre protagonismo negro e pegamos carona nos sitcons americanos de comédias com episódios independentes, que não seguem uma sequência. Algo tipo ‘Um Maluco no Pedaço‘, ‘Eu, a Patroa e as Crianças’ e ‘Todo Mundo Odeia o Cris‘. Estou aproveitando a viagem para gravar o episódio piloto”, explica Digão. Na obra, o artista apresentará a história de um jovem negro e pobre que sonha em ganhar a vida como ator. “Vamos mostrar um menino vivido por mim, que sai do Brasil em busca de uma carreira internacional. Mas ele se frustra e volta para o país de origem. Sem o apoio da família, ele decide morar com um amigo e, na luta pelo seu sonho, precisa enfrentar inúmeras situações de racismo. O diferencial é que queremos debater esse tema de forma leve e com humor para ser mais bem aceito e a mensagem ser absorvida pelas pessoas”.

Digão Ribeiro que estava em ‘Sob Pressão’ faz sua estreia como diretor de teatro e grava a série independente ‘Perdidão’

No fim do nosso papo, Digão diz que ainda não conseguiu assimilar todas essas conquistas, por sua grandiosidade. “Vindo de onde eu vim, sinto a necessidade de falar sobre o meu cotidiano. Eu me vejo na obrigação de falar das causas da CDD. O mundo já está muito machucado e sempre que vamos dando mais porradas o tiro sai sempre pela culatra. O humor é uma forma de trazer novas narrativas e um novo pensar para a sociedade de forma leve. Só assim podemos tocar o outro para conseguirmos ter mais empatia e respeito”.

Serviço:

Em Busca da Fama

Data: 24, 25 e 31 de Agosto. E 1º de setembro.

Local: Teatro Arthur Azevedo

Horário: 17h

Ingresso: 40,00 Inteira / 20,00 Meia

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